Camões dirige-se aos seus contemporâneos
Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena, Metamorfoses, 1963
(Boa noite Marco apaga a luz)
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quarta-feira, 29 de junho de 2011
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Fingimento
Se o «fingimento» é, sem dúvida, a mais alta forma de educação, de libertação e esclarecimento do espírito enquanto educador de si próprio e dos outros, o «testemunho» é, na sua expectação, na sua discrição, na sua vigilância, a mais alta forma de transformação do mundo, porque nele, com ele e através dele, que é antes de mais linguagem, se processa a remodelação dos esquemas feitos, das ideias aceites, dos hábitos sociais inconscientemente vividos, dos sentimentos convencionalmente aferidos. Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo, recusando ao mesmo tempo as disciplinas em que outros serão mais eficientes, os convívios em que alguns serão mais pródigos, ou isolamento de que muitos serão mais ciosos – eis o que foi, e é, para mim, a poesia.
Jorge de Sena in «Prefácio», Poesia - I, Moraes Editores, 1977 (segunda edição).
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Lisboa, 1971
O chauffer de taxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto "calçar" uma
das que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com surda raiva e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
de Paracleto, bolsas da Gulbenkian.
Mas o chauffer de taxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
"...V. que nesse tempo ainda andava em fuga
de colhão para colhão do seu pai,
para ver se escapava a ser filho da puta..."
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam - e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.
Jorge de Sena, Exorcismos, 1972
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto "calçar" uma
das que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com surda raiva e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
de Paracleto, bolsas da Gulbenkian.
Mas o chauffer de taxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
"...V. que nesse tempo ainda andava em fuga
de colhão para colhão do seu pai,
para ver se escapava a ser filho da puta..."
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam - e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.
Jorge de Sena, Exorcismos, 1972
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Pecado
Não eram tentações estas coisas, não, mas consolações piedosas da sua alma, a satisfação do que lhe fugira, a plenitude do que não tivera, a saciedade do que não bastara, a conquista do que jamais pudera ter sido seu. Pecado é sonhar com o futuro: desejar a mulher que se viu neste instante, querer com fúria o que é dado a outros, invejar furiosamente, como coisa que nos foi roubada, a felicidade alheia que está dançando, sem vergonha, diante dos nossos olhos que param a vê-la.
Jorge de Sena, «Super flumina Babylonis», A Arte de Jorge de Sena: Uma Antologia, Jorge Fazenda Lourenço (ed.), Relógio d'Água, 2004
Erros meus
Erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se conjuraram, os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava amor somente. Perdição. Amor somente. Como a poesia é falsa e verdadeira. Como ela diz não dizendo, e é não dizendo que diz. Como da nossa alma não sabemos nada antes de escrevê-la, e como não é dela que sabemos depois de ter escrito. A perdição procura-se, como um homem se despe para se banhar no mar, a modos que Leandro atravessando o Helesponto. E o amor somente bastaria, como o momento em que tudo se esquece, tudo desaparece, tudo se evapora, ao calor que abrasa e que só dura um instante mas um instante em que o tempo se suspende, se petrifica num espaço e numa forma, e todo o verdadeiro espaço foge velozmente, correndo pelos tempos fora até que é ele o tempo que se suspendeu. Apenas como isso, porque é uma imagem do supremo amor, aquele que existe além do tempo e do espaço, além das esferas, além daquele poço terrível.
Jorge de Sena, «Super flumina Babylonis», A Arte de Jorge de Sena: Uma Antologia, Jorge Fazenda Lourenço (ed.), Relógio d'Água, 2004.
Jorge de Sena, «Super flumina Babylonis», A Arte de Jorge de Sena: Uma Antologia, Jorge Fazenda Lourenço (ed.), Relógio d'Água, 2004.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Animula Vagula Blandula
Alminha, vagabundo, blandiciosa,
Do corpo a moradora e companheira,
A que lugares tu te vais agora,
Tão pálida, tão rígida, tão nua?
Nem mais às graças te darás de outrora.
Públio Élio Adriano, Tradução de Jorge de Sena
A título de curiosidade, e em sequência do post anterior sobre o mesmo poema, aqui fica, seguindo uma indicação de Hugo Pinto Santos, a tradução do poema de Públio Élio Adriano feita por Jorge de Sena e publicada no volume Poesia de 26 Séculos (Edições Asa, 20o1).
Do corpo a moradora e companheira,
A que lugares tu te vais agora,
Tão pálida, tão rígida, tão nua?
Nem mais às graças te darás de outrora.
Públio Élio Adriano, Tradução de Jorge de Sena
A título de curiosidade, e em sequência do post anterior sobre o mesmo poema, aqui fica, seguindo uma indicação de Hugo Pinto Santos, a tradução do poema de Públio Élio Adriano feita por Jorge de Sena e publicada no volume Poesia de 26 Séculos (Edições Asa, 20o1).
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
A propósito do regresso de Jorge de Sena:«Sinais de Fogo»
Um vídeo sobre Sinais de Fogo e Jorge de Sena. Com o tempo, tenha tendência a pensar que este livro e o seu autor (para alguns o melhor romance da segunda metade do século XX português) são os dois a mesma coisa, que se confundem.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Medalha de Honra da SPA para Jorge de Sena
A Sociedade Portuguesa de Autores, na qual Jorge de Sena se inscreveu em 1958 e da qual se tornou colaborador em 1978, resolveu atribuir a Medalha de Honra, a título póstumo, claro está, a Jorge de Sena.
De acordo com o Público: A SPA considera que "o regresso definitivo de Jorge de Sena a Portugal encerra um longo ciclo de desencontro e afastamento que tão profundamente marcou a sua vida e a sua obra, deixando também marcas profundas na cultura portuguesa do século XX".
Creio que o facto de o corpo do escritor estar prestes a ser trasladado (primeira quinzena de Setembro) para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa, levou a SPA a recordar-se da sua existência e da sua importância na cultura e literatura portuguesas. Como disse um professor meu, possivelmente o escritor que mais vai influenciar esta nova geração que começa agora a escrever. Mais vale tarde que nunca. No caso de Jorge de Sena, parece que é sempre um pouco mais tarde.
De acordo com o Público: A SPA considera que "o regresso definitivo de Jorge de Sena a Portugal encerra um longo ciclo de desencontro e afastamento que tão profundamente marcou a sua vida e a sua obra, deixando também marcas profundas na cultura portuguesa do século XX".
Creio que o facto de o corpo do escritor estar prestes a ser trasladado (primeira quinzena de Setembro) para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa, levou a SPA a recordar-se da sua existência e da sua importância na cultura e literatura portuguesas. Como disse um professor meu, possivelmente o escritor que mais vai influenciar esta nova geração que começa agora a escrever. Mais vale tarde que nunca. No caso de Jorge de Sena, parece que é sempre um pouco mais tarde.
domingo, 26 de julho de 2009
Sobre esta praia I
Sobre esta praia me inclino.
.................................................Praias sei:
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridão de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
............................................Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhe consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.
Jorge de Sena, De Sobre esta praia...Oito Meditações à beira do Pacífico, 1977, in Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Séc. XX, Osvaldo Silvestre e Pedro Serra (org.), Livros Cotovia e Angelus Novus, 2002.
.................................................Praias sei:
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridão de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
............................................Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhe consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.
Jorge de Sena, De Sobre esta praia...Oito Meditações à beira do Pacífico, 1977, in Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Séc. XX, Osvaldo Silvestre e Pedro Serra (org.), Livros Cotovia e Angelus Novus, 2002.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Epígrafe para a arte de furtar
Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?
roubam-me a pátria;
e a Humanidade
outras ma roubam
- quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!
Jorge de Sena, Fidelidade, 1958.
outros o Diabo
- quem cantarei?
roubam-me a pátria;
e a Humanidade
outras ma roubam
- quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!
Jorge de Sena, Fidelidade, 1958.
A Arte de Furtar, a partir da qual Jorge de Sena escreveu esta «Epígrafe», é uma obra actualmente atribuída ao jesuíta Manuel da Costa, o título é algo irónico, uma vez que, em traços muito gerais, é uma obra sobre política, e inscreve a obra na tradição de obras didácticas que foram publicadas em Portugal no séc. XVII. Em relação ao poema de Jorge de Sena, é sobre ser roubado, temática que surge em vários outros passos da poética de Jorge de Sena (veja-se por exemplo o poema «Camões dirige-se aos seus contemporâneos»), e liga-se à íntima revolta que Sena sentia por nunca lhe ter sido reconhecido o devido espaço e importância que realmente merecia ocupar enquanto escritor entre os seus contemporâneos.
Ainda sobre furtar, sendo este blogue, em primeiro lugar, um espaço de partilha e divulgação de e sobre literatura, não nos importamos de ver algumas das coisas de que por aqui se fala e textos ou partes de textos que aqui se transcrevem em copy paste noutros blogues, pelo contrário, uma vez que se trata de um indício de que o que aqui escrevemos entusiasma os nossos leitores e tem afinidades com o que eles próprios pensam e gostam de ler. No meu caso particular creio, contudo (uma vez que trabalhar cansa e nós tiramos um pouco do nosso pouco tempo livre para alimentar este blogue), que é justo que por isso nos seja dado o devido crédito.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
A minha imagem mental de escritor é a de Jorge de Sena, ainda menino, cabeça encostada contra as teclas do piano, com o seu papagaio verde ao lado e tocando devagar as teclas. A minha imagem mental de poeta é a descrição que Jorge de Sena faz do momento em que pela primeira vez escutou a La Cathédral Engloutie de Débussy ou a primeira aparição do poema como narrada em Sinais de Fogo.
Post-Scriptum
Não sou daqueles cujos ossos se guardam,
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.
Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiados quando me amem outros.
Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.
Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira e pouco traída.
Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.
Só muito a medo, horas mortas, me lerá,
de todos e de si disfarçando,
curioso, aquel' que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarça da vida.
Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.
Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiados quando me amem outros.
Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.
Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira e pouco traída.
Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.
Só muito a medo, horas mortas, me lerá,
de todos e de si disfarçando,
curioso, aquel' que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarça da vida.
Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.
Fidelidade
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só comigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só comigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena, A Arte de Jorge de Sena, 2004.
II
Sometimes beauty
craks
you can see the body
it cracks
you can see the parts
that you'd like to make love
to and with
they crack in heat
and after
sometimes you dream
of beauty before.
Às vezes beleza
estala
pode ver-se o corpo
estala
podem ver-se as partes
que se gostaria de fazer amor
a e com
estalam no ardor
e depois
às vezes sonha-se
da beleza, antes.
Jorge de Sena, Poesia III, 1989.
craks
you can see the body
it cracks
you can see the parts
that you'd like to make love
to and with
they crack in heat
and after
sometimes you dream
of beauty before.
Às vezes beleza
estala
pode ver-se o corpo
estala
podem ver-se as partes
que se gostaria de fazer amor
a e com
estalam no ardor
e depois
às vezes sonha-se
da beleza, antes.
Jorge de Sena, Poesia III, 1989.
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