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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

domingo, 21 de fevereiro de 2010

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço


e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

sábado, 20 de fevereiro de 2010

discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem.

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

julião os amadores

Já nada temos a fazer sobre a Terra esperemos de olhos fechados a
................passagem do vento
dizia eu ........dizia eu
que é sobre a missa branca do teu peito que se erguem os palácios
................rasos de água
no escuro..... no escuro
alguém nos levará tocando-nos com um dedo nós trémulos,
................deitados, sem dizer palavra, morreremos de ter-nos
................conhecido tanto
e depois?..... e depois?
depois o halo de uma fita azul o martelo esquecido sobre a pedra
...............de um sonho
mas os salões?........ e a casa?
e o cão que nos seguia?

o teu rosto meu rosto
este homem alto
........................................o Sol

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Impossível saber-se até onde irá connosco a nossa confiança
Ficaste, mão que aperto todas as manhãs para atravessar incólume
..................os espaços vazios

Cesariny, in «autografia II», Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

a um rato morto encontrado num parque

Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas – tão junto ao focinho –
que afinal estavam juntas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar atrás de repente,
.............quando necessário

Está pois tudo certo, ó “Deus dos cemitérios pequenos”?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo – com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa – e aos médicos – ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos – vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?

Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?

Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar -
vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente
o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar
para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por centro hipócritas.

Cesariny, Uma Grande Razão: Os Poemas Maiores, Assírio & Alvim, 2007

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Rimbaud

As noites, as pontes de comboio, a má estrela,
Os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.

As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Terminando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.

Os versos eram uma doença específica do ouvido;
A integridade era de menos; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.

W. H. Auden, O Massacre dos Inocentes (Uma Antologia), José Alberto Oliveira (trad.), Assírio & Alvim, 1994

A propósito de Verlaine acaba-se sempre por falar de Rimbaud, aqui há dias falou-se de Verlaine e lembrei-me deste poema.
Tenho duas traduções de Rimbaud na estante, a de Cesariny de Iluminações e Uma Cerveja no Inferno, tradução do título Une Saison en Enfer e O Rapaz Raro em tradução de Maria Gariela Llansol.
Não sei porquê embirro com as traduções de MGL (todas as que até agora me passaram pelas mãos sem excepção). Enquanto a tradução-versão-interpretação de Cesariny me fez adorar Rimbaud, é um exemplo de um trabalho sobre determinado corpus de texto bem feito e a edição bilingue permite-nos ver onde começa Cesariny e acaba Rimbaud, a de MGL deixou-me a impressão de estar perante uma tradução demasiado presa à língua de partida que por vezes se esquecia da língua de chegada (este pode ser um reparo injusto), e isso também não é bom para o texto traduzido.
Creio que a tradução de Cesariny demonstra que um tradutor pode ser interpretativo sem se esquecer do texto que está a traduzir e, apesar dos desvios, creio que Cesariny nunca se esquece do seu papel de tradutor. O leitor desta tradução assume o acordo tácito (logo ao olhar para o título) de jogar pelas regras do tradutor e a experiência de leitura ganha com isso. Cesariny não tem pretensões a verter literalmente o texto (a própria tradução do título é um trabalho de interpretação) mas tudo isto converge para termos uma excelente versão de Iluminações e Uma Cerveja no Inferno. Com a tradução de MGL sucede um pouco o inverso, um tradutor demasiado preocupado com a língua de partida, o que é legítimo mas também retira «movimento» ao texto em português, olhamos para a edição bilingue ao lado e na tradução temos apenas um Rimbaud mais desengraçado. A tradução perdeu coisas porque o tradutor foi bastante fiel mas esqueceu-se do espírito do texto. Isto não é necessariamente mau, mas o trabalho de Cesariny é melhor, também, trata-se de Cesariny. Neste campo, Herberto Helder fez algo semelhante com os seus Poemas Mudados Para... mas aí já nem estamos no campo da tradução.
De qualquer forma, no caso de ambas as traduções, as edições feitas são bilingues, e a beleza dos textos de Rimbaud resiste (ou é mantida) nas traduções.