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terça-feira, 8 de maio de 2012

Literatura e Sofrimento

        Que distância haverá entre a literatura e o sofrimento? Será ela função da natureza do sofrimento, da sua intensidade ou do espaço que os separa? A obra literária estará mais próxima do sofrimento que causa o reflexo do fogo ou daquele que provém do próprio fogo? Exemplos imediatos, tanto no espaço como no tempo, mostram existir relações praticamente directas entre a literatura e o sofrimento remoto, fechado, sendo porventura possível afirmar que o facto de sofrer com os outros constitui uma forma de literatura ardentemente em busca das suas palavras. O sofrimento imediato, aberto, distingue-se do sofrimento remoto em particular pelo facto de não buscar as suas palavras, em todo o caso de o não fazer na altura em que é sentido. Em comparação com o sofrimento fechado, o sofrimento aberto é tímido, contido e avaro nas palavras que profere.
        Enquanto o avião vai subindo, na negrura de inverno, através duma nuvem de chuva alemã e de neve alemã, e a águia alemã do aeroporto, ainda de pé, desaparece na obscuridade, por debaixo de nós, enquanto as luzes de Francoforte são abafadas por uma nuvem de trevas e o avião sueco se ergue acima do sofrimento à velocidade de trezentos quilómetros à hora, um pensamento porventura impõe-se, mais que qualquer outro, ao espírito do passageiro: e se ele fosse obrigado a ficar, se devesse ter fome todos os dias, dormir numa cave, lutar a cada instante contra a tentação de roubar, tiritar de frio em cada minuto e sobreviver às piores experiências, incessantemente? E este passageiro recorda as pessoas que encontrou e que são obrigadas a fazer tudo isso. Recorda sobretudo certos escritores, certos artistas, não porque tivessem mais fome ou sofressem mais do que quem quer que fosse, mas porque eles estavam conscientes das possibilidades de sofrimento, porque tinham tentado avaliar a distância entre arte e sofrimento.

(...)

        E o sofrimento, no meio de tudo isso? Põe-se a falar da felicidade de sofrer, da beleza do sofrimento. O sofrimento não é sujo, não é digno de piedade. Nada disso; é grande, porque engrandece os homens. «Como explicar as conquistas da nossa cultura germânica ancestral a não ser pelo facto de o povo alemão ter sofrido mais do que os outros povos?» Não é possível convencê-lo de que o sofrimento é algo abjecto. O historiador romântico que há nele acolhe o sofrimento como o mais poderoso dos motivos capazes de conduzir um homem a grandes acções, e o clássico nado que ele é vê nisso a fonte duma grande literatura, a qual não será necessariamente uma literatura de sofrimento.

Stig Dagerman, Outono Alemão, Antígona, (trad. Júlio Henriques), 1998.

domingo, 29 de abril de 2012

Em 1947!

A fim de se completar a imagem outonal desta família na sua cave cheia de água, convém, com efeito, não esquecermos de lhe acrescentar um certo jornalista que, aproximando-se com prudência, em equilíbrio sobre umas quantas tábuas também elas em equilíbrio, vem entrevistar os membros dessa família acerca das suas opiniões quanto à recentíssima democracia alemã, e os interroga sobre as suas esperanças e as suas ilusões - perguntando-lhes, sobretudo, se no tempo de Hitler viviam melhor. A resposta que o visitante recolhe quanto a este último ponto leva-o a sair rapidamente às arrecuas de um quarto nauseabundo, após uma reverência de raiva, de nojo e de desprezo, e a meter-se no seu automóvel inglês ou no seu jipe norte-americano de aluguer, a fim de ir redigir, meia hora depois, à mesa dum bar de hotel reservado à imprensa, diante dum uísque ou dum copo de cerveja alemã autêntica, um artigo sobre o tema «O Nazismo continua na Alemanha». 

Uma tal imagem do estado de espírito que reinava na Alemanha neste terceiro outono e que o jornalista em questão e muitos outros, ou de maneira mais geral os visitantes estrangeiros, foram propalando pelo mundo fora, contribuindo assim para a tornar sua, é evidentemente exacta à maneira dela. Perguntavam aos alemães que moravam em caves se viviam melhor no tempo de Hitler, e estes alemães respondiam que sim. É perguntar a alguém que se esteja a afogar se se sentia melhor quando estava em terra; a resposta há-de ser que sim. 

Stig Dagerman, Outono Alemão, Antígona, (trad. Júlio Henriques), 1998.