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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Alguém Te Abandonou

... Alguém te abandonou na encruzilhada, e tu olhas longamente para trás. Passos argênteos na sombra de macieiras raquíticas. Purpúreo, o fruto resplandece nos ramos negros, e na erva a serpente está na muda de pele. Oh, a escuridão! O suor que aparece na fronte e os tristes sonhos no vinho, na taberna da aldeia sob traves negras de fumo. Tu, deserto ainda, que faz nascer por magia nuvens de rosas das nuvens castanhas do tabaco e lhes arranca do interior o grito selvagem de um grifo que caça, rondando falésias negras, por mares, tempestades e gelos...

Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

3.

Sino rosado da Páscoa na abóbada tumular da noite
E as vozes argênteas das estrelas,
Que fazem descer sombria loucura da fronte aterrada do sonâmbulo

Oh, que silencioso o andar pelo rio azul abaixo
Meditando sobre coisas esquecidas, quando nos ramos verdes
O chamamento de um melro levava um ser desconhecido à decadência.

Ou quando, pela ossuda mão do ancião,
Passava à noite pela muralha arruinada da cidade
E aquele levava no casaco negro uma criança rosada,
E o espírito do mal aparecia na sombra da nogueira.

O tactear dos verdes degraus do verão. Oh, como o jardim
Caiu suavemente no silêncio castanho do outono,
Odor e melancolia do velho sabugueiro,
Quando na sombra de Sebastião se extinguiu a voz argêntea do anjo.


Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Élis (3ª Versão)

1.
Perfeito é o silêncio deste dia dourado.
Sob velhos carvalhos
Apareces, Élis, imagem de paz com olhos redondos.

O seu azul espelha o sono dos amantes.
Na tua boca
Emudeceram os seus suspiros rosados

À noitinha o pescador puxou as pesadas redes.
Um bom pastor
Leva o rebanho pela orla da floresta.
Oh, que justos são, Élis, todos os teus dias!

Leve desce
Por muros desolados o silêncio azul da oliveira,
Morre o sombrio canto de um ancião.

Uma barca de ouro
Baloiça, Élis, o teu coração na solidão do céu.

Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Trakl

Dificilmente poderá tratar-se de Trakl, que, decididamente, não é um poeta do nosso tempo, tão próximo, aliás, do «apocalipse alegre» da Áustria de antes da Primeira Guerra. Mas a poesia, essa, despojou-se hoje de metafísicas, entrou no supermercado, disfarça-se e deleita-se em artifícios e jogos, desdobra-se em espelhamentos, metalinguagens e intertextualidades. A Georg Trakl não se chega por estes caminhos ecléticos do presente: a via é de sentido único - o das mais fundas obsessões da culpa e da Morte - , o seu universo é o da palavra com corpo sensível, imagem viva, suporte de simbolização sem abstracções.

João Barrento
in Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"Revelação e Decadência"

Estranhos são os caminhos nocturnos do homem. Quando eu, sonâmbulo, passava por quartos de pedra e em cada um ardia tranquila uma candeia, um candeeiro de cobre, e quando, cheio de frio, caí na cama, lá estava de novo à cabeceira a sombra negra da forasteira, e em silêncio escondi o rosto nas mãos lentas. À janela, o jacinto azul tinha também desabrochado, e aflorava aos lábios púrpura a velha oração no respirar do homem, caíam das pálpebras lágrimas de cristal, vertidas por este mundo amargo. Nessa hora eu era, na morte do meu pai, o filho branco. Com as chuvadas azuis vinha da colina o vento nocturno, o sombrio lamento da mãe, de novo a morrer, e eu vi o inferno negro no meu coração; minuto de silêncio reverberante. Silencioso, saiu de um muro caiado um rosto indizível - um jovem moribundo -, a beleza de uma estirpe que regressa a casa. Branca de lua, a frescura da pedra envolveu a fronte vigilante, foram morrendo os passos das sombras nos degraus em ruínas, no pequeno jardim uma dança de roda rosada.
(...)

Georg Trakl, Outono Transfigurado, assírio & alvim, Lisboa, 1992 (trad. e prefácio de João Barrento)