a guerra daqui não mata - mas abre fissuras
nos nervos - é o que te posso dizer
deste país que escolhi para definhar
a cidade é um amontoado de lixo de tapumes
de sucata e de casas que se desmoronam
a realidade estragou os olhos das crianças
no fim do corpo em que me escondo espalhou-se
a treva onde
guardo a corola azulínea da tua ausência
e o marulho nítido de um mar que canta
e um calor sísmico nos lábios que beijaste
é-me difícil continuar a escrever-te
o que me destrói - sei que estou fodido
e tu já não és meu
preparo-me para entreabrir os olhos e
deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
e das coisas tristes
Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 1997
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
carta de emile
a minha cidade tinha um rio
donde sobe hoje o cheiro a corações de lodo
e um eflúvio de enxofre e de moscas cercando
as cabeças dos vivos
as pontes
as que vi ruírem nas imagens dos jornais
continuam de pé algures na memória
mas não podíamos sair dali
ir falar ou trocar fosse o que fosse - ou resistir
- porque não tínhamos nada para trocar excepto
a fome e a vontade inabalável de viver
nem pão nem balas
nem esperança - e cada um de nós metamorfoseou-se
num cemitério ambulante - cada um de nós
sepultou na alma uma quantidade desumana
de dor e de mortos
tudo se decompões
apodrece
e as mãos enterram-se no estrume das horas - assim
te escrevo
sentado na parte mais triste do meu corpo
noite dentro
na boca a encher-se-me de ossos - até que irrompa a manhã
e os tiros recomecem
e a cinza do cigarro caia no chão
e em mim cresça uma alegria maligna
Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 1997
donde sobe hoje o cheiro a corações de lodo
e um eflúvio de enxofre e de moscas cercando
as cabeças dos vivos
as pontes
as que vi ruírem nas imagens dos jornais
continuam de pé algures na memória
mas não podíamos sair dali
ir falar ou trocar fosse o que fosse - ou resistir
- porque não tínhamos nada para trocar excepto
a fome e a vontade inabalável de viver
nem pão nem balas
nem esperança - e cada um de nós metamorfoseou-se
num cemitério ambulante - cada um de nós
sepultou na alma uma quantidade desumana
de dor e de mortos
tudo se decompões
apodrece
e as mãos enterram-se no estrume das horas - assim
te escrevo
sentado na parte mais triste do meu corpo
noite dentro
na boca a encher-se-me de ossos - até que irrompa a manhã
e os tiros recomecem
e a cinza do cigarro caia no chão
e em mim cresça uma alegria maligna
Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 1997
recado
ouve-me
que o dia te seja limpo
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 1997
que o dia te seja limpo
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, 1997
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