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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O dia

«O dia, flor extrema»

Diz Octavio Paz, em Árvore Adentro.

5

Um veio de sol, ouro animado,
estrias, cruzes, espirais,
verdes constelações:
o triangular insecto,
avançava entre as ervas
três ou quatro milímetros por hora.
Por um instante o tiveste
na palma da mão
(onde o instinto traça o seu secreto arabesco)
é uma jóia viva, criatura
talvez caída de Titânia,

- e deixaste-o, reverente,
regressar ao Grande Todo.

Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994

domingo, 12 de dezembro de 2010

Irmandade

Homenagem a Cláudio Ptolomeu

Sou homem: duro pouco
e a noite é enorme.
Para cima olho, porém:
escrevem estrelas.
Sem entender, compreendo:
escrita também sou,
e neste mesmo instante,
alguém me soletra.

Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O teu riso de reconciliação

vimos uma mariposa pousar sobre a cabeça da
caixeira, abrir as asas da chama, e dispersar-se em
cintilações,
tocámos os pensamentos que pensávamos, e
vimos as palavras que dizíamos,
depois, voltou o ruído das colheres, cresceu o
marulhar, e o ir e vir das gentes,
mas tu estavas à beira do alcantilado, era um
amplo sorriso a baía,
e, lá em cima, pactuavam luz e vento: Psiqué
soprou na tua fronte.
Não foste Lícida, nem te afogaste num naufrágio
no mar da Irlanda,
foste Kostas Papaiaoannou, um grego universal
de Paris, com um pé na Bactriana e o outro em
Delfos,
e, por isso, escrevo em tua memória estes versos,
no metro irregular da sístole e da diástole,
prosódia do coração, que torna breves as sílabas
longas, e longas as breves
versos longos e curtos, como os teus passos
subindo da Pont Neuf ao lion de Belfort, recitando o
poema de Proclus,
versos para seguir, sobre esta página, o rasto das
tuas palavras, que são cabras, que são ménades
saltando à luz da lua num vale de pedra e sólidos
de vidro por elas inventados
enquanto tu falas de Marx e de Teócrito, e ris,
e as vês bailar entre os teus livros e papéis
- é Verão, e estamos num atelier que dá para
um jardinzito no beco Daguerre,
há uma latada, da qual pendem cachos de uvas,
condensações da noite: dentro, dorme um fogo,
tesouros escaldantes, assim seriam os que viu e
tocou Nerval no ouro da trança divina? -
o teu falar caudaloso avança entre obeliscos  e
arcos quebrados, inscrições mutiladas, cemitérios de
nomes,

(...)

e tu deténs-te, e olhas, calado, o deus da história:
cabras, ménades e palavras dissipam-se.

(...)

O homem é as suas visões: uma tarde, depois de
uma tormenta, viste, ou sonhaste, ou inventaste, é o
mesmo

(...)

Kostas, entre as cinzas geladas da Europa, eu não
encontrei o ovo da ressurreição:
encontrei, ao pé da cruel Quimera empapada de
sangue, o teu riso de reconciliação.

Octavio Paz, "Kostas", Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

(uma imagem)

a vertigem imóvel do adolescente desenterrado
que irrompe à minha frente enquanto escrevo
e caminha de novo, multisó na sua solidão, por
ruas e praças desmoronadas mal as digo
e se perde de novo em busca de tudo e de todos,
de nada e de ninguém

Octavio Paz, "1930: Fixos Desígnios", Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994

Este lado

A Donald Sutherland
 Há luz. Não a tocamos nem vemos.
Nas suas ocas claridades,
repousa o que vemos e tocamos.
Eu vejo com as polpas dos dedos
o que palpam meus olhos:
------------------sombras, mundo.
Com as sombras, desenho mundos,
dissipo mundos com as sombras.
Oiço pulsar a luz do outro lado.

Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

IV

Para esperar a noite, estendi-me
à sombra de uma árvore de palpitares.

A árvore  é mulher, e em sua folhagem,
ouço o mar pela tarde a rolar.

Como seus frutos com sabor a tempo,
frutos de olvido e conhecimento.

Sob a árvore, olham-se e tocam-se
imagens, ideias e palavras.

Pelo corpo voltamos ao começo,
espiral de quietude e movimento.

Sabor, saber mortal, pausa finita,
tem princípio e fim - e nula medida.

A noite entra e cobre-nos de marés;
repete-lhe, já negras, o mar as suas sílabas.

Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994