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sábado, 7 de julho de 2012

Aborrecimento

     - Diz lá - perguntou de repente o animado Avdéev a Panov -, acontece-te alguma vez ficares aborrecido? 
     - Que aborrecimento pode haver? - respondeu Panov a contragosto.
     - Comigo, às vezes o enfado é tanto que nem sei o que sou capaz de fazer comigo.
     - Não me digas! - disse Panov.
    - Daquela vez, lembras-te? Derreti o dinheiro todo na bebedeira, só por causa desta chatice. Tomou conta de mim, e pensei: vou emborrachar-me até cair.
     - Às vezes ainda se fica pior com os copos.
     - Mas também, o que se pode fazer?
     - E é porquê, esse teu aborrecimento?
     - Porquê? Porque tenho saudades de casa!
     - E como era a tua vida, a tua família é rica?
     - Ricos não, mas vivíamos bem. Nada mal, até.
     E Avdéev pôs-se a contar o que já tinha contado muitas vezes a Panov.
     - Alistei-me por minha própria vontade, na vez do meu irmão. Ele já tinha cinco filhos, e eu não, tinha acabado de me casar. E a minha mãe pediu-me tanto. Pensei: não me importo! Mais tarde talvez me agradeçam o bem que lhes fiz. Fui falar com o meu senhor. O nosso senhor é bom, disse: «Fazes bem, rapaz, vai!» E vim, em vez do meu irmão.
     - Fizeste bem - disse Panov. 
     - Mas agora é um tédio, acredita. E aborreço-me sobretudo porque vim na vez do meu irmão. Penso: ele agira está a viver como um rei, e eu aqui a sofrer. Quanto mais penso, pior me sinto. É uma tentação, acho eu. 
 
Lev Tolstói, Hadji-Murat, Relógio d'Água, 2009. 
    

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Hadji-Murat

A Relógio d'Água publicou recentemente uma tradução de Hadji-Murat (sim, a famigerada, com a foto de Turguéniev em vez da de Tolstói na orelha do livro, russos barbudos, sabem como é, isto pode pensar-se que é tudo igual). Já existia uma tradução da Cavalo de Ferro, mas aí o herói chama-se Khadji-Murat, creio que as diferenças no título se explicam meramente por questões de transliteração. O New York Times traçou um perfil desta última obra de Tolstói.
Para quem se interesse pelo autor, vale a pena ler. Aqui fica um excerto (link incluído):

Tolstoy stubbornly records details inside Russian camps and, transcendentally (for he was as isolated as any soldier in a foreign land), inside Chechen homes. He opens the novel with the smell of the dung-fed fire in a mud hut, where Hadji Murad is preparing his defection. The conversation has nothing to do with money or grand theories of progress. Instead, quick sparks of sentiment and honor flicker out of the rituals of greeting, eating and prayers.
This empathy allows Tolstoy to catch the generosity and joy in battle of a young Russian officer attacking a village, but also the burned house and the bayoneted boy. Tolstoy shows how, in the fine texture of the local resistance, self-interest can blend with honor, fury and religion in “a natural instinct akin to the instinct of self-preservation.”