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quarta-feira, 18 de maio de 2011

O fogo

O mesmo ódio, o mesmo ferrete. Marcar as reses, dizem eles. Esquecer a manada solta através dos prados. Criar o animal doméstico, a paciência que se ouve nos provérbios. E a nossa memória (ruminada) de chifres contra chifres? Querem lá saber. O fogo continua: nas cozinhas, nas matanças festivas. Até que surge este desenho. Francamente. Não nos poupa as chamas (reacende-as) e os carneiros têm figura de gigantes. Qualquer dia, a canga (a paciência) acaba. Esperança, vai havendo.

Carlos de Oliveira, Finisterra

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Salmo

A vida
é o bago de uva
macerado
nos lugares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Bolor

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

Vento

As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão;
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Soneto

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavra de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Carlos de Oliveira, in Ao Longe os Barcos de Flores, Poesia Escolhida por Gastão Cruz, Dita por José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Luísa Cruz, Natália Luiza, Gastão Cruz (org.), Assírio & Alvim/ Sons, 2004.