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terça-feira, 6 de abril de 2010

Vamos florir as pontes que se lançam
de língua para língua.
Visitemos rendados e cidades,
protejamos soleiras e ameixas.
Eis o Junho sem sono
que cose os dias e as noites.
Os irmãos comuns das brumas
são iguais de pés e mãos.
Líquido vermelho amor
que grita, uiva e amotina
mil vertigens, mil crianças.

Jacques Izoard, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994
O vazio debaixo das palavras.
Belo abismo com que me deleito.
Haverá outros lábios sob os meus?
Resvala pelo meu braço adentro
Um braço de ferro que me petrifica
o gesto e o coração.
E é o afluxo poeirento
desse infame silêncio opaco.

Jacques Izoard
, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quem sonha com e contra tudo
detém maravilhas e vertigens.
E no casulo do corpo
eis os marinheiros a dormir,
as aves do alto mar,
os viajantes mortos de cansaço.
Baques. Balanços. Passadiços.
Ali está uma criança a desenhar
um coração de vidro
num sol de água clara.


Jacques Izoard
, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994
Arma o arco da língua
e pronuncia «sono», «sonhador»,
diz «junquilho», grita «cogula»!
Abandona a tua pele
ao olhar dos outros.
Segue-se a bela morte
de tudo o que nos une.

Jacques Izoard, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994