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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma imagem de «La Prima Notte di Quiete» de Valerio Zurlini, 1972
























Diz-lhe ela: «espera por mim». Ou talvez lhe diga: «vai-te embora, não me procures mais». Lembro-me que este é um filme triste. Ele morre no fim, quando conseguiu reunir tudo o que o podia fazer feliz. Hesita. Volta atrás. Não desiste. Precisa apenas de algum tempo para voltar atrás, mas não tinha desistido. É muito evidente desde o princípio que ele vai morrer no fim.
O filme passa-se em Rimini. Ele tem qualquer coisa de Paolo Malatesta, ela de Francesca da Rimini, ainda que Zurlini identifique a história com uma obra de Stendhal, Vanina Vanini. E, de facto, a personagem de Alain Delon tem qualquer coisa de Pietro Missirilli.
Há uma frase memorável neste filme. Alain Delon faz de professor de literatura. Há uma cena em que ele diz «eu estou aqui para vos mostrar a beleza de um verso de Petrarca, o resto não me interessa». Acho que esta frase explica o que um professor de literatura deve ser.
Todo o filme é muito sobre literatura, mas de uma forma indirecta. Quer isto dizer que, tendo em contas as alusões literárias explícitas que incorpora, o filme deveria ser muito dependente do mundo de alusões literárias em que se movimenta, nomeadamente aquelas que o relacionam com Stendhal (e Dante?), mas nunca se perde de vista que este é um filme sobre emoções, sobre desejo e expiação e sobre uma busca de felicidade destinada a falhar, que está para lá da literatura e se converte numa poderosa imitação de vida, sustentada pelas interpretações de Delon e Petrovna.
Por vezes pergunto-me se este não será o meu filme favorito de Zurlini.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma cena genial (em «Estate Violenta» de Valerio Zurlini, 1959)

Há quatro filmes de Zurlini de que gosto muito (aqueles que compõem a caixa que a Fnac vende). Regra geral as pessoas têm preferência por dois filmes de Zurlini (que estão incluídos na caixa): a sua adaptação do romance Il Deserto dei Tartari (1976), da autoria de Dino Buzzati (excelente, quase tão boa como o livro) e La Ragazza con la Valigia (de 1961), com Claudia Cardinale (quase tão bonita como em Il Gattopardo) a dividir o protagonismo com Jacque Perrin.
Não sei porquê prefiro os outros dois: La Prima Notte di Quiete (de 1972) e Estate Violenta, datado de 1959.
Estate Violenta é uma daquelas histórias de amor que parece não ter ponta por onde se lhe pegue, literalmente, e que nos leva por vezes a crer que foi filmada apenas para chocar a mentalidade da época. Trata-se da história de uma mulher mais velha, viúva, e de um rapaz, muito mais novo, que se apaixonam. Digo que a história parece não ter ponta por onde se lhe pegue porque não há nenhum fio a sustentar (ou que nos explique) a atracção sentida pelas duas personagens (interpretadas por Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago), não há nenhuma inclinação de carácter que as aproxime, elas conhecem-se através de um acidente e percebemos à partida que estão condenadas a separarem-se.
Durante muito tempo achei que esta aparente falta de nexo, de justificação, era uma falha de argumento. Que isso enfraquecia o filme. Mas não é, hoje penso que é propositado. O que Zurlini queria filmar era isso mesmo: duas pessoas que à partida não podiam ser unidas por nada e que tudo devia separar: o bom-senso, a idade, a condição de ambos. Mas há coisas inexoráveis. Há no filme uma cena que nos explica porque é que a história tinha de ser assim. Ou seja, creio que este filme se define a si próprio.
Numa festa em casa de amigos, as duas personagens dançam. É o primeiro momento em que percebemos que a atracção entre ambos é inevitável. Duas personagens que estão apaixonadas e que dançam (ainda que não constituam o primeiro par) é um topos. Repete-se em milhares de filmes. O que é decisivo nesta cena é a música que elas dançam (a primeira que toca). A música explica-nos o filme. Explica-nos as personagens. É uma cena genial.