sábado, 31 de julho de 2010

[esta era aquela música de que eu te falava no outro dia]

Uma diferença entre as duas partes

De todos estes factos nasceu a história: o rapto de Helena e a guerra de Tróia e, ainda antes, a expedição da nau Argos e o rapto de Medeia, elos da mesma cadeia. Um apelo oscilava entre a Ásia e a Europa: a cada oscilação, uma mulher e, com ela, um bando de predadores, passavam de uma margem para a outra. Mas Hérodoto observou que havia, porém, uma diferença entre as duas partes: «Ora, o rapto de mulheres é considerado obra de malfeitores, mas preocupar-se com mulheres raptadas é obra de insensatos, porque é evidente que, se elas não tivessem querido, não teriam sido raptadas». Os Gregos não se comportaram como sábios: «Por causa de uma mulher de Esparta, preparam uma grande expedição e, quando chegaram à Ásia, aniquilaram o poder de Príamo». Desde então, nunca mais cessou a guerra entre a Ásia e a Europa.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um Conto Feliz da Infância: Endrémia e Liasão



Endrémia e Liasão
(da mitologia grega)

Endrémia era filha de Poligaminos, deus da Ensilagem, e de Reba, deusa do Alcaçuz. Era o rebento de uma união infeliz, como mais tarde se soube, porque, quando era ainda pequenina, o pai bateu na mãe com uma bigorna e transformou-se em lírio, para evitar a vingança de Júpiter. Júpiter, porém, era demasiado astuto para Poligaminos e derrubou-o com uma faísca do tamanho do prédio do Banco dos Retalhistas, coisa que o fez desequilibrar-se por completo e o levou a cair no abismo e a esbarrar na morte.
Enquanto isso, a pequenina Endrémia viu-se sozinha no mundo, sem ninguém que lhe acudisse, excepto Endrócina, deusa da Alface, e seu filho Bilás, deus da Goma Arábica. Mas, como Poligaminos (seu pai; já se esqueceram, seus palermas?) havia transformado Endrémia em cogumelo antes de ele próprio se transformar em lírio, nenhum dos seus protectores sabia quem ela era, por isso, de nada lhe valia tal protecção.
Júpiter, todavia, não esquecera tão depressa a filha da sua favorita (Reba), e apareceu-lhe uma noite, em forma de colector de cogumelos, perguntando-lhe se ela gostaria de sair daquela árvore (ela era um cogumelo dos que crescem nas árvores) e entrar para dentro do cabaz que trazia na mão. Endrémia, ignorando que era Júpiter quem tal lhe perguntava, pouco disse. E então Júpiter, soltando a sua ira poderosa, derrubou a árvore toda, com uma faísca que trouxera para o caso de Endrémia não ouvir a voz da razão.
É por isso que não é prudente comermos os cogumelos que crescem nas árvores ou recusarmos entrar para dentro do cabaz de Júpiter.

Robert Benchley, «Contos Felizes da Infância», Wit: ensaios humorísticos, Tinta da China edições, Lisboa, 2010 (trad. de Júlio Henriques).

Um fragmento de 4

O que acontece entre nós
acontece há séculos
sabêmo-lo da literatura.

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 87.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

"Rescue Dawn" de Werner Herzog, 2006

Nada

nada
se aguenta no reino da pura necessidade
senão o que as minhas mãos conseguem segurar.

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 149.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Às vezes um verso

Que espécie de animal transformaria a sua vida em palavras?

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 129.

"People Will Talk" de Joseph L. Mankiewicz, 1951

11

Sob os cantos de baço e enegrecido metal
da pequena máquina de café
lampeja um jacto azul

um cheiro matiza a sala
- um farejo ou presciência de
uma vida que na verdade pudesse ser

vivida um grão de esperança
uma trinca de chocolate amargo no metro
para acordar os sentidos

sem eles somos presas
da vontade falhada
sua ciência de desespero

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008

terça-feira, 27 de julho de 2010

"Memento" de Christopher Nolan, 2000

Como se fôsssemos cartas

Estás a ver? A vida baralha-nos como se fôssemos cartas, e é apenas por acaso, e mesmo então, não por muito tempo, que acertamos no nosso lugar!

Máximo Gorki, Seres que Outrora Foram Humanos, Monica Cozacenco (trad.), Francisco Silva Pereira (editing), Arbor Litterae, 2010


My favorite Bookshelf Porn

Presunção

«Dizem que os Cursistas de Artes no primeyro anno são Doutores, no segundo Licenciados, no terceyro Bachareys, e despoys são nada, porque quãto mais vão estudando, tanto melhor sabem que não sabem: e quanto era menos a luz, era mais a presumpção.»

Pe. Manuel Bernardes (1644-1710)
Luz e Calor
in A. do Prado Coelho (ed.), Clássicos Portugueses. Trechos Escolhidos. Manuel Bernardes I
Clássica Editora, Lisboa 1942

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Máximo Gorki, "Seres que Outrora foram Humanos"

Gostei muito deste Seres que Outrora foram Humanos de Gorki, acho que o lugar comum que se deve ter à mão para dizer acerca dele é que é um livro sobre as pequenas formas, quase inofensivas, de crueldade que restam às pessoas quando elas são reduzidas à miséria e até na miséria lhes tentam retirar o pouco que lhes resta. E é verdade, é um livro sobretudo sobre isto. Mas é também sobre como as pessoas na miséria mais extrema conseguem preservar um certo grau de humanidade, como é possível que laços sejam estabelecidos, que as pessoas permaneçam ligadas entre si por alguma coisa. E depois há o tom irónico de Gorki.
Contudo, o livro deste verão até agora é O Jardim dos Finzi-Contini e, de resto, o filme também (vá, dividido com o Rocco i suoi Fratelli, que é sempre o Rocco, mesmo quando visto uma segunda vez, e com Inception).