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domingo, 28 de abril de 2013

Dislocations: Seven Scenarios, 6

Not to get up and go back to the drafting table
where failure crouches accusing
like the math test you bluffed and flunked
so early on
not to drag into the window's
cruel and truthful light    your blunder
not to start over

but to turn your back, saying
all anyway is compromise
impotence and collusion
from here on I will be no part of it

is one way you could afford it


Adrienne RichThe School among the Ruins, Norton, 2004.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Transparencies

That the meek word like the righteous word can bully
that an Israeli soldier interviewed years
after the first Infitifada could mourn on camera
what under orders he did, saw done, did not refuse
that another leaving Beit Jala could scrawl
on a wall: We are truely sorry for the mess we made
is merely routine   word that could cancel deed
That human equals innocent and guilty
That we grasp for innocence whether or no
is elementary   That words can translate into broken bones
That the power to hurl words is a weapon
That the body can be a weapon
any child on playground knows   That asked your favorite word in a game
you always named a thing, a quality, freedom or river
(never a pronoun never God or War)
is taken for granted  That word and body
are all we have to lay on the line
That words are windowpanes in a ransacked hut, smeared
by time's dirty rains, we might argue
likewise that words are clear as glass till the sun strikes it blinding

But that in a dark windowpane you have seen your face
That when you wipe your glasses the text grows clearer
That the sound of crunching glass comes at the height of the wedding

That I can look through glass
into my neighbor's house
but not my neighbor's life
That glass is sometimes broken to save lives
That a word can be crushed like a goblet underfoot
is only what it seems, part question, part answer: how you live it

2002

Adrienne Rich, The School among the Ruins, Norton, 2004.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Centaur's requiem

Your hooves drawn together underbelly
shoulders in mud   your mane
of wisp and soil deporting all the horse of you

your longhaired neck
eyes   jaw yes   and ears
unforgivably human on such a creature
unforgivably what you are
deposited in the grit-kicked field of a champion

tender neck and nostrils   teacher   water-lily suction-spot
what you were   marvelous    we could not stand

Night drops   an awaited storm
driving in to wreck your path
Foam on your hide like flowers
where you fell    or fall    desire

2001

Adrienne Rich, The School among the Ruins, Norton, 2004.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

27.

Os admiradores de Tolstói os escravos afro-americanos
sabiam-no: podias ser morto
por ensinar alguém a ler e escrever
eu costumava pensar que a pior aflição
era ser-se proibido de usar lápis e papel
bom, Ding Ling recitava poemas a paredes de prisão
durante os anos da Revolução Cultural
e, de verdade, a magia dos caracteres escritos
eleva-se e diminui encolhe-se ao mínimo estica-se ao máximo
dependendo de onde estás
e do que está na tua mão
e de quem lê e porquê
penso agora que a pior aflição
não é não saber quem és ou onde estiveste
aprendi isto em parte
com escritores Ler e escrever
não são sagrados ainda assim tem-se matado gente
como se fossem

Adrienne Rich, Your Native Land, Your Life, Norton, 1993.

Versão minha.

terça-feira, 19 de julho de 2011

16.

É verdade, nestes últimos anos tenho vivido
vendo-me a mim mesma no acto de perder - a arte de perder,
chamava-lhe Elizabeth Bishop, mas para mim não é arte
apenas exercícios mal resolvidos
actos do coração forçados a questionar
as suas presunções neste mundo os seus entusiasmos simples
actos do corpo forçados a medir
todos os instintos contra a dor
actos de separação tentando abdicar
sem desistir sim Elizabeth aqui uma cidade
ali uma vila uma irmã, companheiro, gato
e mais nenhuma arte nisto apenas raiva

Adrienne Rich, Your Native Land, Your Life, Norton, 1993.

Versão minha.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

XVII

Havia também o outro Judeu. Aquele que mais temias, o do shtetl, de Brooklyn, do lado errado da história, com o sotaque errado, da classe social errada. Aquele por que te deixei. Aquele que ao mesmo tempo era parecido contigo e não era parecido contigo, que ao longo dos anos te foi revelando perante mim, e que não se podia revelar a si próprio. Aquele que disse, como se tivesse memorizado a fórmula, Agora nada já nada resta, exceptuando a comida e o humor. Aquele que, como tu, acabou isolado, que se tentara mover no mundo flutuante dos assimilados, que sabem e negam que serão sempre estrangeiros. Que num carro alugado conduziu até Vermont e deu um tiro a si próprio. Durante tantos anos tinha pensado que tu e ele eram opostos. Por essa altura precisava da vossa dissemelhança; agora é a vossa semelhança que me olha no rosto fixamente. Existo algo mais para lá da comida, do humor, uma mudança na frase, um gesto das mãos: existe algo mais.

Adrienne Rich, Your Native Land, Your Life, Norton, 1993.

Versão minha.

domingo, 17 de julho de 2011

De "Tempo Norte-Americano"

I

Quando os meus sonhos deram sinais
de se estarem a tornar
politicamente correctos
nada de imagens insubordinadas
escapando para lá de fronteiras
quando ao andar na rua encontrei os meus
temas cortados à minha medida
soube o que não chegaria a dizer
por medo de que disso fizessem uso inimigos
então comecei a pensar

II

Tudo o que escrevemos
será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições
aceita-as ou desiste.
A poesia nunca teve hipótese
de prevalecer fora da história.
Uma linha dactilografada há vinte anos atrás
pode ser ateada numa parede a tinta de spray
para glorificar a arte como distanciamento
ou para torturar aqueles que
não amaram mas também não
quiseram matar

Nós progredimos mas as nossas palavras permanecem
tornam-se responsáveis
por mais do que aquilo que esperávamos

e isto é privilégio verbal

III

Tenta sentar-te a uma máquina de escrever
numa noite tranquila de verão
numa mesa junto a uma janela
na província, tenta fingir que
o teu tempo não existe
que tu és tu simplesmente
que a imagem se limita simplesmente a vaguear
como uma imensa mariposa, sem intenção
tenta dizer a ti próprio
que não és responsável
pela vida da tua tribo
o fôlego do teu planeta

IV

O que pensas não importa.
Prova-se que as palavras são responsáveis
tudo o que podes fazer é escolhê-las
ou escolher
ficar calado. Ou, nunca tiveste escolha,
e é por isso que as palavras que prevalecem
são responsáveis

e isto é privilégio verbal

Adrienne Rich, Your Native Land, Your Life, Norton, 1993.

Versão minha.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

II

Recuso tornar-me alguém que busca curas.
Tudo o que alguma vez
me ajudou emergiu do que já
estava em mim depositado. Velhas coisas, difusas, inominadas, permaneceram fortes
através do meu coração.
É daqui
que a minha força vem, mesmo quando a minha força me falha
mesmo quando contra mim se vira
como um amo violento.

Adrienne Rich, Your Native Land, Your Life, Norton, 1993.

Versão minha.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Instantâneos de uma nora

6.Negrito
Quando ao som da lira Corina cantanem as palavras nem a música lhe pertencemsó o longo cabelo descendo-lhe pelo rosto, só a cançãode seda nos joelhose estesajustados no reflexo de um olhar.
Atenta, trémula e insatisfeita, anteuma porta destrancada, essa gaiola das gaiolas,diz-nos, tu pássaro, tu máquina trágica -será isto fertilisante douleur? Aprisionadapelo amor, para ti a única acção natural,estarás tu de gume mais afiadopara forçar os segredos da cripta? ter-te-á a Naturezamostrado a sua contabilidade doméstica, nora,que os seus filhos nunca viram?

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um fragmento de 4

O que acontece entre nós
acontece há séculos
sabêmo-lo da literatura.

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 87.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nada

nada
se aguenta no reino da pura necessidade
senão o que as minhas mãos conseguem segurar.

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 149.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Às vezes um verso

Que espécie de animal transformaria a sua vida em palavras?

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008, p. 129.

11

Sob os cantos de baço e enegrecido metal
da pequena máquina de café
lampeja um jacto azul

um cheiro matiza a sala
- um farejo ou presciência de
uma vida que na verdade pudesse ser

vivida um grão de esperança
uma trinca de chocolate amargo no metro
para acordar os sentidos

sem eles somos presas
da vontade falhada
sua ciência de desespero

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Maria Ramalho e Monica Andrade (trad.), Livros Cotovia, Lisboa, 2008