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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"O sentido e o gosto do infinito"

Não sou irreligioso, não. Pelo contrário, compartilho a opinião de Schleiermacher, outro teólogo de Halle, e que definiu a Religião como «o sentido e o gosto do infinito», vendo nela «um facto constituinte», inerente ao homem. Por isso, a ciência da Religião deveria lidar não só com axiomas filosóficos mas também com um facto psíquico, inerente às pessoas. Isso traz-me à mente a prova ontológica da existência de Deus, que sempre preferi a todas as demais e que da ideia subjectiva de um Ser Supremo deriva a Sua presença objectiva. Que esta prova não resiste à razão mais do que qualquer outra foi demonstrado com palavras sumamente enérgicas por Kant. Mas a Ciência não pode dispensar a razão, e pretender fazer uma ciência do sentido do infinito e dos eternos enigmas significa unir pela força duas esferas totalmente diversas entre si de um modo inadequado, a meu ver, e que me deixa sempre confuso. A religiosidade, que, em absoluto, julgo alheia ao meu coração, é certamente diferente da religião positiva, ligada a uma confissão. Não teria sido mais indicado abandonar o "facto" desse sentido humano do infinito ao sentido piedoso, às Belas-Artes, à livre contemplação e até à pesquisa exacta que sob a forma de cosmologia, astronomia, física teórica, pode servir tal sentido, dedicando-se de modo perfeitamente religioso ao mistério da Criação - ao invés de fazer dele uma ciência espiritual à parte e de nele alicerçar um edifício de dogmas, cujos adeptos se combatem cruelmente por causa de um verbo auxiliar?

Thomas Mann, Doutor Fausto. Herbert Caro (trad.). D. Quixote: 2010 (4ª ed.).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Do ser poeta, segundo Aschenbach

«Pois tens de saber que nós poetas não podemos percorrer o caminho do belo sem que Eros nos acompanhe e se imponha como guia; queremos pensar que somos heróis nós também e castos guerreiros, mas mais não somos do que mulheres, pois a paixão é o nosso sustento, e o nosso desejo permanece amor - este o nosso prazer, esta a nossa vergonha. Vês agora que nós poetas não podemos ser sábios nem dignos? Que necessariamente erramos, necessariamente somos aventureiros libertinos das emoções? A mestria do nosso estilo é mentira e loucura, a nossa glória e a nossa honra mera farsa, desprezamos a confiança das massas, a educação do povo e da juventude é uma empresa danada, a proibir. Pois como pode ser mestre quem nasce com uma inclinação natural e incorrigível para o abismo?»

Thomas Mann, A Morte em Veneza, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 110.