sábado, 12 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Dream
I sleep and my heart stays awake;
it gazes at the stars, the sky and the helm,
and at how the water blossoms on the rudder.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
it gazes at the stars, the sky and the helm,
and at how the water blossoms on the rudder.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
Animula Vagula Blandula
Alminha, vagabundo, blandiciosa,
Do corpo a moradora e companheira,
A que lugares tu te vais agora,
Tão pálida, tão rígida, tão nua?
Nem mais às graças te darás de outrora.
Públio Élio Adriano, Tradução de Jorge de Sena
A título de curiosidade, e em sequência do post anterior sobre o mesmo poema, aqui fica, seguindo uma indicação de Hugo Pinto Santos, a tradução do poema de Públio Élio Adriano feita por Jorge de Sena e publicada no volume Poesia de 26 Séculos (Edições Asa, 20o1).
Do corpo a moradora e companheira,
A que lugares tu te vais agora,
Tão pálida, tão rígida, tão nua?
Nem mais às graças te darás de outrora.
Públio Élio Adriano, Tradução de Jorge de Sena
A título de curiosidade, e em sequência do post anterior sobre o mesmo poema, aqui fica, seguindo uma indicação de Hugo Pinto Santos, a tradução do poema de Públio Élio Adriano feita por Jorge de Sena e publicada no volume Poesia de 26 Séculos (Edições Asa, 20o1).
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Ésquilo, Agamémnon, 958-974

Francis Bacon, Triptych inspired in the ‘Oresteia’ of Aeschylus
Tendo persuadido Agamémnon a entrar no palácio caminhando sobre tecidos de púrpura, uma honra reservada somente aos deuses, Clitemnestra declama os seguintes versos, enquanto seu marido desaparece no palácio para não mais voltar. O primeiro verso do passo é um dos mais famosos da tragédia (e de toda a tragédia grega). Yorgos Seferis retoma-o num poema que a Tatiana deixou aqui no blogue há alguns dias.
ΚΛ.
ἔστιν θάλασσα - τίς δέ νιν κατασβέσει; -
τρέφουσα πολλῆς πορφύρας ἰσάργυρον
κηκῖδα παγκαίνιστον, εἱμάτων βαφάς‧ 960
ἄκος δ᾽ὑπάρχει τῶνδε σὺν θεοῖς, ἄναξ,
ἔχειν‧ πένεσθαι δ᾽οὐκ ἐπίσταται δόμος.
πολλῶν πατησμὸν δ᾽εἱμάτων ἂν ηὐξάμην,
δόμοισι προυνεχθέντος ἐν χρηστηρίοις,
ψυχῆς κόμιστρα τῆσδε μηχανωμένη. 965
ῥίζης γὰρ οὔσης φυλλὰς ἵκετ᾽εἰς δόμους
σκιὰν ὑπερτείνασα Σειρίου Κυνός‧
καὶ σοῦ μολόντος δωματῖτιν ἑστίαν,
θάλπος μὲν ἐν χειμῶνι σημαίνεις μολών,
ὅταν δὲ τεύχηι Ζεὺς {τ᾽} ἀπ᾽ὄμφακος πικρᾶς 970
οἶνον, τότ᾽ἤδη ψῦχος ἐν δόμοις πέλει
ἀνδρὸς τελείου δῶμ᾽ἐπιστρωφωμένου.
Ζεῦ Ζεῦ τέλειε, τὰς ἐμὰς εὐχὰς τέλει‧
μέλοι δέ τοί σοι τῶνπερ ἂν μέλληις τελεῖν.
(Agamémnon começa a caminhar lentamente sobre os tecidos em direcção ao palácio)
Clitemnestra:
Há o mar - e quem o esgotará? -
que cria em abundância o suco da púrpura
valiosa como a prata, sempre renovável tintura para as vestes, 960
e um remédio para a perda dessas está, graças aos deuses, meu senhor,
aqui ao nosso dispor: a casa não conhece o que é ser pobre.
O pisar de muitas vestes teria eu prometido
se tal um oráculo houvesse decretado à casa,
quando procurava um meio de alcançar a vida deste homem. 965
Pois, havendo raiz, a folhagem vem até à casa
e estende a sua sombra contra o Cão Abrasador (1);
chegando tu à lareira do lar,
significas o calor que no Inverno chega,
mas quando Zeus a amarga uva por colher torna 970
vinho, então há frescura para a casa,
se um homem realizado (2) a casa ocupa.
(Agamémnon entra na casa. As criadas começam a retirar os tecidos do chão.)
Zeus, ó Zeus que tudo realizas, realiza também as minhas preces:
oxalá se realize o que tencionas realizar!
(Clitemnestra entra no palácio depois de as criadas concluírem a sua tarefa.)
(1) A estrela Sírio, normalmente chamada Canícula, cujo surgimento coincide com o período de maior calor no Verão.
(2) Tentativa insatisfatória de traduzir τελείου, termo que comporta uma perigosa ambiguidade: significa ao mesmo tempo “senhor da casa”, “homem no apogeu”, mas também “homem acabado”, “homem chegado ao fim”, “homem prestes a ser sacrificado” (o termo era usado tradicionalmente para vítimas de sacrifício), ou ainda “homem que paga a dívida”. Opto por esta tradução de forma a reproduzir em português a repetição nos versos seguintes da raiz tel-.
O texto grego é o da edição de M.L. West, Berlim/Nova Iorque, 2008.
ΚΛ.
ἔστιν θάλασσα - τίς δέ νιν κατασβέσει; -
τρέφουσα πολλῆς πορφύρας ἰσάργυρον
κηκῖδα παγκαίνιστον, εἱμάτων βαφάς‧ 960
ἄκος δ᾽ὑπάρχει τῶνδε σὺν θεοῖς, ἄναξ,
ἔχειν‧ πένεσθαι δ᾽οὐκ ἐπίσταται δόμος.
πολλῶν πατησμὸν δ᾽εἱμάτων ἂν ηὐξάμην,
δόμοισι προυνεχθέντος ἐν χρηστηρίοις,
ψυχῆς κόμιστρα τῆσδε μηχανωμένη. 965
ῥίζης γὰρ οὔσης φυλλὰς ἵκετ᾽εἰς δόμους
σκιὰν ὑπερτείνασα Σειρίου Κυνός‧
καὶ σοῦ μολόντος δωματῖτιν ἑστίαν,
θάλπος μὲν ἐν χειμῶνι σημαίνεις μολών,
ὅταν δὲ τεύχηι Ζεὺς {τ᾽} ἀπ᾽ὄμφακος πικρᾶς 970
οἶνον, τότ᾽ἤδη ψῦχος ἐν δόμοις πέλει
ἀνδρὸς τελείου δῶμ᾽ἐπιστρωφωμένου.
Ζεῦ Ζεῦ τέλειε, τὰς ἐμὰς εὐχὰς τέλει‧
μέλοι δέ τοί σοι τῶνπερ ἂν μέλληις τελεῖν.
(Agamémnon começa a caminhar lentamente sobre os tecidos em direcção ao palácio)
Clitemnestra:
Há o mar - e quem o esgotará? -
que cria em abundância o suco da púrpura
valiosa como a prata, sempre renovável tintura para as vestes, 960
e um remédio para a perda dessas está, graças aos deuses, meu senhor,
aqui ao nosso dispor: a casa não conhece o que é ser pobre.
O pisar de muitas vestes teria eu prometido
se tal um oráculo houvesse decretado à casa,
quando procurava um meio de alcançar a vida deste homem. 965
Pois, havendo raiz, a folhagem vem até à casa
e estende a sua sombra contra o Cão Abrasador (1);
chegando tu à lareira do lar,
significas o calor que no Inverno chega,
mas quando Zeus a amarga uva por colher torna 970
vinho, então há frescura para a casa,
se um homem realizado (2) a casa ocupa.
(Agamémnon entra na casa. As criadas começam a retirar os tecidos do chão.)
Zeus, ó Zeus que tudo realizas, realiza também as minhas preces:
oxalá se realize o que tencionas realizar!
(Clitemnestra entra no palácio depois de as criadas concluírem a sua tarefa.)
(1) A estrela Sírio, normalmente chamada Canícula, cujo surgimento coincide com o período de maior calor no Verão.
(2) Tentativa insatisfatória de traduzir τελείου, termo que comporta uma perigosa ambiguidade: significa ao mesmo tempo “senhor da casa”, “homem no apogeu”, mas também “homem acabado”, “homem chegado ao fim”, “homem prestes a ser sacrificado” (o termo era usado tradicionalmente para vítimas de sacrifício), ou ainda “homem que paga a dívida”. Opto por esta tradução de forma a reproduzir em português a repetição nos versos seguintes da raiz tel-.
O texto grego é o da edição de M.L. West, Berlim/Nova Iorque, 2008.
Animula vagula blandula
Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...
Ontem lembrei-me deste poema de Adriano, que também é citado numa cena do Satyricon de Fellini, pela personagem interpretada por Joseph Wheeler. Nesta cena filma-se uma espécie de projecção do suicídio de Petrónio dentro da obra de Fellini. Porém, a citação é um anacronismo: Petrónio no momento do seu suicídio jamais poderia ter citado Adriano porque Adriano só viria a existir quase um século depois.
É uma citação deprimente numa cena deprimente, mas que concede uma dignidade imensa à personagem e à cena, que se destacam por isso mesmo na economia narrativa da adaptação de Fellini. Trata-se de uma das cenas mais bonitas do filme.
Uma tradução do poema pode ser encontrada aqui, embora eu tenha algumas reservas em relação às opções do tradutor para o último verso.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Décimo sexto castelo de Holanda
Às vezes escrevo num caderno
pequenas frases. Coisas sem
nexo e sem nenhuma legitimidade
para um dia poderem dar lugar a
um verso. Escrevo-as de noite
a meio do sono e no dia seguinte
não sei que sentido lhes possa
atribuir. E o que quererão dizer
as que p'la madrugada de ontem
anotei?
«O chão seco da tua morte. O
duplo touro.
Cilindros de oiro. De quem era
a sala das sombras? Coisas de
vaidade, o meu relógio, o globo
onde lês as cidades do mundo.»
Às vezes deixo-me ficar sentado,
como agora estou a esta mesa no
quarto do hotel
e os sentidos prendem-se a essas
palavras que valem o que vale
uma viagem ao extremo da maior
melancolia da noite.
João Miguel Fernandes Jorge, O Barco Vazio, Colecção Forma, Editorial Presença, 1994
(Ontem comprei este livro na Livraria Bulhosa da esquina. Ainda não o estou a ler porque ler o Cambridge Companion to Philo of Alexandria não me permite acabar mais depressa o livro de Yorgos Seferis e porque tenho vontade de traduzir os poemas de Seferis para português página sim página sim. Não obstante, acho que gosto mesmo muito deste poeta, João Miguel Fernandes Jorge. Abri este livro, O barco vazio, na livraria, pensando: «Vou espreitar mas não vou comprar.» E abri a meio, comecei a ler um poema curto e pensei: «Que se lixe, tu vens comigo p'ra casa.»)
pequenas frases. Coisas sem
nexo e sem nenhuma legitimidade
para um dia poderem dar lugar a
um verso. Escrevo-as de noite
a meio do sono e no dia seguinte
não sei que sentido lhes possa
atribuir. E o que quererão dizer
as que p'la madrugada de ontem
anotei?
«O chão seco da tua morte. O
duplo touro.
Cilindros de oiro. De quem era
a sala das sombras? Coisas de
vaidade, o meu relógio, o globo
onde lês as cidades do mundo.»
Às vezes deixo-me ficar sentado,
como agora estou a esta mesa no
quarto do hotel
e os sentidos prendem-se a essas
palavras que valem o que vale
uma viagem ao extremo da maior
melancolia da noite.
João Miguel Fernandes Jorge, O Barco Vazio, Colecção Forma, Editorial Presença, 1994
(Ontem comprei este livro na Livraria Bulhosa da esquina. Ainda não o estou a ler porque ler o Cambridge Companion to Philo of Alexandria não me permite acabar mais depressa o livro de Yorgos Seferis e porque tenho vontade de traduzir os poemas de Seferis para português página sim página sim. Não obstante, acho que gosto mesmo muito deste poeta, João Miguel Fernandes Jorge. Abri este livro, O barco vazio, na livraria, pensando: «Vou espreitar mas não vou comprar.» E abri a meio, comecei a ler um poema curto e pensei: «Que se lixe, tu vens comigo p'ra casa.»)
Aparência e aparição
E perguntou-lhe o rapaz
«se eu te der um beijo
dás-me um colar de pérolas?»
E o velho respondeu-lhe
«há que caminhar
sonhando»
Qualquer coisa que fala ainda
quando já tudo é silêncio.
João Miguel Fernandes Jorge, O Barco Vazio, Colecção Forma, Editorial Presença, 1994
«se eu te der um beijo
dás-me um colar de pérolas?»
E o velho respondeu-lhe
«há que caminhar
sonhando»
Qualquer coisa que fala ainda
quando já tudo é silêncio.
João Miguel Fernandes Jorge, O Barco Vazio, Colecção Forma, Editorial Presença, 1994
Uma livraria nova (a abrir até Março de 2010). Resta-nos desejar a melhor sorte (e fazer uma visita, levando connosco amigos que se interessem por História Natural).
Carmen V
Vivamus, mea Lesbia, atque amemus
Rumoresque senum severiorum
Omnes unius aestimemus assis.
Soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut nequis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.
Rumoresque senum severiorum
Omnes unius aestimemus assis.
Soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut nequis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.
A vida devia ser assim. Devia ser como os primeiros versos deste poema (dispensando o mea Lesbia), guardar a urgência de viver que estas palavras nomeiam. (Tradução aqui, que é cedo e eu não estou com paciência de ir à procura da minha.)
Poema da autoria de Catulo (ca. 84 - 54 a.C.), autor latino oriundo de Verona (cidadezinha na província da Gália Cisalpina), «who lived many and travelled some and died also very young».
Poema da autoria de Catulo (ca. 84 - 54 a.C.), autor latino oriundo de Verona (cidadezinha na província da Gália Cisalpina), «who lived many and travelled some and died also very young».
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Quinta-feira
Vi-a morrer muitas vezes
por vezes chorando nos meus braços
outras vezes nos braços de um estranho
por vezes só, despida;
era assim que vivia perto de mim.
Agora sei finalmente que não há nada além
e espero.
O meu arrependimento pertence-me
tanto quanto me pertencem sentimentos tão simples
que, dizem, um homem está para além deles:
e contudo arrependo-me
porque também eu não me tornei (como quis)
semelhante à erva que escutei crescer
próximo de um pinheiro em certa noite;
porque em outra noite não segui o mar
quando as águas recuaram
e suavemente beberam a sua própria amargura,
e não compreendi sequer, à medida que humedecia
sob os meus dedos a erva marinha,
quanta honra pode restar nas mãos de um homem.
Tudo isto passou lentamente, conclusivamente,
como barcos cujos nomes se esbatem:
HELENA DE ESPARTA; TYRANNUS; GLORIA MUNDI
passaram sob pontes para lá das chaminés
com dois homens em tronco nu
inclinando-se à proa e à popa;
passaram, não consigo distinguir nada no nevoeiro matinal
as ovelhas, encaracoladas, ruminando, quase não se vêem
nem a lua se destaca sobre
o rio expectante;
sete lanças mergulharam na água
estagnadas, isentas de sangue
e às vezes na calçada, iluminada em mágoa
sob um castelo oblíquo,
desenhado a lápis vermelho e amarelo:
o Nazareno, exibindo a ferida.
«Não lances aos cães o teu coração.
Não lances aos cães o teu coração.»
A voz dela afunda-se à medida que o relógio marca a hora
a tua vontade, eu procurei a tua vontade.
(mais ou menos) Yorgos Seferis
Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
por vezes chorando nos meus braços
outras vezes nos braços de um estranho
por vezes só, despida;
era assim que vivia perto de mim.
Agora sei finalmente que não há nada além
e espero.
O meu arrependimento pertence-me
tanto quanto me pertencem sentimentos tão simples
que, dizem, um homem está para além deles:
e contudo arrependo-me
porque também eu não me tornei (como quis)
semelhante à erva que escutei crescer
próximo de um pinheiro em certa noite;
porque em outra noite não segui o mar
quando as águas recuaram
e suavemente beberam a sua própria amargura,
e não compreendi sequer, à medida que humedecia
sob os meus dedos a erva marinha,
quanta honra pode restar nas mãos de um homem.
Tudo isto passou lentamente, conclusivamente,
como barcos cujos nomes se esbatem:
HELENA DE ESPARTA; TYRANNUS; GLORIA MUNDI
passaram sob pontes para lá das chaminés
com dois homens em tronco nu
inclinando-se à proa e à popa;
passaram, não consigo distinguir nada no nevoeiro matinal
as ovelhas, encaracoladas, ruminando, quase não se vêem
nem a lua se destaca sobre
o rio expectante;
sete lanças mergulharam na água
estagnadas, isentas de sangue
e às vezes na calçada, iluminada em mágoa
sob um castelo oblíquo,
desenhado a lápis vermelho e amarelo:
o Nazareno, exibindo a ferida.
«Não lances aos cães o teu coração.
Não lances aos cães o teu coração.»
A voz dela afunda-se à medida que o relógio marca a hora
a tua vontade, eu procurei a tua vontade.
(mais ou menos) Yorgos Seferis
Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
Sem assombro
Dois ou três escritores que admiro pela imaginação: Ovídio em as Metamorfoses. Um livro que são histórias sobre histórias sobre histórias, como se a arte de contar se pudesse multiplicar até ao infinito.
Ariosto em Orlando Furioso, pelo número alucinante de personagens, de situações, por as ter inscrito a todas na medida do verso, a ponto de o seu mecenas, Hipólito d' Este, lhe ter perguntado onde desencatara ele tanto disparate junto.
Há depois grandes escritores, dos quais se diz que podem pegar numa história bastante comum e depois a grande força que nos deixa maravilhados é o seu estilo de contar, espécie de ars dicendi. Tolstói em Anna Karénina, é um exemplo que se gosta de citar. Porém, acho que é preciso muita imaginação para atingir um estilo excelente.
E o voo de imaginação que considero ser o mais impressionante de todos: o impulso que fez com que Dostoiévsky, preso na fortaleza de Pedro e Paulo, descrevesse imóvel, confinado numa pequena cela, o galope desenfreado de um corcel que apenas a esperança sem assombro de um rapazinho pôde domar (O Pequeno Herói).
Ariosto em Orlando Furioso, pelo número alucinante de personagens, de situações, por as ter inscrito a todas na medida do verso, a ponto de o seu mecenas, Hipólito d' Este, lhe ter perguntado onde desencatara ele tanto disparate junto.
Há depois grandes escritores, dos quais se diz que podem pegar numa história bastante comum e depois a grande força que nos deixa maravilhados é o seu estilo de contar, espécie de ars dicendi. Tolstói em Anna Karénina, é um exemplo que se gosta de citar. Porém, acho que é preciso muita imaginação para atingir um estilo excelente.
E o voo de imaginação que considero ser o mais impressionante de todos: o impulso que fez com que Dostoiévsky, preso na fortaleza de Pedro e Paulo, descrevesse imóvel, confinado numa pequena cela, o galope desenfreado de um corcel que apenas a esperança sem assombro de um rapazinho pôde domar (O Pequeno Herói).
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
parece pelo melhor a chuva
desabando sobre a tua cabeça
o corpo tecido a partir da noite
saber a precisão de cerrar as mãos
bater contra o muro
bater até sangrar
uma raiva pesada cega inabalável
acerada como um punhal
uma raiva de dentes cerrados
sem assombro sem sofrimento
toda fechada sobre o mais ténue
movimento de cada músculo
uma raiva sem medo sem tristeza
para fender o escuro
repetindo a rapidez da seta
tornando a abrir
a mão contida
estacando
o mergulho na ponta do cais
antes do sangue
incandescendo na primeira palavra
uma raiva como a de Ulisses
na corda o arco
dobrado como o corpo
inclinado por sobre os braços
em esforço
o silvo da seta repetindo
cada recesso da memória
iluminando com um grito limpo
a casa crescida a partir da cinza
desabando sobre a tua cabeça
o corpo tecido a partir da noite
saber a precisão de cerrar as mãos
bater contra o muro
bater até sangrar
uma raiva pesada cega inabalável
acerada como um punhal
uma raiva de dentes cerrados
sem assombro sem sofrimento
toda fechada sobre o mais ténue
movimento de cada músculo
uma raiva sem medo sem tristeza
para fender o escuro
repetindo a rapidez da seta
tornando a abrir
a mão contida
estacando
o mergulho na ponta do cais
antes do sangue
incandescendo na primeira palavra
uma raiva como a de Ulisses
na corda o arco
dobrado como o corpo
inclinado por sobre os braços
em esforço
o silvo da seta repetindo
cada recesso da memória
iluminando com um grito limpo
a casa crescida a partir da cinza
The Last Disco (3)
Sempre achei que é mais difícil ser-se um bom fotógrafo do que um bom pintor. Acho mais complicado transfigurar a realidade com a realidade do que com a imaginação.
domingo, 6 de dezembro de 2009
III. Tudo É Efémero
Esquecemos a nossa disputa heróica com as Euménides
adormecemos, elas julgaram-nos mortos e partiram
gritando
"Yiou! Yiou! Pououou...pax!"*
entoando uma maldição contra os deuses que nos protegem.
(mais ou menos) Yorgos Seferis
Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
*Alusão a Ésquilo, Euménides, 143. Trata-se dos gritos lançados pelas Fúrias depois de terem sido acordadas pelo fantasma de Clitemenestra e incitadas para que continuassem a perseguição a Orestes.
adormecemos, elas julgaram-nos mortos e partiram
gritando
"Yiou! Yiou! Pououou...pax!"*
entoando uma maldição contra os deuses que nos protegem.
(mais ou menos) Yorgos Seferis
Versão minha a partir de Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
*Alusão a Ésquilo, Euménides, 143. Trata-se dos gritos lançados pelas Fúrias depois de terem sido acordadas pelo fantasma de Clitemenestra e incitadas para que continuassem a perseguição a Orestes.
In cold blindness, those were my boldest spots, my blind spots, my tenderness towards sympathetic feelings. Graving out beside sweetening hearts, we let our soldiers' feet go away cold, our sweet boys, our birdless joy, and, therefore, our guilty, tender, all-embracing, silence. We burn the boots by the hearth of our houses. Our hands must not get cold. We need a proper box where to guard our most personal grief. Or, at least, a dust-free ash-tray.
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