Quando as luzes
não vibrarem na pele
quem colará às tuas ancas
as suas mãos quem
percorrerá
com vastas palavras
o que pertence
agora aos beijos
quando acordar
deste paraíso nocturno
e te abandonar quem
quem será
a tua companhia.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
3
Salto o muro de pedra, tenho
cuidado com vidros partidos
no túnel de ervas daninhas
e pregos saídos nas tábuas.
Na parede deixa uma marca
de cobra depois de soltar-se
e uma feia mancha escura
de antigas humidades. Chumbo.
Pesa como o diabo e pagam
a pronto sem haver perguntas.
Morto hotel que ninguém reclama.
Como um hóspede de então sigo
as tubagens quarto a quarto.
Sorrio: chumbo; não memória.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
cuidado com vidros partidos
no túnel de ervas daninhas
e pregos saídos nas tábuas.
Na parede deixa uma marca
de cobra depois de soltar-se
e uma feia mancha escura
de antigas humidades. Chumbo.
Pesa como o diabo e pagam
a pronto sem haver perguntas.
Morto hotel que ninguém reclama.
Como um hóspede de então sigo
as tubagens quarto a quarto.
Sorrio: chumbo; não memória.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
domingo, 14 de fevereiro de 2010
3.
Nasce na tua língua e na minha língua
de estrangeiro. Nasce no riso
cúmplice e no número do quarto
que esqueceste escrito no meu jornal.
Ou nasce na noite amiga
onde os corpos perdem a sua fronteira.
Nasce nos teus olhos e nasce nos meus olhos.
E a tua língua é a estrangeira
na minha boca e roda a minha língua
pela alcatifa até afundar-se nas tuas ancas,
até atravessar os rios com os teus pés.
E resvalam as minhas mãos pelo declive
da tua pele, e nas minhas ancas
afunda-se a tua língua e atravessaste rios
com os meus sonhos. Os teus pés nos meus lábios
e o meu pescoço sobre as tuas costas
e as tuas pernas por cima do meu peito.
E sinto o meu corpo estrangeiro
e o teu meu, enquanto nasce
o que cresce sem ter anos nem dias.
Então aprendi que depressa
de nada ia servir a inteligência.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
de estrangeiro. Nasce no riso
cúmplice e no número do quarto
que esqueceste escrito no meu jornal.
Ou nasce na noite amiga
onde os corpos perdem a sua fronteira.
Nasce nos teus olhos e nasce nos meus olhos.
E a tua língua é a estrangeira
na minha boca e roda a minha língua
pela alcatifa até afundar-se nas tuas ancas,
até atravessar os rios com os teus pés.
E resvalam as minhas mãos pelo declive
da tua pele, e nas minhas ancas
afunda-se a tua língua e atravessaste rios
com os meus sonhos. Os teus pés nos meus lábios
e o meu pescoço sobre as tuas costas
e as tuas pernas por cima do meu peito.
E sinto o meu corpo estrangeiro
e o teu meu, enquanto nasce
o que cresce sem ter anos nem dias.
Então aprendi que depressa
de nada ia servir a inteligência.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
O segredo
Entraste na noite
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como o símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como o símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
Esboço de caminhante sem rosto
A vida que soçobra
e a respiração de ladrilhos que ao passar
se crava nas têmporas,
ninguém que abrace este corpo
desventurado por avenidas
de uma cidade que conserva,
tal e qual os homens, as ruínas.
Os bares que sem atenção o acolhem
e o misturam com sonhos encobertos,
raparigas que sorriem. A vida
foi esvaziando este coração
ébrio da urina com que os deuses
matam lentamente
aqueles a quem não amam.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
e a respiração de ladrilhos que ao passar
se crava nas têmporas,
ninguém que abrace este corpo
desventurado por avenidas
de uma cidade que conserva,
tal e qual os homens, as ruínas.
Os bares que sem atenção o acolhem
e o misturam com sonhos encobertos,
raparigas que sorriem. A vida
foi esvaziando este coração
ébrio da urina com que os deuses
matam lentamente
aqueles a quem não amam.
José Ángel Cilleruelo, Antologia, Joaquim Manuel Magalhães (trad.), Averno, 2005
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