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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ao sair da infância

Não detivemos a pedra: um pássaro ferido;
não calamos o medo: um rasgão na pele;
não restituímos à luz a serenidade.

É certo que respirávamos,
abríamos as mãos,
esperávamos a noite diante de um livro muito sublinhado.

Até que alguém interrompendo o silêncio
abria a porta do quarto
e dizia: «Já que não sabes rezar
bebe ao menos um copo de leite
antes de te dares ao sono.»

Jorge Gomes Miranda, Curtas-metragens, Relógio d'Água, 2002

domingo, 11 de abril de 2010

À saída do cinema

Estou aqui a olhar para as tuas mãos
e de súbito tudo fica silencioso
os livros na sala ao lado
a máquina do café.

Há uma areia nas palavras
um cais onde se inclinamos a face
a dor emerge como um vento.

À saída do cinema pedi-te o telemóvel
para dizer que iria chegar atrasado
demasiado cedo para o que queria: beijar-te
distante dos difíceis campos devolutos,
atrás da árvore,
o cabelo espelhado na represa.

Jorge Gomes Miranda, Curtas-metragens, Relógio d'Água, 2002

A harmonia inquieta

Traço um círculo, a luz perdida
do luar, ao redor do teu nome,
da memória do teu rosto ausente por
campos de férias, rios que já não
devolvem a minha imagem.

Escrevo-te cartas. As maçãs apodrecem
na cozinha. Deito-me a meio da tarde
para descansar de não ouvir a tua voz.
Compromissos para esquecer o que
chegará um dia sem sabermos a dor.

Pelas mãos a água corre,
a fronte inclinada quase toca
a harmonia quieta do lavatório.

Por momentos escuto o canto de
um pássaro na varanda,
antes de a buzina de um carro
me arremessar para o terror da manhã.

Jorge Gomes Miranda, Curtas-metragens, Relógio d'Água, 2002

sábado, 10 de abril de 2010

O errante

Um dia, tínhamos decidido
faltar às aulas, perguntou-me:
«o que fazes de noite
para estares sempre tão triste de manhã?»

A noite: ruas que retemos na memória:
a distracção para tudo o que não seja
o que lábios vêem
ou nada existir para lá do limite rugoso das

palavras, incessantes fulgores
mas que nada restituem
quando estrela alguma cinge o errante.

Jorge Gomes Miranda, Curtas-metragens, Relógio d'Água, 2002