domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ossip Mandelstam, dois poemas

The Greeks gathered for war.
The breath-taking island of Salamis
that hostile hands had torn from them
lay in view of the Athenian harbour.
Now friends from another island
have come to fit out our ships.
The English have never much liked
the sweet soil that is Europe’s.

Continent of the modern Hellenes,
protect Pireus! Save the Acropolis!
Gifts from the island? Who needs
a whole forest of uninvited ships?

1916

One night I was washing in the yard,
above me a sky of jostling stars –
like salt on an axe, each beam –
the barrel near-frozen to the brim.

The gates were shut and locked;
believe me, the earth is strict.
You won’t find a principle cleaner
than the truth there is in fresh linen.

A star dissolves like salt in the barrel.
The ice-cold water blackens.
A cleaner death, saltier troubles,
and the earth is more truthful and terrible.

1921

Tradução de Alistair Noon, tirados daqui.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

sorriso histriónico



Charlot
Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

José Saramago, retirado daqui.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

humilio

e o mundo é isto, e por vezes funciona: salvar pela humilhação, já vimos, é uma metodologia possível e muito antiga. Se não te humilhares não serás salvo, eis a bondade em certos locais estranhos (...)

Gonçalo M. TavaresCanções Mexicanas, Relógio D'Água Editores, 2011.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

ser humilhado cura doenças

        Sabes contar até quanto, pergunta-me um menino. Eu digo que sei contar até muitos.
        Até quanto?, insiste o menino. Eu respondo que não sei.
        Se não sabes até quanto, como podes dizer que é muito?
        Eu começo a contar: 1, 2, 3, 4, 5, 6 e continuo; e o menino não sai de ao pé de mim; está à espera que eu acabe, que eu vá até ao fim  mas eu paro.
        1657, basta? É tudo  digo, para fechar a conversa.
        Não sabes contar mais –  diz ele.
        Sei contar mais, mas estou cansado digo.
        Não sabes contar mais, diz-me o menino; não tens força para contar mais, diz o menino e cospe-me para a cara, assim, aqui mesmo, na bela cidade do México.
        Que faço?, pergunto ao bambino Mezcal Maelstrom, o meu amigo, que está ao meu lado. O menino, esse, cuspiu-me e está exactamente no mesmo sítio, a olhar para mim, a desafiar-me. 
        Deve ter irmãos mais velhos, amigos que te matam em dois segundos  segreda-me o meu amigo Mezcalzito na minha mais bela orelha. Eu limpo o cuspo do menino. E continuo. Estava no 1657 e se que estou ainda no México e por isso digo 1658 e continuo até o menino se cansar de me humilhar – que eu não, agora não me canso mais, estou ali até ser necessário  aprendi a contar finalmente, sem parar, até aos números grandes.
        És muy fuerte, diz-me o merino, enquanto me puxa a orelha direita para baixo, obrigando o meu pescoço a dobrar-se de tal maneira que não cheguei a ter medo, não tinha tempo porque doía muito. 
        Que comem os meninos aqui pergunto, já depois a sós com o meu amigo bambino. Ódio, responde ele. 

Gonçalo M. Tavares, Canções Mexicanas, Relógio D'Água Editores, 2011.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Neve



Os óculos congelaram-se enquanto pedalava pela neve. Uma carrinha com andaimes parou à minha frente no semáforo à saída de Parks Road. Rapazes de calças vermelhas e casacos encerados. Esqueci-me de um livro dentro da mala, só me lembrei dele há pouco. Custou-me duas libras. É da NYRB Classics (nunca li um livro deles que fosse mau - eles publicaram Grief Lessons e An Apartment in Athens - muito agradecida). Dentro da 2Pound Bookshop o livreiro passeia-se de manga curta, exibe  os biceps indistintamente às miúdas e às velinhas que entram na loja a fazer tempo para o chá no Morton's em frente, mas este passeia-se de manga curta ao abrigo do ar condicionado, não como o motorista do autocarro das 2 da manhã em Luton, cá fora a carregar as malas, como se o ar quente do autocarro o entediasse. Dentro dos limites do aeroporto os controladores aéreos a encherem de sal as pistas. É uma da manhã e o judeu sentado à minha frente, de costas para mim, lê a Torah ao filho, os dois de kippahs grandes negras, os dois vestidos de preto, o que podia não querer dizer nada do grau de ortodoxia. Mas ler a Torah ao filho (doze, treze anos?, loiro, sardento, indistintamente britânico ao contrário do pai) à uma da manhã diz. Caio no sono e volto com os murmúrios deles. Mudam do hebraico para o inglês. O livro não era Neve. Esse foi o livro de que ia à procura. Passo, acelero. António Variações (!) no iPod. Detesto fazer a rotunda no princípio de Cowley. Mais com mau tempo. Estas coisas não se repetem. Acontecem. De cada vez. Vinha comigo, o tempo todo aquela imagem dos rapazes que durante uma semana agitaram um ninho de vespas no cruzamento de um pinhal. A paciência para montar uma armadilha, para cercar devagar, lentamente, as coisas que o meu desejo escolheu. Não o meu prazer nisso. A paciência que não é o mesmo que disciplina mental, o desejo que não é o mesmo que prazer. É esta coisa pesada que é carregada por tudo, pela minha energia, pelo traço mais verdadeiro e comprometido da minha habilidade para a alegria, pela minha amargura ligada ao que recuso, pela minha consciência dos outros, pelo meu desprezo, pelo meu amor árduo, estéril, desenganado sempre pelas mesmas coisas, estavam comigo onde sempre estive, vieram comigo, continuarão sempre comigo. Como Pierre Bonnard, que pintou vezes sem conta, sem conta, numa cegueira de repetição, não a repetição que vai despindo a coisa do seu significado, mas a repetição que espessa, que afina, a mesma mulher, no mesmo quarto, entre as mesmas coisas. Eu lembro-me daquela mesa escura, de correr as persianas de tarde e de me sentar em impotência, vendo-me a partir tudo, a rasgar tudo. De devagar me acalmar, de perceber finalmente que cada um carrega o seu grito, o longo sopro em cujo fluxo todos fomos apanhados. Os rapazes agitando o ninho de vespas, correndo descalços pelo caminho. E corrijo-me lentamente pela repetição do erro. Até que um deles acaba por tropeçar. A cada passo dado em falso um milímetro de correcção. O meu corpo endurecido que não aprende por cortesia mas antes para que não o chateiem. Para que o deixem em paz. Que não aprende, que finge que aprende. Que isto se confunda com civilização é às vezes toda a obediência à lei de que sou capaz. E é-me agradável até o murmúrio de vozes que enche a atmosfera, como luzes que piscam, que repete a luz mortiça de candeeiros a petróleo, uma imagem que vem detrás, que é um modo de voltar ao lugar de onde vim. O que em mim se sentisse contente pelo grau de proporcionalidade entre pirueta & aplauso. Ou murmurando dizer que afinal isto não funciona assim. Esta máquina não funciona assim.

Dioniso, "Periegesis", vv. 707-12, 15-17

Era sem espinhas que te descrevia mais este mar,
mesmo se não vi de longe os seus caminhos, se nunca o atravessei
de barco; porque não é em barcos escuros que ganho a vida,
tão pouco era essa a profissão que tinha o meu pai, e nunca me dei
ao trabalho de ir até ao Ganges, atravessando o Mar Vermelho,
como fazem muitos, a troco de desprezar a própria vida, ...
A mim o que me move é questão de cosa mentale
inspirada por Musas, elas que podem
fazer a travessia de muito mar sem ter de fazer a viagem,
e de montanhas e do continente e do caminho dos corpos celestes...


ῥεῖα δέ τοι κἂν τήνδε καταγράψαιμι θάλασσαν,
οὐ μὲν ἰδὼν ἀπάνευθε πόρους, οὐ νηῒ περήσας·
οὐ γάρ μοι βίος ἐστὶ μελαινάων ἐπὶ νηῶν,
οὐδέ μοι ἐμπορίη πατρώϊος, οὐδ’ ἐπὶ Γάγγην
ἔρχομαι, οἷά περ ἄλλοι, Ἐρυθραίου διὰ πόντου,
ψυχῆς οὐκ ἀλέγοντες ...
ἀλλά με Μουσάων φορέει νόος, αἵτε δύνανται
νόσφιν ἀλημοσύνης πολλὴν ἅλα μετρήσασθαι
οὔρεά τ’ ἤπειρόν τε καὶ αἰθερίων ὁδὸν ἄστρων.

Tradução minha, livre.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

dois quartos e uma cozinha


She asked if I would like her to sing something. I replied no, I would like her to say something. I thought she would say she had nothing to say, it would have been like her, and so was agreeably surprised when she said she had a room, most agreeably surprised, though I suspected as much. Who has not a room? Ah I hear the clamour. I have two rooms, she said. Just how many rooms do you have? I said. She said she had two rooms and a kitchen. The premises were expanding steadily, given time she would remember a bathroom. Is it two rooms I heard you say? I said. Yes, she said. Adjacent? I said. At last conversation worthy of the name. Separated by the kitchen, she said. I asked her why she had not told me before. I must have been beside myself, at this period. I did not feel easy when I was with her, but at least free to think of something else than her, of the old trusty things, and so little by little, as down steps towards a deep, of nothing. And I knew that away from her I would forfeit this freedom.

Samuel Beckett (1970). First love. In: First love and other novellas, 78. London: Penguin Modern Classics, 2000

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De "Elsewhere"

... the terrible notion of living life to the full,
the slow advancement of days, all comfortless, all lost
to pleasure, the pain of that, the rack
of memory, slow music, lights coming on at dusk,
all lost, windows wide to the night-air, childrens' voices lost
to the sound of surd, to the seas' clean sweep,
myself, pitched up, you might think, from anywhere, addled, lost

as if I'd come to from a night-long dream of risk
that stationed me on this beach, as if to sleep
were to dream of the place I must wake to, dream
only of that, the tideline rubble, the pull of the waves, the scar
salt leaves on stone, the long, bright line
where the rest of the world falls away ...

David Harsent, Night, Faber & Faber, 2011

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"House of Cards" de David Fincher, 2013


Com os primeiros episódios realizados por David Fincher, com Kevin Spacey e Robin Wright no elenco e completamente produzida e disponível para o Netflix (que este mês oferece um one month free trial, by the way), altamente recomendada. O terceiro episódio é uma pequena obra de arte sobre o poder (sujo) da retórica (e envolve a estranha combinação entre tragédia, um pêssego gigante e uma - duas - corrupta[s] autoridade[s] do sul).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Moist verdigris

As I should like to spell the theory now, the musician, for example, counting on the auditory laws, creates a structure he knows the mind will materialize in sounds of a certain kind. The musical score represents the music's form in ink and paper. The disc represents it in wiggles and rounds. The performance troubles the air with the same structures. And our mind hears. But the qualities we taste in wine, touch and feel along the thigh while loving, hear as singing, sniff from the steaming pot, or observe articulate the surface of a painting, are, in fact, relations. Furthermore, the sense of passions or of power, of depth and vibrancy, feeling and vision, we take away from any work is the result of the intermingling, balance, play and antagonism between these: it is the arrangement of blues, not any blue itself, which lets us see the mode it formulates, whether pensive melancholy or thoughtless delight, so one to whom aesthetic experience comes easily will see, as Schopenhauer suggested, sadness in things as readily as smoky violet or moist verdigris.

William Gass, On Being Blue: A Philosophical Enquiry, Nonpareil Books, 1996 (1976, 1ª edição).

On Being Blue: um daqueles livros com o qual quase perdi a paciência e no fim ainda bem que não.

está tudo ligado



Stan Getz, Focus, 1961.




 Béla Bartók, Music for Strings, Percussion and Celesta, II, 1936

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Kinky sexual acts



O Frank Pembleton é uma das melhores personagens que alguma vez foram avistadas num ecrã de televisão.

sábado, 26 de janeiro de 2013


Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, sem desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê onde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se. Não faltará quem venha apontar supostas e inadmissíveis contradições entre inquieto, vago e atento, são pessoas que se limitam a viver assim como assim, pessoas que nunca se encontram com o destino pela frente.

José Saramago, Todos os Nomes, Editoral Caminho, 1997.

All My Little Words