domingo, 7 de junho de 2009
nas várzeas da sombra
vagueava uma esperança
um pensamento inconfessado
por partidas milagrosas
e uma saliência concreta:
como a do macho pela fêmea.
surgiu então à tarde
uma ternura contrária ao vento
sulcando as toscas tulipas
com a cinza dos símbolos:
foi uma vigília ardente das estrelas
pela noite em númen.
nós colámos os sentimentos
de acordo com as instruções
do afecto.
e ficámos a ver a paisagem.
vagueava uma esperança
um pensamento inconfessado
por partidas milagrosas
e uma saliência concreta:
como a do macho pela fêmea.
surgiu então à tarde
uma ternura contrária ao vento
sulcando as toscas tulipas
com a cinza dos símbolos:
foi uma vigília ardente das estrelas
pela noite em númen.
nós colámos os sentimentos
de acordo com as instruções
do afecto.
e ficámos a ver a paisagem.
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Ainda bem que vi este filme em 2004 no cinema e que me emocionei e que depois o vi em casa umas cinco vezes. Não aguentaria apanhar o filme a meio, numa das noites de Sábado da RTP 2, sem nunca o ter visto.
sábado, 6 de junho de 2009
quantos passos para saber a forma de uma terra estranha
digamos: uma ilha – quantos passos
para pertencer à força do relâmpago
e à sua forma de seta breve, de prelúdio e de fuga
quanto tempo para percorrer os medos menores
que estão dentro do crepúsculo
de um ou dois gestos recurvos como silos
de um ou dois corpos breves de terem trigo por dentro
quantos anos é preciso gastar para saber
como respira o tom mais áspero do mar
antes de correr para fora da noite
antes de escapar para dentro da tempestade
antes que a conversa nas marés prefigure
o hábito de desferir a palavra enquanto seta
porque sendo a carne mortal
tudo tem um fim e tudo se gasta
e também o amor
e a espinha do homem dentro do amor
curvada dentro da fome e gastando-se
na melancolia de pensar nas pequenas vidas
dentro dos quartos que deviam durar para sempre
nuas de pensamento apenas imperecíveis como
tocar a pedra e mulheres com poses de estátuas
que ficam vivas só para o momento em que o poeta
medíocre as descreve enquanto fome
e também ter fome morrendo a carne
é um hábito de perder
por isso te comovem os passos em terra estranha
passos tão dentro de poço recurvos
em ires e vires de luz de meio-dia e de noite
e uma certa maneira de ser cego te comove
dentro das cores que estão em movimento
como uma maneira de nascer sem sangue
é estar estranho e novo na terra
como se as formas não te gastassem
digamos: uma ilha – quantos passos
para pertencer à força do relâmpago
e à sua forma de seta breve, de prelúdio e de fuga
quanto tempo para percorrer os medos menores
que estão dentro do crepúsculo
de um ou dois gestos recurvos como silos
de um ou dois corpos breves de terem trigo por dentro
quantos anos é preciso gastar para saber
como respira o tom mais áspero do mar
antes de correr para fora da noite
antes de escapar para dentro da tempestade
antes que a conversa nas marés prefigure
o hábito de desferir a palavra enquanto seta
porque sendo a carne mortal
tudo tem um fim e tudo se gasta
e também o amor
e a espinha do homem dentro do amor
curvada dentro da fome e gastando-se
na melancolia de pensar nas pequenas vidas
dentro dos quartos que deviam durar para sempre
nuas de pensamento apenas imperecíveis como
tocar a pedra e mulheres com poses de estátuas
que ficam vivas só para o momento em que o poeta
medíocre as descreve enquanto fome
e também ter fome morrendo a carne
é um hábito de perder
por isso te comovem os passos em terra estranha
passos tão dentro de poço recurvos
em ires e vires de luz de meio-dia e de noite
e uma certa maneira de ser cego te comove
dentro das cores que estão em movimento
como uma maneira de nascer sem sangue
é estar estranho e novo na terra
como se as formas não te gastassem
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Boas notícias
Segundo notícia do Público, a Guimarães prepara-se para editar a obra completa de Jorge de Sena. Sendo admirador do autor, fico contente.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
CTT
Sozinho na sala com a funcionária dos Correios, fui obrigado a desencostar os braços transpirados do balcão para ir tirar uma senha.
***
- Não está aqui mais ninguém. Só eu. Para quê uma senha?
- Estatísticas.
***
- Não está aqui mais ninguém. Só eu. Para quê uma senha?
- Estatísticas.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Sou do teu modo de atravessar as sombras
E da solidão repetida em dois ou três gestos
De cordas e de divisar a solidão és da chuva deste tempo
E de a ver cair e do seu gume ambíguo
Que te fala do fogo e te devolve ao fogo
E não sou de longe
mas da tua voz antes da sede
não do passo guardado do caminho
para memória
E não somos da palavra
De tecer penumbras dentro
na hora torrencial e mínima da travessia
E da solidão repetida em dois ou três gestos
De cordas e de divisar a solidão és da chuva deste tempo
E de a ver cair e do seu gume ambíguo
Que te fala do fogo e te devolve ao fogo
E não sou de longe
mas da tua voz antes da sede
não do passo guardado do caminho
para memória
E não somos da palavra
De tecer penumbras dentro
na hora torrencial e mínima da travessia
Ulysses is for me the prototype of man, not only modern man, but man of the future as well, because he represents the type of the «trapped» voyager. His voyage was a voyage toward the center, toward Ithaca, which is to say, toward himself. He was a fine navigator, but destiny - spoken here in terms of initiation which he had to overcome - forced him to postpone indefinitely his return to hearth and home. I think that the myth of Ulysses is very important for us. We will all be a little like Ulysses, for in searching, in hoping to arrive, and finnaly, without a doubt, in finding again the homeland, the hearth, we re-discover ourselves. But as in the Labyrinth, in finding one's home again, one becomes a new being.
Mircea Eliade, L'Epreuve du Labryinthe
I am become a name;
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known: cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honoured of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy.
I am part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro'
Gleams that untravelled world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
Tennyson, Ulysses
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known: cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honoured of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy.
I am part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro'
Gleams that untravelled world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
Tennyson, Ulysses
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Pascal Quignard, La Frontière

«C'est pourquoi le parc est peuplé d'hommes qui se suicident et de danseurs qui tombent. C'est ainsi que le marquis de Fronteira tira vengeance de la vengeance de Madame d'Oeiras. C'est pourquoi les animaux sur les azulejos ont pris le visage des hommes. C'est pourquoi au coin des fresques, à l'angle de ces murs, on voit des figures accroupies qui relèvent leur jupe et excrètent dans l'ombre»
Juventude
A juventude é uma doença. Nelson Rodrigues dizia: «Envelheçam». Vejamos o que diz Primo Levi (em Se não agora, quando?):
Tu és muito jovem. É uma doença que se cura depressa, mesmo sem medicamentos, mas pode ser igualmente perigosa. Enquanto a tiveres, tem cuidado.
Tu és muito jovem. É uma doença que se cura depressa, mesmo sem medicamentos, mas pode ser igualmente perigosa. Enquanto a tiveres, tem cuidado.
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