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sábado, 21 de janeiro de 2012

Thran*

O arquivista de ofensas regista com agrado a corrupção da vida, que também a ele riscará do mundo, mas que do mesmo modo e sobretudo apagará todas as vilezas. A universalidade da morte corrige a da estupidez e a da maldade. Mas todo o livro escrito contra a vida, disse Thomas Mann, constitui uma sedução no sentido de a viver; por trás da persistente negação oposta por Thran à maldade das coisas há também um pudico amor pela realidade, pelo riso e pelas ruas que ele media com inabalável precisão. Talvez o amigo sincero da vida não seja o pretendente que a corteja com adulações sentimentais, mas o apaixonado infeliz e rejeitado que se sente expulso dela, escrevia Thran, como um velho móvel fora de moda.

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010.

*Sim, é com trema, mas por questões de ordem técnica perdi o meu.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A escrita

A escrita talvez não possa dar verdadeiramente voz à desolação absoluta, ao nada da vida, a esses momentos na qual ela é só vazio, privação, horror. Já o simples facto de se escrever enche de certo modo o vazio, dá-lhe forma, torna comunicável o horror e portanto, ainda que em escassa medida, triunfa sobre tudo isso.

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010

(Vivesse Heródoto neste tempo e teria dado em Claudio Magris.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

As cabeças dos sérvios

O germanófilo mais apaixonado de Bela Crkva, que tinha o nome bem pouco alemão de Ben Mates, estava uma vez a berrar na estalagem que queria jogar à bola com as cabeças dos sérvios, mas a mãe da avó Anka, que ia a passar por ali, replicou-lhe tranquilamente: «Entendidos, Mates, hoje vocês connosco, amanhã nós convosco.»

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010

domingo, 8 de janeiro de 2012

Kafka

O escritor não é um pai de família mas um filho, que tem de sair de casa e seguir o seu caminho; é fiel à sua pequena pátria humilhada quando dá testemunho da sua verdade, ou seja, quando sofre até ao fundo a sua opressão e a assume pessoalmente, e quando ao mesmo tempo a transcende, com a dura distância necessária a toda a arte e a toda a experiência libertadora.

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não ser

Gabava-se, com desprezo, de não ser um empregado, como se isso lhe garantisse uma especial autenticidade e como se as trocas de murros de Hemingway tivessem de ser, a priori, mais poéticas do que as tarefas de escritório despachadas por Kafka.
Utilizar o termo «empregado» como uma injúria não passa de uma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este último não se parece com Aquiles ou Diomedes que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém. A sua epifania é esta revelação da impessoalidade que o dissimula na prolixidade das coisas, como a viagem apaga o viandante no murmúrio do caminho. Kafka e Pessoa viajam até ao fim não de uma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a esta consciência, uma extrema resistência da verdade.

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Celan

A condenação platónica da poesia é inaceitável, mas devemos voltar sempre a enfrentá-la. A poesia que pede a si própria apenas a sua salvação corre o risco de imitar, satisfeita, as contradições, as misérias e talvez a banalidade do estado de alma pessoal que, segundo Platão excluem a busca do bem e da verdade. Obviamente, ninguém pode viver hoje o problema como o vivia Platão, mas uma poesia que apenas de si própria se alimenta pode pecar contra a poesia; como as quadras e as estrofes rimadas, também os fragmentos de palavras vacilantes no escuro podem repetir-se e regenerar-se até ao infinito do próprio tormento, transformando-se numa retórica, dilacerada mas não menos retórica por isso. O sacrifício de Celan é deste modo o exorcismo deste perigo. A impossibilidade de confiança impele-o a calar-se e a desaparecer, depois de ter deixado, a eventuais contemporâneos ou vindouros, o seu «manuscrito dentro de uma garrafa». Celan desapareceu na noite, nas águas do Sena, onde procurou a morte. Um seu verso diz «faço luz nas minhas próprias costas»; a poesia é este fulgor que indica o ponto onde ele e os seus versos desapareceram.

Claudio Magris, Danúbio, Miguel Serras Pereira (trad.), Quetzal, 2010