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segunda-feira, 12 de março de 2012

Sorte pesada

E então o mais velho dos comandantes
das naus dos Aqueus,
não recriminando adivinho algum,
conspirou com a sorte que o feria,
enquanto a demora devorava as provisões
e oprimia a multidão aqueia,
acampada defronte de Cálcis,
nas costas de Áulis, onde a rebentação ruge continuamente;

os ventos que do Estrímon sopravam
um tédio nefasto, a má ancoragem,
o desvario dos homens, não poupando naus nem amarras,
tornavam a espera duplamente longa,
com o desgaste consumindo
a flor dos Argivos; e quando um outro
remédio mais pesado
do que a amarga tempestade o adivinho proferiu
aos primeiros do exército
declarando Ártemis responsável, então, batendo com os ceptros,
no solo, os Atridas
não contiveram as lágrimas,

e o mais velho dos chefes ergueu a voz para falar:
«Sorte pesada é não obedecer,
pesada também se esquartejar a minha filha, jóia do meu lar,
manchando as mãos paternas
na corrente do sangue de uma donzela imolada
junto do altar. Qual destas está isenta de mal?
Como me hei-de eu tornar um desertor das naus
falhando para com a aliança?

Ésquilo, Agamémnon, vv. 184-214, José Pedro Moreira (trad.), Edições Artefacto, 2012.

O primeiro livro da linha da Ítaca na Artefacto


















Acaba de chegar. Gato não incluído em caso de aquisição de um exemplar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Como é bem sabido, Ésquilo era comuna

Coro (cantando)

Um tremor apodera-se de mim ao escutar estes votos:

há muito que tarda o destino,

mas talvez venha em resposta a estas preces.


Ésquilo, Coéforas, 463-4


Estas palavras só poderiam ser ditas por um verdadeiro marxista: alguém que sabe que o destino chegará, que é irresistível e inevitável, só está é um bocadinho atrasado. Aliás, o Coro de escravas que verte librações e reza para ressuscitar o seu senhor é uma ritualização mal disfarçada do Avante pós-Cunhal. Mas parece-me algo forçada a posição de alguns críticos (como Goldhill, Vernant e Pitta) de ler no passo uma alusão ao referendo grego e às oportunidades que este representa para uma certa esquerda neo-pericleana. E já que falamos de Ésquilo.

domingo, 25 de setembro de 2011

diz Electra

pois como um lobo de coração selvagem é o ódio
contra a nossa mãe, e não pode ser adulado.

Ésquilo, Coéforas, 421-2

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Hope is flattering me, diz ela na tradução de Hugh Lloyd-Jones

...For me to assent outright,
and say this adornment comes from the dearest
of mortals to me, Orestes... but hope is flattering me!
Ah, if it had only a sense of language, like a messenger,
so that I was not tossed this way and that in two minds,
but either I knew for certain that I must reject this lock,
supposing it were cut form an enemy's head,
or it was kin to me and could share my grief,
adorning this tomb and honoring my father!
But the gods on whom we call know well
by what tempests we, like sailors,
are buffeted; and if we were fated to find safety,
from a small seed a mighty trunk may come.

Ésquilo, «Coéforas», vv. 192 e segs., Oresteia, tradução inglesa de Hugh Lloyd-Jones (a.k.a. sir Hugh, a.k.a. Il Magnífico), University of California Press, Berkeley-Los Angeles, 1993.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

a proa do coração

<Coro>

(cantando e dançando)

Possa eu entoar um †pungente†

grito de júbilo pelo homem

derrubado e pela mulher

que morre! Porquê esconder

o que, apesar de tudo, paira 390

diante da minha mente, onde da proa

do meu coração sopra furiosamente uma cólera

aguda, um ódio ressentido?


Ésquilo, Coéforas, vv. 386-393

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ésquilo estava errado

Estr. 2

Certa vez um homem criou

___em sua casa um pequeno leão privado do leite materno

______[mas ainda desejoso de mamar,

no prelúdio da sua vida 720

era dócil, amigo dos pequenos,

e causa de alegria para os anciãos.

Muitas vezes o segurava nos braços

como a um filho recém-nascido

e ele, de olhos brilhando postos na mão, abanava a cauda

______[com a necessidade do ventre. 725


Ant. 2

Com o passar do tempo mostrou

___a natureza herdada de seus pais: em agradecimento aos que o criaram,

juntamente com uma horrenda matança de gado, 730

preparou, sem ser convidado, um festim,

a casa ficou manchada de sangue,

uma dor inelutável para os seus habitantes,

imensa desgraça de muitas mortes –

por desejo de um deus um sacerdote da Ruína foi criado na casa. 735


Ésquilo, Agamémnon, 717-736 (a tradução é minha a partir do texto grego fixado por M.L. West)


sábado, 16 de outubro de 2010

How's that for a metaphor?

139
Achilles
This is what is said about a fable they tell in Africa: an eagle was hit with an arrow from the bow, saw the way it was flighted* and said, 'In this way we are vanquished, not by others, but with our own feathers!'
*viz. with eagle feathers.

139
ΑΧΙΛΛΕΥΣ

ὧδ’ ἐστὶ μύθων τῶν Λιβυστικῶν κλέος,
πληγέντ’ ἀτρακτῷ τοξικῷ τὸν αἰετὸν
εἰπεῖν ἰδόντα μηχανὴν πτερώματος•   
“τάδ’ οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς
ἁλισκόμεσθα”

Ο texto grego e a tradução aqui apresentadas são os da (recente) edição  de A. H. Sommerstein preparada para a nova edição das obras completas de Ésquilo publicada pela Loeb Classical Library (Sommerstein [ed. & trad.], Aeschylus Fragments, vol. III, Loeb Classical Library, Harvard University Press, Cambridge - Massachusetts, London - England, 2008).
Este é um fragmento de uma tragédia perdida de Ésquilo, Mirmidões, e são cinco versos muito muito belos.  Terão sido proferidos por Aquiles quando ele é informado da morte de Pátroclo e se apercebe do seu erro (trágico), mas a forma como ele diz esta percepção é sublime: ele diz que se sente como a águia que compreende que a seta que a trespassa tem uma pena da sua própria asa. A águia é trespassada οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Párodo das Coéforas



Orestes e Pílades afastam-se. O coro de mulheres aproxima-se do túmulo de Agamémnon.


Coro:›
(cantando e dançando)
Estr.1
Enviada pela casa eu vim
em procissão trazer libações enquanto a mão rápida feria o corpo:
eis na minha face os arranhões ensanguentados,
..........[sulcos recém talhados pelas minhas unhas 25
(por toda a minha vida se tem alimentado de lamentos o coração),
rasgões destruíram o linho,
dilaceraram ruidosamente os belos tecidos com as dores,
e as dobras das minhas vestes sobre o peito — golpeadas 30
por desgraças sem risos!

Ant.1
Claro, fazendo eriçar os cabelos da casa,
um sonho profético, soprando rancor em vez de sono,
um fundo grito de medo arrancou
..........[do interior da noite nos recessos do palácio, 35
caindo pesado no aposento das mulheres,
e os intérpretes de sonhos
anunciaram, com uma certeza vinda dos deuses,
que os que jazem sob a terra estavam gravemente ofendidos 40
e encolerizados contra os seus assassinos.

Estr.2
Tal é o favor desfavorável para afastar os males —
iô Terra Mãe! — que ela procura ao enviar-me, 45
..........essa mulher ímpia! Mas eu temo deixar cair essas palavras.
Pois que expiação pode haver uma vez derramado o sangue no chão?
Iô, este lar é todo ele desgraça,
iô, a ruína desta casa! 50
Impenetráveis ao sol, odiosas aos homens,
as trevas cobriram a casa
com a morte do senhor.

Ant.2
Outrora inelutável, inconquistável, invencível, o venerável respeito 55
invadia os ouvidos e o coração do povo
..........mas agora anda longe, e há quem tema. A prosperidade
é um deus e mais do que um deus entre os mortais; 60
mas observa-os a Justiça e o prato da balança
de imediato faz pender sobre alguns à luz do dia,
outros na fronteira da escuridão
por longo tempo prosperam {em dores},
a outros alcança-os a noite sem fim. 65

Estr.3
O sangue, quando bebido pela Terra que o nutriu,
coagula-se em vingadora matança, sem se dissolver:
uma inesgotável ruína
..........atormenta o culpado,
..........‹bem como› a enfermidade de infinitos recursos. {Aos que prosperam
alcança-os a noite sem fim.} 70

Ant. 3
Para o que profanou as câmaras nupciais não
há cura, e ainda que todas correntes a um único curso
..........afluíssem para lavar as mãos sujas
..........de um homicídio, correriam em vão.

Epod.
Quanto a mim — pois os deuses impuseram 75
a necessidade sitiadora de cidades, e da casa paterna
trouxeram-me para um destino de escravidão —
justo ou injusto que seja, devo aceitar
o domínio sobre a minha vida em violência ao meu coração
e reprimir este ódio amargo; 80
mas eu choro sob as minhas vestes
pela sorte sem sentido dos meus senhores,
arrepiada com o pranto clandestino.

——————————————

Cá fica um primeiro esboço da minha tradução do párodo (canto que acompanha a entrada do Coro na orquestra, um vasto recinto circular diante do palco) das Coéforas, a segunda tragédia da Oresteia de Ésquilo. A edição usada é a de M.L. West, Teubner, Estugarda, 1991.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ésquilo, Agamémnon, 958-974


Francis Bacon, Triptych inspired in the ‘Oresteia’ of Aeschylus


Tendo persuadido Agamémnon a entrar no palácio caminhando sobre tecidos de púrpura, uma honra reservada somente aos deuses, Clitemnestra declama os seguintes versos, enquanto seu marido desaparece no palácio para não mais voltar. O primeiro verso do passo é um dos mais famosos da tragédia (e de toda a tragédia grega). Yorgos Seferis retoma-o num poema que a Tatiana deixou aqui no blogue há alguns dias.

ΚΛ.
ἔστιν θάλασσα - τίς δέ νιν κατασβέσει; -
τρέφουσα πολλῆς πορφύρας ἰσάργυρον
κηκῖδα παγκαίνιστον, εἱμάτων βαφάς‧ 960
ἄκος δ᾽ὑπάρχει τῶνδε σὺν θεοῖς, ἄναξ,
ἔχειν‧ πένεσθαι δ᾽οὐκ ἐπίσταται δόμος.
πολλῶν πατησμὸν δ᾽εἱμάτων ἂν ηὐξάμην,
δόμοισι προυνεχθέντος ἐν χρηστηρίοις,
ψυχῆς κόμιστρα τῆσδε μηχανωμένη. 965
ῥίζης γὰρ οὔσης φυλλὰς ἵκετ᾽εἰς δόμους
σκιὰν ὑπερτείνασα Σειρίου Κυνός‧
καὶ σοῦ μολόντος δωματῖτιν ἑστίαν,
θάλπος μὲν ἐν χειμῶνι σημαίνεις μολών,
ὅταν δὲ τεύχηι Ζεὺς {τ᾽} ἀπ᾽ὄμφακος πικρᾶς 970
οἶνον, τότ᾽ἤδη ψῦχος ἐν δόμοις πέλει
ἀνδρὸς τελείου δῶμ᾽ἐπιστρωφωμένου.
Ζεῦ Ζεῦ τέλειε, τὰς ἐμὰς εὐχὰς τέλει‧
μέλοι δέ τοί σοι τῶνπερ ἂν μέλληις τελεῖν.


(Agamémnon começa a caminhar lentamente sobre os tecidos em direcção ao palácio)

Clitemnestra:
Há o mar - e quem o esgotará? -
que cria em abundância o suco da púrpura
valiosa como a prata, sempre renovável tintura para as vestes, 960
e um remédio para a perda dessas está, graças aos deuses, meu senhor,
aqui ao nosso dispor: a casa não conhece o que é ser pobre.
O pisar de muitas vestes teria eu prometido
se tal um oráculo houvesse decretado à casa,
quando procurava um meio de alcançar a vida deste homem. 965
Pois, havendo raiz, a folhagem vem até à casa
e estende a sua sombra contra o Cão Abrasador (1);
chegando tu à lareira do lar,
significas o calor que no Inverno chega,
mas quando Zeus a amarga uva por colher torna 970
vinho, então há frescura para a casa,
se um homem realizado (2) a casa ocupa.
(Agamémnon entra na casa. As criadas começam a retirar os tecidos do chão.)
Zeus, ó Zeus que tudo realizas, realiza também as minhas preces:
oxalá se realize o que tencionas realizar!
(Clitemnestra entra no palácio depois de as criadas concluírem a sua tarefa.)

(1) A estrela Sírio, normalmente chamada Canícula, cujo surgimento coincide com o período de maior calor no Verão.
(2) Tentativa insatisfatória de traduzir τελείου, termo que comporta uma perigosa ambiguidade: significa ao mesmo tempo “senhor da casa”, “homem no apogeu”, mas também “homem acabado”, “homem chegado ao fim”, “homem prestes a ser sacrificado” (o termo era usado tradicionalmente para vítimas de sacrifício), ou ainda “homem que paga a dívida”. Opto por esta tradução de forma a reproduzir em português a repetição nos versos seguintes da raiz tel-.

O texto grego é o da edição de M.L. West, Berlim/Nova Iorque, 2008.