quinta-feira, 27 de junho de 2013

Best of



Pus a sacar um best of do Donovan, o Bob Dylan inglês, depois de ver um vídeo do Bob Dylan sentadinho ao lado do Donovan, e o Donovan a roer as unhas e a chupar um cigarro com um ar de foda-se-já-alguém-me-tirava-este-gajo-da-frente. A única música que conheço do Donovan é o Hurdy Gurdy Man, usada na banda sonora do Zodiac e que me lembra inevitavelmente do Marc Ruffalo a fazer de Bullit e de serial killers em San Francisco. Serial killers e música peace and love é uma combinação estranha, e daí talvez não.
Ontem à noite ainda estive a ler Almudena Guzmán. Ela publicou o primeiro livro com 17 anos. Não é um livro mau e a poeta que ela veio a ser já para ali andava em embrião, parece-me. Estar a ler Almudena Guzmán lembrou-me de uma das tardes em que fui a Cambridge ouvir o West e, à espera do autocarro de volta, estava a ler um poema do García Montero sobre uma montra de uma loja de móveis. Nesse poema ele fala de como todas as lojas de móveis contêm milhares de casas em potência, fala sobre comprar coisas a prestações, sobre a alegria de construir coisas em conjunto, uma felicidade classe média e suburbana. Não me lembro do resto do poema mas lembro-me que não acabava bem. Quando levantei os olhos em Parkside 16 e ainda antes de chegar o X5 vi que à minha frente havia um Family Law Practician. De repente há uma continuidade qualquer, completamente aleatória, completamente acidental, entre o que estamos a fazer e o que nos rodeia. Há qualquer coisa de agradável e obsceno nisto.
O poder mais misterioso que possuímos é o de criar um sentido, uma continuidade, uma ligação entre o que connosco está em trânsito e os lugares do nosso trânsito. Calada não tenho uma nacionalidade, não tenho uma língua, a ler não sou a mulher que escapou da linha de sentido anterior que corre entre a realidade e o que só existe dentro da minha cabeça. Essa linha de sentido anterior, interior, e a realidade contra, a soma dessas duas coisas, isso, é o que eu sou. É por isso que somos misteriosos, que há em nós qualquer coisa de inexplicável, de indizível, de perigoso, porque existimos mais violentamente nesse ponto inarticulado que está entre o que sabemos que somos e a realidade, a maneira como acontecemos, como somos afectados e afectamos o que nos rodeia e essas duas coisas se moldam, não existem uma sem a outra.
Jogadores de cricket, os prédios castanhos ao alto, qualquer coisa de decadentemente estival, de estância balnear nestas cidades de estudantes que fecham para o verão. E desaparecer no meio das pessoas. Ressurgir três horas mais tarde numa cidade mais adiante com uma impressão de avião a despenhar-se, é só o autocarro a entrar na cidade, a estranheza de uma cidade que chega no meio da noite. Um regresso resguardado, clandestino, de rapariga que continuamente puxa a saia para baixo do joelho, sabendo que ao andar ela vai tornar a subir e que bocado te tiram se te virem as pernas, nenhum. Que estas são as coisas que possuo, este corpo e esta meia dúzia de gestos, de restos de cigarros e papéis nos bolsos, estes lugares, inscrições em tabuinhas. Lugares nefastos, fome, cansaço, unhas que crescem e se partem, saltos altos que se partem num passo em falso, uma pressa resoluta de chegar. Há-de haver uma altura em que terei de olhar para trás e para a frente e articular todas estas coisas, fazer delas sentido, como instrumentos velhos descobertos em escavações arqueológicas podem vir a fazer música muitos séculos depois e imagens em vasos estilhaçados em cacos podem ser restauradas, reunidas, muito tempo depois de separadas. Só que nós não sabemos o quanto temos de aldrabar o padrão para dele tirar música.
Um dia estás deitado na tua cama, estás a caminho dos trinta e vês-te com sessenta e pensas que daí a trinta hás-de estar morto e a maior parte das coisas que te parecem agora importantes são reconduzidas a outra escala. E sabes de quantas coisas precisas de abdicar para seres capaz de sobreviver a ti próprio, quanto é preciso escavar para preservar o núcleo intacto. Começas a contar isto e aquilo e também aquilo, nada disto importa. E o pulso começa a acelerar, há para aí um histérico aí bem dentro que diz Mas que caralho, que núcleo intacto, eu sei que não quero deixar ir de nada, tudo o que é meu de viver sobre perceber quanto espaço há e quanto tempo e mais para debaixo ainda do amplexo curto dos braços, de toda a merda que diariamente escavo como um escravo e às vezes senhor destas coisas, destes poderes curtos, curtos em toda a parte para onde me vire e para onde olhe e belos porque destruição como eu. Porque haveria eu de ceder, não é ceder, é deitar fora (conceder é outra coisa) um palmo que fosse do que quero viver. E assim a suar, com um sabor de chumbo na boca, levantar-me com os olhos dilatados, tentar chegar ao fundo disto e não me parece organizado.
É que nunca me demonstraram com aguda contundência, o sentido que possa haver em cortar razoavelmente no que tenho para viver no que quero viver para quem e para quê ao certo?, e não estou a falar de um trabalho, de lojas de móveis, do que temos de fazer para sobreviver, estou a falar de estar vivo ao certo, desta meia dúzia de poemas, de atravessar de uma cidade à outra com uma moeda na boca, a corda deposta ao pescoço, a chave do cadeado num bolso, da música com os headphones grandes, do que ainda trazes para me contar, este e aquele poema, varandas debaixo do calor em Granada, o próximo livro, o acelerar do passo, já que começaste agora
continua por favor
para a frente é que é Lis

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