Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Bessa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Bessa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de abril de 2010

antídotos

Estacionar o carro é amiúde
o último passo de uma batalha.
Gente há que para fugir ao desespero
liga para as informações. Os lêem
livros velhos, ralham com os filhos, com as mulheres.
Há quem não resista e gaste dinheiro
ou entre numa pastelaria como
quem vai receber a melhor das heranças.
Mas talvez o melhor antídoto da raiva
e da falta de razões ainda sejam essas
vozes neutras e profissionais que cumprem
o salário da mais nobre das tarefas,
as da escuta. Embora sejam de gente
e como tal resvalem e nos deixem sem
outras lágrimas que as dos filmes que
passam na televisão.

Carlos Bessa, Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, 2004

outros dizeres

Ela diz que todas as pessoas dos arredores
são dadas à fábula. Mais facilmente
acreditam numa história escandalosa
do que duvidam do interlocutor. E eu,
que a amo, só posso concordar. Os melhores
romancistas sãos os esfomeados. Há séculos
que destroem impérios e catedrais. Ao mesmo
tempo que transformam em ouro o que para
muitos não é mais do que nada. O jogo
do gato e do rato tem sempre espectadores.

Carlos Bessa, Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, 2004

poderes*

Podemos ficar sentados a noite inteira
à espera de um sinal que nunca chega,
podemos num desespero sem nome perder
o gosto de tudo, enquanto o eu permanece
brilhante, estupidamente brilhante,
a sussurar-nos ao ouvido a desgraça;
podemos numa lufa-lufa, ir de filme
em filme, de livro em livro como quem
sem terra procura uma casa, um lugar
a que possa chamar seu, onde tenha os seus
pertences e tempo para rir e tempo para
se aborrecer. Podemos ter pena de nós próprios,
podemos viver.

*Além dos sentidos comuns, poderes usa-se nos Açores como sinónimo de muito.

Carlos Bessa, Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, 2004