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terça-feira, 27 de abril de 2010

no Pavilhão Hermann

Os doentes estavam deitados nas camas com trinta graus à sombra e, na verdade, todos eles, como eu também, ansiavam pela morte e todos foram também, como já disse, morrendo um após outro, de acordo com os seus desejos, entre eles também o antigo polícia Immervoll, que estava no quarto contíguo e que, enquanto lhe foi possível, todos os dias ia para o meu quarto para jogar comigo dezassete e quatro, ele ganhava e eu perdia, durante semanas ele ganhou e eu perdi, até que ele morreu e eu não. Nós éramos ambos jogadores apaixonados de dezassete e quatro e jogávamos dezassete e quatro, para matar o tempo, até que ele morreu. Ele morreu apenas três horas depois de ter jogado comigo e ter ganho a última partida. Na cama ao lado da minha estava um estudante de Teologia, que eu em poucas semanas entre a vida e a morte tornei um céptico e, portanto, um bom católico, segundo creio, para sempre.

Thomas Bernhard
, Os Meus Prémios, Quetzal, Lisboa, 2009 (trad. de José A. Palma Caetano)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Prémio Grillparzer

Quando olhei uma vez para a senhora ministra Firnberg, era este o seu nome, vi que ela tinha adormecido, o que também não passou desapercebido ao presidente Hunger, pois a ministra ressonava, ainda que muito baixinho, mas ressonava, ela ressonava o leve ressonar ministerial, que é mundialmente conhecido. A minha tia seguia com a maior atenção o chamado acto solene e de vez em quando olhava para mim com ar de aprovação, quando uma expressão num dos discursos era muito estúpida ou mesmo só muito cómica. Tínhamos ambos a nossa própria vivência do acontecimento. Por fim, depois de passada cerca de hora e meia, o presidente Hunger levantou-se, subiu para o pódio e anunciou a atribuição do Prémio Grillparzer à minha pessoa. Leu algumas palavras elogiosas ao meu trabalho, não sem indicar os títulos de algumas peças de teatro que deviam ser minhas, mas que eu de modo algum tinha escrito, e enumerou uma série de celebridades europeias que tinham sido antes de mim galardoadas com o Prémio Grillparzer. O senhor Bernhard recebia o prémio pela sua peça Ein Fest für Boris, disse Hunger (a peça que um ano antes tinha sido muito mal representada pelo Burgtheater no Akademietheater) e depois abriu os braços, como se me quisesse abraçar. Era esse o sinal para que eu subisse ao pódio. Eu levantei-me e dirigi-me ao Hunger. Ele apertou-me a mão e deu-me o chamado diploma de mérito, cuja falta de gosto, como a de todos os outros diplomas de prémios que recebi, era inexcedível. Eu não ia com intenção de dizer fosse o que fosse no pódio, nem tal me fora pedido. Assim, para obviar o meu embaraço, disse só um breve Obrigado! e desci para a sala e sentei-me. A seguir o senhor Hunger sentou-se também e os Filarmónicos tocaram uma peça de Beethoven. Enquanto os Filarmónicos tocavam, pensei em toda a cerimónia que estava a terminar e de cuja estranheza e insipidez e falta de tacto naturalmente ainda não me pudera aperceber. Mal os Filarmónicos tinham acabado de tocar, a ministra Firnberg levantou-se e imediatamente também o presidente Hunger e ambos se dirigiram para o pódio. Entretanto toda a gente na sala se havia levantado e procurava, acotovelando-se, aproximar-se do pódio, naturalmente para chegar junto da ministra e do presidente Hunger, que estava a falar com ela. Eu fiquei com a minha tia como que postos de lado e cada vez mais perplexos, ouvindo a crescente excitação do vozear das cerca de mil pessoas. Passado algum tempo, a ministra olhou em volta e perguntou, com uma arrogância e estupidez inimitáveis na voz: então onde é que está o versejador? Eu estava mesmo ao lado dela, mas não me atrevi a dar-me a conhecer. Puxei a minha tia e saímos da sala.

Thomas Bernhard, Os Meus Prémios, Quetzal Editores, Lisboa, 2009 (trad. de José A. Palma Caetano)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Bruscon
(. . .)
Se formos sinceros
o teatro em si é um absurdo
mas se formos sinceros
não podemos fazer teatro
não podemos se formos sinceros
escrever uma peça de teatro
nem representar uma peça de teatro
se formos sinceros
a única coisa que podemos fazer
é suicidarmo-nos
mas como não nos suicidamos
porque não nos queremos suicidar
pelo menos até hoje e até agora
como portanto até hoje e até agora não nos suicidámos
vamos continuando sempre a tentar o teatro
escrevemos para o teatro
e representamos teatro
mesmo que seja tudo o maior absurdo
e a maior hipocrisia
Como é que um actor
pode fazer o papel de um rei
sem fazer ideia nenhuma do que é um rei
como é que uma actriz
pode fazer o papel de uma moça de estrebaria
sem fazer ideia nenhuma do que é uma moça de estrebaria
um actor nacional fazer o papel de um rei
é uma coisa insípida
e uma actriz nacional
fazer o papel de uma moça de estrebaria
é uma coisa ainda mais insípida
mas todos os actores fazem sempre o papel de qualquer coisa
que não podem ser
e que só é insípida
assim é tudo insípido no teatro meu caro senhor
(...)

Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004 (tradução de José A. Palma Caetano)

sábado, 20 de março de 2010

os assassinos do Estado

Os políticos são os assassinos de cada país e de cada Estado, disse Reger, há séculos que os políticos assassinam os países e os Estados e ninguém os impede disso. E nós, Austríacos, temos os políticos mais finórios e simultaneamente mais negligentes como assassinos do país e do Estado, disse Reger. Na chefia do nosso Estado estão políticos que são assassinos do Estado, no nosso Parlamento têm assento políticos que são assassinos do Estado, disse ele, esta é que é a verdade. Cada chanceler e cada ministro é um assassino do Estado e, portanto, também um assassino do país, disse Reger, e vai-se um, vem outro, disse Reger, vai-se um assassino como chanceler, vem logo outro chanceler como assassino, vai-se um ministro como assassino do Estado, vem logo outro. O povo é sempre só um povo assassinado pelos políticos, disse Reger, mas o povo não vê isso, é verdade que sente que é assim, mas não vê nada disso, e essa é que é a tragédia, segundo afirmou Reger.

Thomas Bernhard, Antigos Mestres, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003 (trad. de José A. Palma Caetano)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sacrifício de Novembro

Sou indigno destes campos e dos sulcos do arados,
indigno deste céu, que na minha memória
inscreve os seus sinais infrenes para um novo milénio,
indigno destes bosques, cujo pavor
irrompe no meu envelhecer com as trovoadas das cidades.
Sou indigno destas mães na encosta e indigno
dos camponeses, que revolvem o seu dia
com vacas e pereiras, bebedeira e foices.
Sou indigno destes montes e destes campanários,
indigno de uma noite semeada de estrelas
e indigno do atalho de cada mendigo
que termina em tristeza.
Sou indigno desta erva, que os membros me refresca,
dos troncos das árvores, que o norte
leva à sua crua enfermidade com a chuva
e as sombras dos rapazes,
que fazem ao mosto o seu sacrifício de Novembro
entre os negros montes que suportam a minha efemeridade.
Sou indigno destas procissões
que gera o mês de Maio entre macieiras em flor,
do leite e do mel, da glória e da podridão
que me estão prometidas.
Sou indigno de estar entre párocos, açougueiros e negociantes,
indigno dos vaticínios destas hortas e jardins,
indigno do domingo, que vomita no azul a sua doce fumarada.
Indigno sou também das moças ao desamparo, manchadas de vermelho,
nesta paisagem milenária,
cujo pão sabe a fome e a mortos,
a vaidade e à amargura das mães
que não podem fugir ao seu tormento,
ao tormento dos esquecidos que o sol nos campos vai queimando.
Indigno sou ainda do melro, indigno do ranger da roda do moinho,
indigno faço o meu jogo nas margens do rio,
que das aldeias nada quer saber.
Sou indigno destas almas que, em nuvens e moitas,
falam umas às outras da terra em flor,
da música que o céu moribundo entoa,
dos grandes abandonos, a deslizar sobre as colinas,
procedendo, impacientes, procelosos invernos do mundo.

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Diante da Aldeia

Os rostos que emergem dos campos perguntam-me
pelo regresso.
O meu grito não perturba a andorinha
pousada no ramo partido. Sombria
é a minha alma, que o vento impele
para o mar, a fim de cheirar o sal da terra.
A minha lenda é mortal.
Debaixo da árvore, que é semelhante ao meu irmão,
conto as estrelas dos mareantes.

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Noite

A noite treme diante da janela e quer trespassar-me o coração,
gritando os nomes que eu infamei.
Oh, esses nomes que em cada cruz estão gravados e conspurcam o meu
trabalho diário.

Sei que me hei-de levantar e destruir a minha cama
e com a cama os sonhos que cresceram no meu cabelo para setenta anos.

Hei-de levantar-me e recitar o meu verso
para os mendigos que vivem de abandono,
nas ruas das grandes lojas. Nas ruas
em que as mulheres enganam a sua carne por um dia de feira.
Essas ruas que foram feitas com o trigo do meu pai
e com a pobreza da minha mãe,
que se cortou no braço com uma foice e parecia então
o próprio sol

Oh, a noite que me trespassa o coração
com todos os que eu infamei...

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Fragmentos de uma Cidade Moribunda

III
As luzes vibram cor como carne vermelha nas ruas da meia-noite
e, no entanto, a minha linguagem é a linguagem do vento,
que sopra sobre as pastagens como no primeiro dia
e traz o pavor dos desertos e a saudade que as palmeiras ébrias
têm dos campos do meu pai.

V
Não os chamei, mas eles tornam sombria a minha voz.
Todos, porém, devem saber que eu já não sei rezar,
porque me aviltei num dia de Agosto de 1952,
todos devem saber que eu estou na minha carne sufocado.

VI
Ninguém ouve a minha voz, que me há-de aniquilar.
Eles hão-de cercar a minha casa e entrar pela minha porta e chamar o
----------------------------------------------------------------nome
por que eu dou.
Eles hão-de esquecer que eu também sou o criador da erva
e o conservador do leite e do mel.
Num recanto da tristeza me hão-de bater e assassinar,
quando a neve e o vento e a Primavera chegarem tarde demais...

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Ainda não terminei este livro (comecei a lê-lo há pouco e estou na página 93). Há uma força nestes poemas que eu não consigo explicar, uma força constante que tem qualquer coisa de demoníaco (no sentido grego do termo), uma energia soturna que não abranda de verso para verso e que confere uma beleza muito própria a cada poema. Há imagens muito sombrias (por algum motivo o livro se chama Na Terra e no Inferno) que contribuem para criar uma beleza sólida, inabalável. Mas de vez em quando há qualquer coisa que tende para (e cria) uma espécie de luminosidade. Dos melhores livros de poesia que leio em muito tempo (e os que tenho lido são muito bons).

sábado, 1 de agosto de 2009

Thomas Bernhard, Nove Salmos (Salmos VIII e IX)

VIII

Negra é a erva, Pai,
negra é a terra,
negros são os meus pensamentos,
porque eu sou um pobre ser humano.
Negra é a terra,
negro é o pôr do Sol,
negra é a minha mensagem.
Negro é o casaco que nunca mais me deixará,
negras são as estrelas da minha travessia,
negra é a ideia da minha morte.
Onde é que eu descobri este negro, este negro inimigo da língua?

IX

Já não tenho medo.
Não tenho medo
do que há-de vir.
Extingui a minha fome,
bebi o meu tormento até à última gota,
a minha morte torna-me feliz.
Levo os meus peixes
para o monte.
Nos peixes está tudo
o que deixo ficar.
Nos peixes está a minha tristeza,
e o meu fracasso está nos peixes.
Direi
como é esplêndida a Terra, quando eu chegar,
como é esplêndida a Terra...
Sem precisar de ter medo...
Espero
que o Senhor me espere.

Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000 (tradução e introdução de José A. Palma Caetano)