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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sul

Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.

Eugénio de Andrade, Poesia, Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

sábado, 5 de setembro de 2009

XII

E vai chegando, vai chegando ao fim
a luz de março.
Por aí andou, íntima de cada pedra
e dos gatos, pela relva

se espojou com as crianças,
as nalguinhas frescas.
Ninguém é senhor da luz detida
num olhar, ninguém

se demora a cantar frente ao silêncio
duma rosa fechada.
Se fores à janela verás talvez ainda
morrer as últimas luzes.

Loucas, loucas de março.

Eugénio de Andrade, Poesia, Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

Alguém contrabandeou cá para casa este livro. Toda a poesia de Eugénio de Andrade editada pela sua Fundação. Folheando-o saltou à vista este poema. É mesmo bonito.

domingo, 30 de agosto de 2009

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor de um fruto, o peso de uma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade, in Ao Longe os Barcos de Flores, Poesia Escolhida por Gastão Cruz, Dita por José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Luísa Cruz, Natália Luiza, Gastão Cruz (org.), Assírio & Alvim/ Sons, 2004.

sábado, 29 de agosto de 2009

Já não se vê o trigo

Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

Eugénio de Andrade, in Ao Longe os Barcos de Flores, Poesia Escolhida por Gastão Cruz, Dita por José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Luísa Cruz, Natália Luiza, Gastão Cruz (org.), Assírio & Alvim/ Sons, 2004.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Acerca de Gatos

Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade, in Manuel de Freitas (org.) A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009 (a edição utilizada na antologia é Eugénio de Andrade, Poesia, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2000)