sábado, 17 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Sorte pesada
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Como é bem sabido, Ésquilo era comuna
Coro (cantando)
Um tremor apodera-se de mim ao escutar estes votos:
há muito que tarda o destino,
mas talvez venha em resposta a estas preces.
Ésquilo, Coéforas, 463-4
Estas palavras só poderiam ser ditas por um verdadeiro marxista: alguém que sabe que o destino chegará, que é irresistível e inevitável, só está é um bocadinho atrasado. Aliás, o Coro de escravas que verte librações e reza para ressuscitar o seu senhor é uma ritualização mal disfarçada do Avante pós-Cunhal. Mas parece-me algo forçada a posição de alguns críticos (como Goldhill, Vernant e Pitta) de ler no passo uma alusão ao referendo grego e às oportunidades que este representa para uma certa esquerda neo-pericleana. E já que falamos de Ésquilo.
domingo, 25 de setembro de 2011
diz Electra
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Hope is flattering me, diz ela na tradução de Hugh Lloyd-Jones
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
a proa do coração
<Coro>
(cantando e dançando)
Possa eu entoar um †pungente†
grito de júbilo pelo homem
derrubado e pela mulher
que morre! Porquê esconder
o que, apesar de tudo, paira 390
diante da minha mente, onde da proa
do meu coração sopra furiosamente uma cólera
aguda, um ódio ressentido?
Ésquilo, Coéforas, vv. 386-393
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Ésquilo estava errado
Estr. 2
Certa vez um homem criou
___em sua casa um pequeno leão privado do leite materno
______[mas ainda desejoso de mamar,
no prelúdio da sua vida 720
era dócil, amigo dos pequenos,
e causa de alegria para os anciãos.
Muitas vezes o segurava nos braços
como a um filho recém-nascido
e ele, de olhos brilhando postos na mão, abanava a cauda
______[com a necessidade do ventre. 725
Ant. 2
Com o passar do tempo mostrou
___a natureza herdada de seus pais: em agradecimento aos que o criaram,
juntamente com uma horrenda matança de gado, 730
preparou, sem ser convidado, um festim,
a casa ficou manchada de sangue,
uma dor inelutável para os seus habitantes,
imensa desgraça de muitas mortes –
por desejo de um deus um sacerdote da Ruína foi criado na casa. 735
Ésquilo, Agamémnon, 717-736 (a tradução é minha a partir do texto grego fixado por M.L. West)
sábado, 16 de outubro de 2010
How's that for a metaphor?
139
ΑΧΙΛΛΕΥΣ
ὧδ’ ἐστὶ μύθων τῶν Λιβυστικῶν κλέος,
πληγέντ’ ἀτρακτῷ τοξικῷ τὸν αἰετὸν
εἰπεῖν ἰδόντα μηχανὴν πτερώματος•
“τάδ’ οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς
ἁλισκόμεσθα”
Este é um fragmento de uma tragédia perdida de Ésquilo, Mirmidões, e são cinco versos muito muito belos. Terão sido proferidos por Aquiles quando ele é informado da morte de Pátroclo e se apercebe do seu erro (trágico), mas a forma como ele diz esta percepção é sublime: ele diz que se sente como a águia que compreende que a seta que a trespassa tem uma pena da sua própria asa. A águia é trespassada οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Párodo das Coéforas
Orestes e Pílades afastam-se. O coro de mulheres aproxima-se do túmulo de Agamémnon.
‹Coro:›
(cantando e dançando)
Estr.1
Enviada pela casa eu vim
em procissão trazer libações enquanto a mão rápida feria o corpo:
eis na minha face os arranhões ensanguentados,
..........[sulcos recém talhados pelas minhas unhas 25
(por toda a minha vida se tem alimentado de lamentos o coração),
rasgões destruíram o linho,
dilaceraram ruidosamente os belos tecidos com as dores,
e as dobras das minhas vestes sobre o peito — golpeadas 30
por desgraças sem risos!
Ant.1
Claro, fazendo eriçar os cabelos da casa,
um sonho profético, soprando rancor em vez de sono,
um fundo grito de medo arrancou
..........[do interior da noite nos recessos do palácio, 35
caindo pesado no aposento das mulheres,
e os intérpretes de sonhos
anunciaram, com uma certeza vinda dos deuses,
que os que jazem sob a terra estavam gravemente ofendidos 40
e encolerizados contra os seus assassinos.
Estr.2
Tal é o favor desfavorável para afastar os males —
iô Terra Mãe! — que ela procura ao enviar-me, 45
..........essa mulher ímpia! Mas eu temo deixar cair essas palavras.
Pois que expiação pode haver uma vez derramado o sangue no chão?
Iô, este lar é todo ele desgraça,
iô, a ruína desta casa! 50
Impenetráveis ao sol, odiosas aos homens,
as trevas cobriram a casa
com a morte do senhor.
Ant.2
Outrora inelutável, inconquistável, invencível, o venerável respeito 55
invadia os ouvidos e o coração do povo
..........mas agora anda longe, e há quem tema. A prosperidade
é um deus e mais do que um deus entre os mortais; 60
mas observa-os a Justiça e o prato da balança
de imediato faz pender sobre alguns à luz do dia,
outros na fronteira da escuridão
por longo tempo prosperam {em dores},
a outros alcança-os a noite sem fim. 65
Estr.3
O sangue, quando bebido pela Terra que o nutriu,
coagula-se em vingadora matança, sem se dissolver:
uma inesgotável ruína
..........atormenta o culpado,
..........‹bem como› a enfermidade de infinitos recursos. {Aos que prosperam
alcança-os a noite sem fim.} 70
Ant. 3
Para o que profanou as câmaras nupciais não
há cura, e ainda que todas correntes a um único curso
..........afluíssem para lavar as mãos sujas
..........de um homicídio, correriam em vão.
Epod.
Quanto a mim — pois os deuses impuseram 75
a necessidade sitiadora de cidades, e da casa paterna
trouxeram-me para um destino de escravidão —
justo ou injusto que seja, devo aceitar
o domínio sobre a minha vida em violência ao meu coração
e reprimir este ódio amargo; 80
mas eu choro sob as minhas vestes
pela sorte sem sentido dos meus senhores,
arrepiada com o pranto clandestino.
——————————————
Cá fica um primeiro esboço da minha tradução do párodo (canto que acompanha a entrada do Coro na orquestra, um vasto recinto circular diante do palco) das Coéforas, a segunda tragédia da Oresteia de Ésquilo. A edição usada é a de M.L. West, Teubner, Estugarda, 1991.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Ésquilo, Agamémnon, 958-974

Francis Bacon, Triptych inspired in the ‘Oresteia’ of Aeschylus
ΚΛ.
ἔστιν θάλασσα - τίς δέ νιν κατασβέσει; -
τρέφουσα πολλῆς πορφύρας ἰσάργυρον
κηκῖδα παγκαίνιστον, εἱμάτων βαφάς‧ 960
ἄκος δ᾽ὑπάρχει τῶνδε σὺν θεοῖς, ἄναξ,
ἔχειν‧ πένεσθαι δ᾽οὐκ ἐπίσταται δόμος.
πολλῶν πατησμὸν δ᾽εἱμάτων ἂν ηὐξάμην,
δόμοισι προυνεχθέντος ἐν χρηστηρίοις,
ψυχῆς κόμιστρα τῆσδε μηχανωμένη. 965
ῥίζης γὰρ οὔσης φυλλὰς ἵκετ᾽εἰς δόμους
σκιὰν ὑπερτείνασα Σειρίου Κυνός‧
καὶ σοῦ μολόντος δωματῖτιν ἑστίαν,
θάλπος μὲν ἐν χειμῶνι σημαίνεις μολών,
ὅταν δὲ τεύχηι Ζεὺς {τ᾽} ἀπ᾽ὄμφακος πικρᾶς 970
οἶνον, τότ᾽ἤδη ψῦχος ἐν δόμοις πέλει
ἀνδρὸς τελείου δῶμ᾽ἐπιστρωφωμένου.
Ζεῦ Ζεῦ τέλειε, τὰς ἐμὰς εὐχὰς τέλει‧
μέλοι δέ τοί σοι τῶνπερ ἂν μέλληις τελεῖν.
(Agamémnon começa a caminhar lentamente sobre os tecidos em direcção ao palácio)
Clitemnestra:
Há o mar - e quem o esgotará? -
que cria em abundância o suco da púrpura
valiosa como a prata, sempre renovável tintura para as vestes, 960
e um remédio para a perda dessas está, graças aos deuses, meu senhor,
aqui ao nosso dispor: a casa não conhece o que é ser pobre.
O pisar de muitas vestes teria eu prometido
se tal um oráculo houvesse decretado à casa,
quando procurava um meio de alcançar a vida deste homem. 965
Pois, havendo raiz, a folhagem vem até à casa
e estende a sua sombra contra o Cão Abrasador (1);
chegando tu à lareira do lar,
significas o calor que no Inverno chega,
mas quando Zeus a amarga uva por colher torna 970
vinho, então há frescura para a casa,
se um homem realizado (2) a casa ocupa.
(Agamémnon entra na casa. As criadas começam a retirar os tecidos do chão.)
Zeus, ó Zeus que tudo realizas, realiza também as minhas preces:
oxalá se realize o que tencionas realizar!
(Clitemnestra entra no palácio depois de as criadas concluírem a sua tarefa.)
(1) A estrela Sírio, normalmente chamada Canícula, cujo surgimento coincide com o período de maior calor no Verão.
(2) Tentativa insatisfatória de traduzir τελείου, termo que comporta uma perigosa ambiguidade: significa ao mesmo tempo “senhor da casa”, “homem no apogeu”, mas também “homem acabado”, “homem chegado ao fim”, “homem prestes a ser sacrificado” (o termo era usado tradicionalmente para vítimas de sacrifício), ou ainda “homem que paga a dívida”. Opto por esta tradução de forma a reproduzir em português a repetição nos versos seguintes da raiz tel-.
O texto grego é o da edição de M.L. West, Berlim/Nova Iorque, 2008.