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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Catulo (os poemas da Ítaca 1)


Dando continuidade à campanha catuliana, brilhantemente lançada aqui, e que culminará com a publicação dos Carmina na Cotovia (está para breve, está para breve), recuperamos a tradução de seis poemas inicialmente publicada na Ítaca 1 (Março de 2010).

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O primeiro Catulo não censurado em português

Está quase quase a sair a tradução dos Carmina de Catulo por J.P. Moreira e André Simões. A Cotovia publicou hoje os primeiros versos no seu blogue. É um livro a não perder: um poeta excelente (imaginai um James Dean poeta perdido algures na Roma da Antiguidade e tereis uma imagem próxima de quem era Catulo) e uma tradução irrepreensível.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ítaca 3: Um Poema

III Aquiles e a Tartaruga
NATHANIEL FISCHER: How’s life?
CLAIRE FISCHER: How’s death?
NATHANIEL FISCHER: It’s good. Made some new friends, joined the
chess team.

Six Feet Under 3:13

para Victor Gonçalves


farto da aporia dos cem metros filosóficos Aquiles
desafiou a tartaruga
para uma partida de ténis

a princípio os pés velozes de Aquiles
a torrente irrefreável do seu amor
e um jogo eficaz de serviço-rede
pareciam ensinar a prevalência da paixão
sobre a paciência a meio
do primeiro set por pouco um smash
não decapitou a tartaruga

discípula de Platão Montaigne Nietzsche Derrida
companheira de copos de um grupo de filósofos paisagistas
e exegeta de David Lynch nas horas vagas
a tartaruga seguiu fielmente
a estratégia previamente definida
controlando o ritmo da respiração
decompunha o tempo em subtis fatias de presente
presente-quase-passado e presente-quase-futuro
uma sucessão simultânea de imagens
achando assim o kairos o momento exacto
em que a raquete deve encontrar bola

aplaudia as virtudes do adversário
enquanto desenhava o mapa dos seus vícios
das suas próprias virtudes cultivava somente
as que fossem suas aliadas na guerra
contra os seus vícios

assim
no final do sétimo set
jogavam à melhor de vinte e cinco
a tartaruga ultrapassou Aquiles

a partir daqui
o coração de Aquiles começa a rodopiar
cada vez mais rápido num maelstrom de desespero
sucedem-se erros não forçados duplas faltas
os pequenos descuidos que
como comprovam as leis do ténis
inutilizam toda a beleza

a partida terminou
quando Aquiles desfez a raquete contra o solo
isto valeu-lhe a desqualificação
e o ressentimento dos deuses

por isso
viu-se forçado a desposar Hebe
a solteirona do Olimpo
e a suportar nos Campos Elísios uma vida conjugal
para a qual não tinha qualquer vocação
a embriaguez as lágrimas os exercícios de lira
a que se entregou não lhe ofereciam consolo
só ensombravam ainda mais a sua sombra
nem as visitas ocasionais o animavam
no céu a noite não divide os dias
as almas não dormem
insones vagueiam de prazer em prazer
atormentados pela dúvida
se sonham ou não

foi num estado de profunda prostração
que a tartaruga achou Aquiles
alegrou-o o reencontro
recordaram os bons velhos tempos
Aquiles fez-lhe uma visita guiada
aos acomodamentos eternos
quando terminou fitou-a sombriamente
isto não é vida para ninguém

começou assim
um novo período das suas mortes
dedicaram-se ao xadrez
a tartaruga ganhava sempre
a princípio Aquiles encolerizava-se
arremessava as peças esculpidas em corno inquebrável
com o tempo descobriu os prazeres da indiferença
o seu jogo melhorou consideravelmente
mas nem por isso deixou de perder

quando querem descansar do xadrez
a que se entregam meses a fio sem interrupção
Aquiles e a tartaruga peripatetizam
discorrem sobre o sentido da morte
sobre a possibilidade do suicídio da alma
e acabam sempre por voltar ao xadrez

J.P. Moreira

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Catulo LXVII: à conversa com uma porta

Catulo:
ó tu que és estimada pelo doce marido, estimada pelos pais,
salve, e que prosperes nas boas graças de Júpiter,
ó porta, de ti dizem que prestaste bons serviços a Balbo
outrora, quando o velhote aqui vivia,
mas, conta-se, que, pelo contrário, tens servido mal o filho, 5
desde que o velho esticou o pernil e te fizeram casar1.
diz-nos por que se conta que mudaste
e abandonaste a antiga fidelidade ao teu senhor.

Porta:
não é (assim agrade a Cecílio, a quem agora pertenço)
culpa minha, embora se diga que é minha, 10
nem ninguém pode falar de nenhuma falta da minha parte,
mas esta gente é assim, é a porta que faz tudo,
sempre que se acha qualquer coisa que não está bem
todos me dizem «porta, a culpa é tua!»

Catulo:
não basta dizer isso numa única palavra, 15
é preciso fazer com que se sinta e veja.

Porta:
e como? ninguém pergunta ou faz por saber!

Catulo:
nós queremos saber: não hesites em contar-nos.

Porta:
então, para começar, que ela tenha sido trazida virgem até nós
é falso. o seu anterior marido não lhe tinha tocado, 20
a sua adagazinha pendia mais lânguida do que uma tenra beterraba
e nunca se levantou até meio da túnica;
mas o pai violou o leito do filho,
assim se conta, e desonrou a pobre casa,
talvez porque a sua mente ímpia ardia com um amor cego, 25
ou porque o filho era de semente estéril e impotente,
e num lado ou noutro se tivesse de arranjar com mais nervo
aquilo que serve para desatar o cinto virginal.

Catulo:
é um pai extraordinariamente dedicado o que descreves,
que até molha o colo do filho!2 30

Porta:
e, no entanto, não só disto diz ter conhecimento
Bríxia3, situada sob o miradouro de Cicno,
que o loiro Mela4 atravessa com sua branda corrente,
Bríxia, mãe amada da minha Verona,
mas fala também de Postúmio e do amor de Cornélio, 35
com os quais ela cometeu vergonhoso adultério.
aqui alguém dirá: «como ficaste tu a saber destas coisas, porta,
a quem não é permitido nunca abandonar a soleira do teu senhor,
nem escutar o povo, mas, presa a este lintel,
não fazes mais nada senão abrir e fechar a casa?» 40
muitas vezes a ouvi contar, em voz baixa,
sozinha com as criadas, estes seus crimes,
dizendo os nomes que dissemos, porque achava
que eu não tinha língua nem ouvidos.
para além destes acrescentou mais um que eu prefiro 45
não nomear, para que não franza as sobrancelhas vermelhas.
é um tipo alto, que teve outrora problemas
por causa da falsa gravidez de um ventre fictício5.

Notas:
1. I.e., desde que a casa se tornou dos recém-casados, do filho de Balbo e da sua mulher.
2. Eufemismo para «que até se vem no colo que pertence ao filho!»
3. A actual cidade de Bréscia.
4. Rio que corre junto a Bréscia.
5. Aparentemente o indivíduo visado teria, para receber uma herança que estipulava que o beneficiário deveria ter filhos naturais, obrigado a mulher a simular gravidez e, ao mesmo tempo, adoptado uma criança, que faria depois passar por sua. O engano foi descoberto e o sujeito teve de responder em tribunal.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Catulo LI

LI
ele parece-me semelhante a um deus,
ele, se tal é lícito, parece-me superar os deuses,
esse que se senta perante ti e que continuamente
contempla e escuta

teu doce riso, que ao pobre de mim 5
arrebata todos os sentidos: pois no momento,
Lésbia, em que te olho, nada resta


mas a língua fica dormente, cortante pelos membros
uma chama desce, com um som interno 10
zunem os ouvidos, toldam-se as gémeas
vistas de noite.

o ócio, Catulo, é-te prejudicial:
por causa do ócio exultas e em demasia te excitas.
o ócio foi que primeiro reis e prósperas 15
cidades perdeu.

Notas:
O poema é uma «adaptação» latina do fr. 31 Lobel-Page de Safo.
Alguns críticos entendem que a estrofe final não pertence a este poema.
A edição seguida foi a de Thomson: D.F.S. Thomson, Catullus, University of Toronto Press, Toronto, 1997.

domingo, 1 de agosto de 2010

Catulo XXVIII

XXVIII
companheiros de viagem de Pisão, comitiva sem um tostão,
que trazeis uma bagagenzinha bem leve de se carregar,
ó excelente Verânio e tu, meu Fabulo,
como andam vocês? acaso aquele
panhonha vos fez passar muito frio e fome? 5
nas vossas tabuinhas vê-se no lugar do ganhozito
algum encargo, como me sucedeu, que ao seguir o meu
pretor registei mais despesa do que lucro?
ó Mémio, bem me fodeste tu a teu bel-prazer,
com o pau todo como e durante o tempo que quiseste! 10
mas, tanto quanto vejo, tiveste igual
sorte: pois com um caralho não menor
levas agora. procura o auxílio de amigos de bem!
mas que a vós muitos males os deuses e deusas
dêem, vergonha de Rómulo e Remo! 15

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

deus arde lentamente a cada prece
ele ama cada manhã logo devemos ser
e evoluir um pouco mais nesta arte de ser
sem fim mesmo para lá dos patíbulos da miséria
sem que nos ocupemos dos nossos erros
demasiado erráticos para que os contemos
continuar prosseguir descer sossegadamente
ou ficar por cá um pouco mais
até que a noite nos incendeie no seu berço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Párodo das Coéforas



Orestes e Pílades afastam-se. O coro de mulheres aproxima-se do túmulo de Agamémnon.


Coro:›
(cantando e dançando)
Estr.1
Enviada pela casa eu vim
em procissão trazer libações enquanto a mão rápida feria o corpo:
eis na minha face os arranhões ensanguentados,
..........[sulcos recém talhados pelas minhas unhas 25
(por toda a minha vida se tem alimentado de lamentos o coração),
rasgões destruíram o linho,
dilaceraram ruidosamente os belos tecidos com as dores,
e as dobras das minhas vestes sobre o peito — golpeadas 30
por desgraças sem risos!

Ant.1
Claro, fazendo eriçar os cabelos da casa,
um sonho profético, soprando rancor em vez de sono,
um fundo grito de medo arrancou
..........[do interior da noite nos recessos do palácio, 35
caindo pesado no aposento das mulheres,
e os intérpretes de sonhos
anunciaram, com uma certeza vinda dos deuses,
que os que jazem sob a terra estavam gravemente ofendidos 40
e encolerizados contra os seus assassinos.

Estr.2
Tal é o favor desfavorável para afastar os males —
iô Terra Mãe! — que ela procura ao enviar-me, 45
..........essa mulher ímpia! Mas eu temo deixar cair essas palavras.
Pois que expiação pode haver uma vez derramado o sangue no chão?
Iô, este lar é todo ele desgraça,
iô, a ruína desta casa! 50
Impenetráveis ao sol, odiosas aos homens,
as trevas cobriram a casa
com a morte do senhor.

Ant.2
Outrora inelutável, inconquistável, invencível, o venerável respeito 55
invadia os ouvidos e o coração do povo
..........mas agora anda longe, e há quem tema. A prosperidade
é um deus e mais do que um deus entre os mortais; 60
mas observa-os a Justiça e o prato da balança
de imediato faz pender sobre alguns à luz do dia,
outros na fronteira da escuridão
por longo tempo prosperam {em dores},
a outros alcança-os a noite sem fim. 65

Estr.3
O sangue, quando bebido pela Terra que o nutriu,
coagula-se em vingadora matança, sem se dissolver:
uma inesgotável ruína
..........atormenta o culpado,
..........‹bem como› a enfermidade de infinitos recursos. {Aos que prosperam
alcança-os a noite sem fim.} 70

Ant. 3
Para o que profanou as câmaras nupciais não
há cura, e ainda que todas correntes a um único curso
..........afluíssem para lavar as mãos sujas
..........de um homicídio, correriam em vão.

Epod.
Quanto a mim — pois os deuses impuseram 75
a necessidade sitiadora de cidades, e da casa paterna
trouxeram-me para um destino de escravidão —
justo ou injusto que seja, devo aceitar
o domínio sobre a minha vida em violência ao meu coração
e reprimir este ódio amargo; 80
mas eu choro sob as minhas vestes
pela sorte sem sentido dos meus senhores,
arrepiada com o pranto clandestino.

——————————————

Cá fica um primeiro esboço da minha tradução do párodo (canto que acompanha a entrada do Coro na orquestra, um vasto recinto circular diante do palco) das Coéforas, a segunda tragédia da Oresteia de Ésquilo. A edição usada é a de M.L. West, Teubner, Estugarda, 1991.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ésquilo, Agamémnon, 958-974


Francis Bacon, Triptych inspired in the ‘Oresteia’ of Aeschylus


Tendo persuadido Agamémnon a entrar no palácio caminhando sobre tecidos de púrpura, uma honra reservada somente aos deuses, Clitemnestra declama os seguintes versos, enquanto seu marido desaparece no palácio para não mais voltar. O primeiro verso do passo é um dos mais famosos da tragédia (e de toda a tragédia grega). Yorgos Seferis retoma-o num poema que a Tatiana deixou aqui no blogue há alguns dias.

ΚΛ.
ἔστιν θάλασσα - τίς δέ νιν κατασβέσει; -
τρέφουσα πολλῆς πορφύρας ἰσάργυρον
κηκῖδα παγκαίνιστον, εἱμάτων βαφάς‧ 960
ἄκος δ᾽ὑπάρχει τῶνδε σὺν θεοῖς, ἄναξ,
ἔχειν‧ πένεσθαι δ᾽οὐκ ἐπίσταται δόμος.
πολλῶν πατησμὸν δ᾽εἱμάτων ἂν ηὐξάμην,
δόμοισι προυνεχθέντος ἐν χρηστηρίοις,
ψυχῆς κόμιστρα τῆσδε μηχανωμένη. 965
ῥίζης γὰρ οὔσης φυλλὰς ἵκετ᾽εἰς δόμους
σκιὰν ὑπερτείνασα Σειρίου Κυνός‧
καὶ σοῦ μολόντος δωματῖτιν ἑστίαν,
θάλπος μὲν ἐν χειμῶνι σημαίνεις μολών,
ὅταν δὲ τεύχηι Ζεὺς {τ᾽} ἀπ᾽ὄμφακος πικρᾶς 970
οἶνον, τότ᾽ἤδη ψῦχος ἐν δόμοις πέλει
ἀνδρὸς τελείου δῶμ᾽ἐπιστρωφωμένου.
Ζεῦ Ζεῦ τέλειε, τὰς ἐμὰς εὐχὰς τέλει‧
μέλοι δέ τοί σοι τῶνπερ ἂν μέλληις τελεῖν.


(Agamémnon começa a caminhar lentamente sobre os tecidos em direcção ao palácio)

Clitemnestra:
Há o mar - e quem o esgotará? -
que cria em abundância o suco da púrpura
valiosa como a prata, sempre renovável tintura para as vestes, 960
e um remédio para a perda dessas está, graças aos deuses, meu senhor,
aqui ao nosso dispor: a casa não conhece o que é ser pobre.
O pisar de muitas vestes teria eu prometido
se tal um oráculo houvesse decretado à casa,
quando procurava um meio de alcançar a vida deste homem. 965
Pois, havendo raiz, a folhagem vem até à casa
e estende a sua sombra contra o Cão Abrasador (1);
chegando tu à lareira do lar,
significas o calor que no Inverno chega,
mas quando Zeus a amarga uva por colher torna 970
vinho, então há frescura para a casa,
se um homem realizado (2) a casa ocupa.
(Agamémnon entra na casa. As criadas começam a retirar os tecidos do chão.)
Zeus, ó Zeus que tudo realizas, realiza também as minhas preces:
oxalá se realize o que tencionas realizar!
(Clitemnestra entra no palácio depois de as criadas concluírem a sua tarefa.)

(1) A estrela Sírio, normalmente chamada Canícula, cujo surgimento coincide com o período de maior calor no Verão.
(2) Tentativa insatisfatória de traduzir τελείου, termo que comporta uma perigosa ambiguidade: significa ao mesmo tempo “senhor da casa”, “homem no apogeu”, mas também “homem acabado”, “homem chegado ao fim”, “homem prestes a ser sacrificado” (o termo era usado tradicionalmente para vítimas de sacrifício), ou ainda “homem que paga a dívida”. Opto por esta tradução de forma a reproduzir em português a repetição nos versos seguintes da raiz tel-.

O texto grego é o da edição de M.L. West, Berlim/Nova Iorque, 2008.

domingo, 6 de dezembro de 2009

In cold blindness, those were my boldest spots, my blind spots, my tenderness towards sympathetic feelings. Graving out beside sweetening hearts, we let our soldiers' feet go away cold, our sweet boys, our birdless joy, and, therefore, our guilty, tender, all-embracing, silence. We burn the boots by the hearth of our houses. Our hands must not get cold. We need a proper box where to guard our most personal grief. Or, at least, a dust-free ash-tray.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O chão geme sob os seus passos — os da mulher — quando dança e ela sorri enquanto dança, apesar do frio que faz, de Agosto ser tão frágil que quase o esquecemos, de depois de amanhã tudo voltar ao corropio regular, a gravata azul, pela semana fora, os dias iguais. Mesmo as nossas caras são, regra geral, iguais de um dia para o outro. O tempo é subtil, alvenaria negativa subtil é o seu ofício. Desfaz as pedras lentamente, por dentro faz coisas que passam desapercebidas, subitamente rui a ala direita, o corpo seriamente soçobrante, a arfar, com medo, e ainda a face reconhecível, só um pouco diferente: o tempo caiu sobre ela pesadamente, visivelmente, anos passaram num instante numa dor no peito, um lado da cara arruinado, a perna amotinada, ou foi lá dentro, uma dor cá dentro, uma mínima ruína, um acréscimo ameaçador, a desarmonia do contraponto no número igual. Como se um traço de sangue riscasse a pauta até então tocada repetidamente em compasso regular. Tocam outras teclas, ociosas pela falta de uso, ou só há muito tempo atrás, uma criança traquinas só para ver o que acontece, antes da ruína se tornar manifesta. Só nisto os contemporâneos estão em desvantagem: não há um nome para amaldiçoar. A desgraça vai e vem como as estações do ano.
Talvez por isso eu desça pela manhã. Não sou um homem amargo. O gato olha para mim, deitado sobre o dicionário de grego aberto. Fecha os olhos, a minha mão na cabeça desperta um ronronar, abre os olhos, um resfolegar pesado, contente.
Só há fome. O frio salda-me por dentro. Sou indiferente, amigável, ausente. Sou velho ainda. Ainda não. Sei o frio nas mãos. Sei a fome nas mãos. Escrevo por frio e fome.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

um parágrafo de "Dangling Man"

o sol fora coberto neve começava a cair
espargida sobre os poros negros do cascalho
e jazendo em finas tiras nos telhados inclinados
eu podia ver à distância do cimo deste terceiro andar
não longe havia chaminés
o seu fumo cinzento mais claro do que o cinzento do céu
e mesmo à minha frente renques de habitações pobres
armazéns cartazes luminosos bueiros sinais eléctricos
a arder palidamente carros estacionados carros
em movimento ocasionalmente o raro esboço de uma árvore
esses eu inspeccionei com a cabeça contra o vidro
era minha obrigação olhar e colocar a mim mesmo
a invariável questão onde uma partícula de algo algures
ou no passado que testemunhe a favor do homem
não poderia haver dúvidas de que esses cartazes
ruas trilhos casas frios e cegos estavam relacionados
com a vida interior e no entanto dizia a mim próprio
a dúvida era necessária havia vidas organizadas em torno
desses caminhos e casas e elas as casas
digo eram o análogo o que o homem criou
elas eram-no também por meios transcendentais
isso eu não conseguia conceder
tem de haver uma diferença entre coisas e pessoas
e até mesmo entre actos e pessoas
de outro modo as pessoas que aqui viviam
eram na verdade um reflexo das coisas
entre as quais viviam sempre procurei evitar culpá-las
daí a minha leitura diária dos seus jornais
nos seus negócios e políticas nas suas tabernas filmes
assaltos divórcios homicídios eu tentava constantemente
encontrar sinais inequívocos da sua humanidade comum

(recriação poética de um parágrafo de Dangling Man de Saul Bellow)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lucrécio, De Rerum Natura, 2.1-61 ("Suave, mari magno...")

Agradável é, quando no mar imenso os ventos revolvem as águas,
de terra assistir ao imenso aperto de outrem;
não que a desgraça de alguém seja deleitoso passatempo,
mas conhecer os infortúnios de que tu próprio estás livre, isso é agradável.
Agradável é até contemplar as imensas competições da guerra, 5
dispostas ao longo do campo de batalha, sem que seja tua uma parte do perigo;
mas nada há de mais agradável do que habitar as elevadas
planuras, serenas e erguidas pela ciência dos sábios,
de onde podes olhar para baixo e ver por todo o lado os homens
errar em busca de um caminho para a sua existência transviada, 10
a competir em talento, contendendo por honrarias,
sobrecarregando-se noite e dia com a tarefa de todos superar
para alcançar as maiores riquezas e sobre as coisas dominar.
Ó míseras mentes dos homens, ó cegos corações!
Em que trevas da vida, em quantos perigos 15
se consome a existência, invariavelmente breve! Não vês
que para si a natureza nada pede, a não ser que,
separada do corpo, a dor ande longe e a mente frua
deleitosas sensações, livre de medos e cuidados?
Logo vemos que para a natureza corpórea pouco 20
é necessário no geral: tão só o que liberta da dor
e que possa também servir para nos cobrirmos de prazeres vários.
Mais gratificante é por vezes (pois a natureza não procura tais luxos ) -
se não há pela casa douradas estátuas de jovens
detendo na mão direita igníferas tochas 25
para servir a luz a sumptuosos banquetes nocturnos,
nem a casa refulge e cintila com ouro e prata,
nem as cítaras ressoam em salões apainelados e adornados com ouro -
que, ainda assim, em conjunto os homens se refastelem na tenra erva,
junto da água de um ribeiro sob os ramos de uma alta árvore, 30
e, sem necessidade de grandes luxos, docemente cuidem de seus corpos,
sobretudo quando o tempo sorri e a estação
do ano esparge pela relva viçosas flores.
Nem mais cedo partirão do corpo as febres ardentes
se para pintadas tapeçarias ou um robe rubro de púrpura 35
te lançares, do que se te deitares em lençóis plebeus.
Assim, uma vez que o nosso corpo em nada lucra
com riquezas, nem honrarias ou glória de estado,
devemos concluir que a nossa alma igualmente em nada lucrará;
a não ser talvez quando as tuas legiões espalhadas pelo Campo de Marte 40
vês borbulhar, exercitando-se em simulações de guerra,
apoiadas pelas imponentes reservas e pela cavalaria,
todas igualmente guarnecidas de armas e igualmente moralizadas,
e então com isto as superstições assustadoras
fogem assustadas do teu espírito, e os temores da morte
deixam o teu peito vago e livre de preocupações. 45
Mas se tudo isto julgamos tolo e ridículo,
e que na verdade o temor dos homens e os cuidados que os acossam
não temem o clangor das armas nem as lanças ferozes,
mas até entre reis e os poderosos do mundo audaciosamente 50
se instalam, nem reverenciar o fulgor do ouro,
nem o claro esplendor das vestes purpúreas,
por que duvidas então que somente a razão o pode,
sobretudo quando a vida de todos é incessante labor nas trevas?
Pois tal como as crianças tremem e tudo nas cegas 55
trevas teme, assim nós em plena luz receamos
por vezes o que tem tantas razões para ser temido como
as que no escuro fazem tremer as crianças ao imaginá-las próximas.
É portanto necessário que este terror e trevas da alma
- não por raios de sol nem luzente raiar do dia - 60
sejam dispersos, mas pelo exame da natureza e de suas leis.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Catulo XXXVI

Anais de Volúsio, papelada imunda,
um voto cumpri pela minha moça:
com efeito à sagrada Vénus e a Cupido
prometeu que, se eu lhe fosse restituído
e me deixasse de contra ela brandir jambos ferozes, (5)
ela escolheria do pior poeta
os escritos e ao deus de pé lento dedicá-los-ia
queimando-os em madeira de mau-agoiro,
e isto a terrível moça acha
bem por brincadeira dedicar aos deuses. (10)
Agora, ó gerada no cerúleo mar,
que o sagrado Idálio e os Úrios batidos pela tempestade
e Ancona e Cnido em canas abundante
habitas e também o Darráquio, pousada do Adriático,
dá por realizada e reconhecida a promessa, (15)
se não a julgas desagradável e deselegante.
E quanto a vós, toca a ir para o fogo,
cheios de rudeza e grosseria,
Anais de Volúsio, papelada imunda.

domingo, 27 de setembro de 2009

Somos gatos gordos o suficiente para não ter asas.

Desenhas no meu peito o teu número,
o teu cheiro, o teu calor.

........................................Vertes o teu ser
na concha dos meus passos e há renúncias
renitentes no coito casual das coisas
por vezes que não conseguimos desmentir.

Mas há sementes e sol. E cheira a alecrim
nas vilas que vemos no vazio do canto.

Lá também haverá ossos e enxadas e é bom sabê-lo a dois.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

insularmente os corpos variegados
precipitam-se sob as abas do relógio
em arcos concêntricos iluminam no céu
o sonho voraz de uma criança
as cordas da lira retinem de corpos
o chão fica cinzento uma mulher
asceticamente voraz de prenhez
e quando o som rebenta a criança
chora e sói pensar na vida
e tomar chá gravemente

e um punhal espera poisando sobre as casas
ameaça o sossego dos mínimos pecadores
a boca peçonhenta do punhal abre ninhos
nas vidraças dos sótãos convida a que
desembarquem os falecidos de doenças sazonais
como a gripe a cólera a solidão as mulheres
ficam à sombra quando partem os pais
os velhos o pedagogo francês da pueril
embarcação ainda não travessia um humilde
ensaio do corpo nu não homem ainda não
mulher mas já havia algo familiar ao desejo
quando as mãos despediram a barca a das
exportações mais comuns uma mão cheia
de cinza três moedas e lá vai terra adentro
direita ao outro sul.

tente-se explicar a natureza
dos corpos às crianças eternas até mesmo nas suas
pequenas mortes: elas simplesmente não querem saber.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Medeia em fuga

uma mulher
caminha pela rua acima
súbita sobe a noite pelas suas coxas
mais três passos alcançará os seus olhos
e nunca mais morrerá
afaga no peito faces de infância
e dos olhos rolam lágrimas
que afogam as faces que afaga no peito
mais dois passos alcançará os seus olhos
uma mulher
as faces no peito afogueado
não permitem que pare a noite súbita
pela rua acima do seu pescoço
mais um passo e alcançará os seus olhos
afoga no peito as faces de infância
e as lágrimas afagam a noite
que passa nos seus olhos
e nunca mais morrerá
uma mulher

sexta-feira, 10 de julho de 2009

olhas o corpo nu contra o espelho:
és da cor do mar
quando anoiteces. respiras
para lá deste lado do vidro
e o teu olhar -
tão fecundo - compactua
com o sacrifício desumano das gaivotas.

olhas o corpo nu contra o espelho:
uma sombra que a forma ensombra
estende à mão
que se avizinha a súplica
de um duelo: na luz - como
na infância -
o primeiro coração palpita
na penumbra

um privilégio irrecusável.

domingo, 7 de junho de 2009

nas várzeas da sombra
vagueava uma esperança
um pensamento inconfessado
por partidas milagrosas
e uma saliência concreta:
como a do macho pela fêmea.

surgiu então à tarde
uma ternura contrária ao vento
sulcando as toscas tulipas
com a cinza dos símbolos:
foi uma vigília ardente das estrelas
pela noite em númen.

nós colámos os sentimentos
de acordo com as instruções
do afecto.

e ficámos a ver a paisagem.

domingo, 31 de maio de 2009

minguam as mãos
marcadas pela morte.

mais se misturam os peitos
com palavras movidas pela música.

a memória é mãe bastarda
de todos. do tocador
da cítara do silêncio que sega
da que sonha saber esquecer.

seduz a música do mito
da terra de noites novas
o desejo pela morte.

as palavras marcam o compasso
e a taça passa de mão em mão.