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terça-feira, 13 de abril de 2010

Big Night

A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.

Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.

Rui Pires Cabral, Música antológica & Onze cidades, Colecção Forma, Presença, 1997


Boo boo's gone mambo

Sempre que eu abrir as portas
para o teu tempo, comerei o pó dos dólmens
nos cantos da tua boca, em julho
entre o arvoredo.

Mais valia que não me tivesses salvo
nessa altura, o coração não me basta
e ainda se ressente.

Rui Pires Cabral, Música antológica & Onze cidades, Colecção Forma, Presença, 1997

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Gnossiene n.º1

Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.

Rui Pires Cabral, Música antológica & Onze cidades, Colecção Forma, Presença, 1997

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

«You are a foreigner of some sort.»

À míngua de uma ideia
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só a conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio - um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009


«He loved beauty that looked kind of destroyed.»

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

«Oh, I continue.»

Sim, depressa muda
a noite. O ano das cerejas

e das cartas já lá vai.
Mas vejo ainda e sempre

o desenho que fizeste
para conjurar a sorte

na toalha de papel -
são duas estrelas mortas

tatuadas na retina,
tinta preta que não sai.

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

Para o João Menau


As cidades doem, estão dentro de nós
mantidas por laços de fumo e desejo,
têm muros úteis e portas escondidas
que dão para a noite, como certos livros,
e há amores que vivem a horas tardias

e outros que se cortam no fio da trama,
queimam paus de incenso para abrir
caminhos, remover obstáculos, há curvas
e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.
As cidades cansam, estão nos nossos

dias, têm mil janelas de azul virtual
que nunca sossegam e nunca terminam
e há corpos que ensinam a temer a morte,
sombras que circulam nas redes do escuro
e homens que ferem para não chorar.

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009