Acabou-se o estranho, com quem, tarde
na noite, regressavas, palra e palra.
Ninguém haverá já que me aguarde,
preparado o meu lugar, bom o que é mau.
Acabou-se a afectuosa tarde;
tua grande baía e teu clamor, o palratório
com tua mãe já tão cansada
que nos oferecia um chá pleno de tarde.
Acabou-se por fim tudo: as férias,
tua obediência de peitos, tua maneira
de pedir-me que não me vá embora.
E acabou-se o diminutivo, para
minha maioridade na infinita dor,
e o nosso ter nascido assim sem causa.
César Vallejo, Antologia Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 1992
Mostrar mensagens com a etiqueta César Vallejo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta César Vallejo. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Tenho um medo terrível
Tenho um medo terrível de ser um animal
de branca neve, que sustentou pai
e mãe, com sua única circulação venosa,
e que, neste dia esplêndido, solar e arquiepiscopal,
dia que representa assim a noite,
linearmente
elude este animal estar contente, respirar
e transformar-se e ter dinheiro.
Seria enorme mágoa
que eu fosse homem até esse ponto.
Um disparate, uma premissa ubérrima
a cujo jugo ocasional sucumbe
o gozo espiritual da minha cinta
Um disparate... Entretanto,
é assim, para cá da cabeça de Deus,
na tabela de Locke, de Bacon, no lívido pescoço
da besta, no focinho da alma.
E na lógica aromática,
tenho esse medo prático, neste dia
esplêndido, lunar, de ser aquele, este talvez,
a cujo olfacto cheira a morto o solo,
o disparate vivo e o disparate morto.
Oh espojar-se, estar, tossir, enfaixar-se,
enfaixar a doutrina, as têmporas, de ombro a ombro,
afastar-se, chorar, dá-lo por oito
ou por sete ou por seis, por cinco ou dá-lo
pela vida que possui três potências.
22 Out. 1937
César Vallejo, Antologia Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 1992
de branca neve, que sustentou pai
e mãe, com sua única circulação venosa,
e que, neste dia esplêndido, solar e arquiepiscopal,
dia que representa assim a noite,
linearmente
elude este animal estar contente, respirar
e transformar-se e ter dinheiro.
Seria enorme mágoa
que eu fosse homem até esse ponto.
Um disparate, uma premissa ubérrima
a cujo jugo ocasional sucumbe
o gozo espiritual da minha cinta
Um disparate... Entretanto,
é assim, para cá da cabeça de Deus,
na tabela de Locke, de Bacon, no lívido pescoço
da besta, no focinho da alma.
E na lógica aromática,
tenho esse medo prático, neste dia
esplêndido, lunar, de ser aquele, este talvez,
a cujo olfacto cheira a morto o solo,
o disparate vivo e o disparate morto.
Oh espojar-se, estar, tossir, enfaixar-se,
enfaixar a doutrina, as têmporas, de ombro a ombro,
afastar-se, chorar, dá-lo por oito
ou por sete ou por seis, por cinco ou dá-lo
pela vida que possui três potências.
22 Out. 1937
César Vallejo, Antologia Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 1992
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Os Arautos Negros
Há pancadas tão fortes na vida... Eu sei lá!
Pancadas como do ódio de Deus; como se sob elas
a ressaca de todo o sofrimento
estagnasse na alma... Eu sei lá!
Poucas, mas acontecem...Abrem leivas escuras
no rosto mais duro e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de átilas selvagens;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.
São as profundas quedas dos Cristos da nossa alma,
de uma fé adorável que o destino blasfema.
Tais pancadas sangrentas são as crepitações
de um pão que à porta do forno se nos queima.
E o homem...Pobre...Pobre! Volta os olhos, como
quando em seu ombro uma palmada o vem chamar,
volta os seus olhos loucos, e todo o já vivido
como um charco de culpa estagna em seu olhar.
Há pancadas na vida tão fortes...Eu sei lá!
César Vallejo, Antologia Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 1992
Pancadas como do ódio de Deus; como se sob elas
a ressaca de todo o sofrimento
estagnasse na alma... Eu sei lá!
Poucas, mas acontecem...Abrem leivas escuras
no rosto mais duro e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de átilas selvagens;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.
São as profundas quedas dos Cristos da nossa alma,
de uma fé adorável que o destino blasfema.
Tais pancadas sangrentas são as crepitações
de um pão que à porta do forno se nos queima.
E o homem...Pobre...Pobre! Volta os olhos, como
quando em seu ombro uma palmada o vem chamar,
volta os seus olhos loucos, e todo o já vivido
como um charco de culpa estagna em seu olhar.
Há pancadas na vida tão fortes...Eu sei lá!
César Vallejo, Antologia Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 1992
Subscrever:
Mensagens (Atom)