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domingo, 9 de janeiro de 2011

Por vezes, muito raramente

Quando pouco na vida nos consola
do tempo, esse verdugo indiferente,
por vezes, muito raramente, na monotonia da noite,
entre repetidos sonhos, surge uma imagem
que reflecte o desejo que deixamos aí
e um rosto - a sua remota aparência - reconstrói
um intenso instantâneo da felicidade.
Quando tão misterioso privilégio nos chega,
acordar em seguida é viver o inferno:
não aquele jogo grotesco de chamas e demónios,
mas o demónio da luz de novo,
o fogo do primeiro cigarro.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O comboio do esquecimento

(Homenagem a Max Ophüls)

Eu que fui quase uma rainha, sim, fui uma rainha!,
e tive a Baviera e o seu rei a meus pés.
Eu, a condessa de Lansfeld, Lola Montes para outros,
por quem Franz Liszt havia sonhado no seu piano,
como haviam sonhado tantos e esse sonho os redime,
avanço agora, será que avanço?, neste comboio,
por paragens inóspitas, lamaçais e pós.
Não soam aos meus ouvidos os violinos de Munique,
nem os pássaros do entardecer nas folhagens romanas,
apenas portas que rangem, vidros que estremecem
e as pesadas rodas que fustigam o metal.
Chegaremos a um povoado - todos são iguais -
sujidade e ruído, bêbados e bastardos
são a essência e o símbolo desta nova fronteira.
Mineiros e camponeses, pistoleiros e jogadores de profissão
beijarão as minhas mãos, hão-de querer tocar-me,
por um mínimo preço, aproximar-me dos deuses.
Neste comboio de madeira e miséria
que vem do nada e para lado nenhum vai,
entre campos monótonos e aldeias de barracas,
eu, Lola Montes, condessa de Lansfeld,
ensaio a única expressão que aprendi na vida:
um ricto de desprezo e uns olhos sem tempo,
que se perdem na noite, no comboio do esquecimento.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Arte poética

A longa, lenta língua da morte
lambeu a mão daquele que escreve,
lucidez ou loucura, ninguém sabe:
só restam palavras, palavras que se desfazem.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

To return again

Ela passava - cerimoniosamente - as páginas de um jornal
- um jornal em espanhol, comprado em Victoria Station -.
Ele olhava pela janela para os últimos bairros,
a cidade apagando-se por detrás, a precária luz de outono.
Ela lia - minuciosamente - a página da necrologia,
ele olhava agora o campo: cavalos e ovelhas,
o vento nos ramos, paisagens de Constable.
Ela comentava histórias de imprensa, os casos do dia,
ele recordava uma criança atónita, em silêncio,
- havia séculos, numa casa de Eaton Square.
Noutro tempo, com outra mulher,
a passagem do Tamisa na margem cinzenta.
Passavam as páginas do jornal
e passavam corpos e camas,
uma mulher despida que se ria
com hálito de vodka e tabaco.
O comboio chegava ao seu destino e ela acabou a leitura.
Debaixo do assento daquele comboio
- entre Londres e Dover - ficaram abandonados
um amarrotado jornal em desordem
e cinquenta anos da vida de um homem.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Antes que chegue a noite

Antes que chegue a noite sobre o mar
e atire o vento da nortada
as minhas húmidas cinzas para o nada.
Antes que os gastos gestos se dissolvam,
tal como um sorriso que se transforma em esgar
ou os cansados espasmos de um amor extinto.
Antes, ainda, como este sol sobre as ilhas,
tenaz ponto de luz, cor intensa,
que minhas palavras desenhem meu fantasma,
salvo e perdido, na pura intensidade da vida.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Apesar dos contínuos avisos

«a resistência da poesia em desaparecer, apesar dos contínuos avisos de morte próxima que se repetem há dois mil anos. Quem sabe se nesta longa agonia, que já dura tanto quanto o nosso mundo e a nossa civilização, não está a chave da sua existência e do interesse que alguns poetas despertam.»
Juan Luis Panero, excerto de Los Mitos e las Máscaras, in Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Poeta de Alexandria

Ninguém acompanha, quando cai a tarde,
a sua solidão.
Mão alguma empresta fugitivo calor
a quem dele tanto precisa
e que lento caminha, o olhar perdido,
para o lugar onde a luz de agosto
ainda o protege.

Das ruas estreitas
chega um cheiro, elementar e penetrante,
de alimentos e corpos,
noutro tempo apreciados.
Leve, o seu passo
perde-se entre o inquieto murmúrio
de músicas e vozes.

Esta é a cidade que tanto amou,
cujas pedras e árvores,
minaretes e praças,
debaixo do pesado sol do meio-dia
ou à claridade trémula das estrelas
conheceu tal como hoje os seus sonhos.

Continua a avançar,
desconhecido,
ignorado por aqueles
que um dia os seus lábios lhe entregaram,
a sua tristeza, o seu desejo fizeram seus.

O vermelho resplendor, por um momento,
sobre a espuma se detém.
Já cinzento depois,
empalidece no cansaço das rochas,
resvala pelas janelas abertas ao crepúsculo.

Um ligeiro tremor,
a transparente sombra de uma lágrima,
agora que por fim se deteve,
fazem mais vencida,
mais frágil a sua figura.

Não importa
ou talvez importe demasiado.
Konstandinos Kavafis
vê chegar a noite,
a escuridão, diante do mar.

Juan Luis Panero, Poemas, Relógio d'Água, Lisboa, 2003 (trad. e prefácio de Joaquim Manuel Magalhães).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Limpidez lexical

Há umas semanas, na Feira do Livro de Lisboa, dei com Poemas (Lisboa, Relógio D'Água, 2003), do madrileno Juan Luis Panero (n.1942), a cinco euros. Foi um achado.

Enigmas e despedidas

Um gato que mia na noite antes de morrer,
um gato que mia, o seu histérico adeus.
Que segredo, que estranho e banal mistério
a vida nos oculta nesse grito atroz?
Como olhar depois o seu lugar na sombra,
as unhas da morte, a pele da impotência?
Tantos anos a partilhar o destino
que é agora uma cesta vazia,
derrotados arranhões, uns olhos apagados
o absurdo de tudo, enigmas e despedidas.