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sábado, 10 de outubro de 2009

O Melhor Amigo da «Recherche»














Para quem (como eu) anda a ler Em Busca do Tempo Perdido de Proust, este é um excelente livro para acompanhar a leitura. Um «visual companion». Como se explica, [t]his lavishly illustrated and comprehensive guide celebrates the close relationship between the visual and literary arts in Proust’s masterpiece. E pronto, resta acrescentar que a Thames and Hudson é uma das minhas editoras de artes visuais favoritas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

«Segundo as Leis da Vida e do Espírito»

«Não há homem, por muito sábio que seja», disse-me, «que em determinada época da sua juventude não tenha pronunciado palavras, ou até levado uma vida, cuja a recordação não seja desagradável e que desejaria que estivesse abolida. Mas de modo algum o deve lamentar, porque não pode estar seguro de se ter tornado um sábio, na medida em que tal é possível, se não passou por todas as incarnações ridículas ou odiosas que devem preceder esta última incarnação. Eu sei que há jovens, filhos e netos de pessoas distintas, a quem os seus preceptores ensinaram a nobreza de espírito e a elegância moral desde o colégio. Não terão provavelmente nada a cortar da sua vida, poderiam publicar e assinar tudo o que disseram, mas são uns pobres espíritos, descendentes sem força de doutrinadores, e cuja sabedoria é negativa e estéril. A sabedoria não se recebe, todos temos que a descobrir por nós mesmos, depois de um trajecto que ninguém pode fazer por nós, que ninguém nos pode poupar, porque é um ponto de vista sobre as coisas. As vidas que você admira, as atitudes que considera nobres, não foram preparadas pelo pai de família ou pelo preceptor, foram antecedidas de começos bem diferentes, influenciadas que foram pelo que de mal ou de banalidade reinava em torno delas. Representam um combate e uma vitória. Compreende que a imagem daquilo que fomos num período inicial já não seja reconhecível e seja em qualquer caso desagradável. Não deve, porém, ser renegada, porque é um testemunho de que realmente vivemos, de que foi segundo as leis da vida e do espírito que extraímos, dos elementos comuns da vida, da vida dos ateliers, dos meios artísticos, tratando-se de um pintor, alguma coisa que os ultrapassa.»

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, vol. II, Pedro Tamen (trad.), Relógio d'Água, 2003 (2ª ed.).

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Pelo Menos o Convívio

E uma vez que a raça de Combray, a raça de onde saíram seres absolutamente intactos como a minha avó e a minha mãe, parece quase extinta, e como pouco mais tenho a escolher que entre brutamontes honestos, insensíveis e leais, e em quem o mero som da voz bem depressa mostra que em nada se preocupam com a nossa vida, e uma outra espécie de homens que, enquanto estão ao pé de nós, nos compreendem, nos amam, se enternecem até ao pranto, e se desforram algumas horas mais tarde fazendo uma cruel zombaria à nossa custa, mas que voltam para nós sempre tão compreensivos , tão sedutores, tão momentaneamente assimilados a nós - acho que é desta última espécie de homens que prefiro, se não o valor moral, pelo menos o convívio.

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, vol. II, Pedro Tamen (trad.), Relógio d'Água, 2003 (2ª ed.).

Fora de nós

Tememos o desaparecimento dos bens que permaneceram fora de nós mais do que todos os outros, porque o nosso coração se não apoderou deles.

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, vol. II, Pedro Tamen (trad.), Relógio d'Água, 2003 (2ª ed.).

domingo, 6 de setembro de 2009

Limites da Nossa Virtude

Uma espécie de severidade de gosto que possuía, uma vontade de nunca escrever senão coisas de que pudesse dizer: «É suave», e que o fizera tantos anos passar por um artista estéril, precioso, cinzelador de nadas, era pelo contrário o segredo da sua força, porque o hábito faz tão bem o estilo do escritor como o carácter do homem e o autor que várias vezes se limitou a atingir na expressão do seu pensamento uma certa ornamentação estabelece desse modo para sempre as fronteiras do seu talento, tal como, cedendo muitas vezes ao prazer, à preguiça, ao medo de sofrer, nós próprios desenhamos sobre um carácter em que o retoque acaba por já não ser possível a imagem dos nossos vícios e os limites da nossa virtude.

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: À Sombra das Raparigas em Flor, vol. II, Pedro Tamen (trad.), Relógio d'Água, 2003 (2ª ed.).