sábado, 9 de janeiro de 2010

[Citação]

.....Declarations, resolutions, treaties, theories, congresses, bones of kings, Cromwells, Loyolas, Lenins and czars, hordes of India and China, famines, huddles, massacres, sacrifices, he made me see; Jerusalem against Titus, Hell when Ulysses visited, Paris when they butchered horses in the street. Dead Ur and Memphis. Atoms of near silence, the dead acts, that formed a collective roar. Macedonian sentinels. Subway moles. Mr. Kreindl shoving a cannon wheel with his buddies. Grandma and legendary Lausch in his armor cutaway having an argument in the Odessa railroad station the day the Japanese war broke out. My parents taking a walk by the Humboldt Park lagoon the day I was conceived. Flowery springtime.
.....And I thought there was altogether too much of this to live with. Better forget it, in part. The Ganges is there with its demons and lords; but you have a right also, and merely, to wash your feet and do your personal laundry in it. Or even if you had a good car it would take more than a lifetime to do a tour of all the Calvaries.

Saul Bellow, The Adventures of Augie March

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ainda sobre há pouco

Acho que se um escritor tiver de ser comprometido com alguma coisa que não seja só com uma escola estética ou com um grupo de outros escritores de uma mesma estética ou projecto editorial. Que seja, que possa ser, comprometido com o facto de ter alguma coisa a dizer. Aquilo que deve ser escrito porque é uma necessidade inelutável, isso, para mim, é o que mais vale a pena ler. (Útil que seja ou não. Moral que seja ou não.) Acho que é disso que os grandes escritores são feitos. A grande literatura faz-se do que está enraizado no coração da vida, parte-se da ficção para chegar ao centro da vida, do real. (Dostoievsky quando penso nisto.)
Inclino a cabeça entre os pensamentos
e de longe me vem a melancolia,
e rio devagar, sem porquê, mas rio,
olho depois uma árvore que treme pela morte
que passa rente a mim. Será engano?
ou era o vento? Alheio à minha sorte,
de mim próprio inimigo, caminho estrada fora.

Franco Loi, Memória, António Osório (coord.), Quetzal Editores, 1993

Árbol de la vida

Mi duelo, lo que estoy viendo
es el Gran Buenos Aires desde un cementerio judío.
Con cara de cansado pasa arrugando un rabino
la página de kaddish en el bolsillo.
En mangas de camisa lejos de esta pira de piedras
asará los restos del domingo sobre otro mausoleo.
En la porta la florista se persigna
ante un cortejo de parientes y vecinos
solideos improvisados, mujeres de llanto fácil
se congregan en la fila de los deudos
no es por mi duelo, me segregan, los estoy viendo
no me sumo a esa muchedumbre abatatada
me resta a contramano mi perdida solitaria
por Quilmes y Ezpeleta hasta La Tablata flotando
bajo el humo de chorizos arrebatados,
de calles barrosas sin apisonar
vías muertas y, al final, una tarina evangelista.
"Pare de sufrir" anuncia la humorada del cartel
cuando piedra sobre piedra entierro
mal traducida la fotocopia del kaddish
en el fondo de mi cartera qué me dice
la tradición a expensas de tu muerte
una verdade menos que revelada
no hay rabino que ayune ganas de saber
no hay duelo lo que estoy viendo es lo que es
calles del Gran Buenos Aires transidas de domingo
un vehículo negro pasea en relieve el nombre de
....................................................................................[su cochería
de este al otro lado del suburbio lo que estuve
....................................................................................[viendo
se distancia. En el campo sin límites de la mirada
verde sobre verde avanza el paisaje de todos
todos cuelgan sobre ese horizonte la esperanza
....................................................................................[de estar vivos
somos uma muchedumbre abatatada volcando
....................................................................................[sobre los colectivos
una pasaje de salida. Me fui del cementerio
yo tampoco merezco otro domingo en tinieblas.
Mi duelo, lo que estoy viendo
será de aqui en más este verdor que te dedico.
Hoy florecen en las copas de los árboles todas
....................................................................[mis raíces.

Tamara Kamenszain, O gueto, Moby-Dick, 2003

Todas Pálidas, as Redes Metidas na Voz.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente — e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal com luz, por baixo os pescadores
cheios de mãos cantando.
Cresciam as barcas por ali fora, a proa
aberta como uma janela ao sal.
Metida na voz, toda pálida, a proa
rimava no ocidente com a cal que os pescadores
remavam, cantando grande, pe-
la luz fora. Ao sol, ao sal.

E o espírito de Deus como um livro
movia-se sobre as águas.
Com seu motor à popa, veloz, peixe
sumptuoso, o espírito de Deus, motor de um nú-
mero de cavalos, galgava
a antiga face pálida das águas. Enquanto,
cantando as redes,
os pescadores metiam as mãos cheias
de cal pelos grandes peixes abaixo.
E pelas barcas fora a luz remava pe-
lo ocidente todo pálido, rimando
as redes leves com proa.

E o peixe espírito de Deus, rangendo
o motor, rompia com um número,
remando todo pálido os seus grandes
cavalos. Deus
cantava no ocidente sobre as redes de cal,
a proa aberta — como as guelras
da luz. E os pescadores
metiam as redes pelo espírito de Deus abaixo.
E os remos rimavam com redes
leves no peixe sumptuoso.
Por ali fora as guelras caíam na voz
dos grandes pescadores.

E Deus metido então nas redes, puxado
cor de cal para dentro
das barcas, as mãos cantando cheias
de pescadores.
E sobre as águas rangentes, rompendo
o leve ocidente, os pescadores remavam
o espírito de Deus para terra — peixe
de motor à popa — e a proa
grande aberta.

E cantavam o seu peixe sumptuoso, espírito
pálido na leve cal do ocidente
cantando.

Herberto Helder, A Máquina Lírica in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009
A Cidade, pelo Teatro da Cornucópia.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ontem acabei a Constituição dos Atenienses e li um outro livro chamado Memória.

Ana Frank

No hay sótano más oscuro
que este alque desciendre el alma
para esconder con palabras
lo que debería decirse
......................................MUERTE.
Nos persiguen y por eso
dejamos constancia
de sobrevida
Es un homenaje al ghetto
encierro precoz
donde la niña aprende a canjear
veintecuatro horas en blanco
por segundo de escritura.

Tamara Kamenszain, O gueto, Moby-Dick, 2003

"and now for something completely different"

Sobre o último livro de um dos meus «vivos» favoritos. Aqui.
com o cheiro de laranjas agarrado às mãos
avançar contra o baço rumor da vida

em pano de fundo ao lento abrir dos olhos
o verde avança sobre o trigo
como o abrir de uma asa o gesto mais próximo
guarda o outono que percorre a velocidade das primeiras luzes
e te encontra estendido sobre o muro

ao sol da tarde a sombra do rapaz alastra sobre a sebe
avança correndo fora da indistinção dos muros
o movimento dos pés guarda o seu olhar atento
que cresce sobre silvas
a bola continuará a rolar para lá dos seus gritos
outra voz te há-de conduzir a um ponto onde o corpo fica
à mercê da intenção de um remate

em certos instantes se contém
a perplexidade de um movimento esquivo
que corre em pontos fundeados sobre as manhãs
alastra sobre traves
fundações daquele outro cais
onde fica em suspenso a passagem para o inverno

Tatiana Faia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


(Música perfeita. Não vi o filme. Ainda.)
deus arde lentamente a cada prece
ele ama cada manhã logo devemos ser
e evoluir um pouco mais nesta arte de ser
sem fim mesmo para lá dos patíbulos da miséria
sem que nos ocupemos dos nossos erros
demasiado erráticos para que os contemos
continuar prosseguir descer sossegadamente
ou ficar por cá um pouco mais
até que a noite nos incendeie no seu berço

Dia de Reis
























Eles tinham uma promoção no espaço chiado da Assírio, uma espécie de rifas: de acordo com o número de livros que comprássemos, podíamos tirar um número equivalente de papelinhos de dentro de um jarro, alguns dos papéis davam livros. Ganhei seis livros em quinze papéis. Nada mau.

These

are the desolate, dark weeks
when nature in its barreness
equals the stupidity of man

The year plunges into night
and the heart plunges
lower than night

to an empty, windswept place
without sun, stars or moon
but a peculiar light as of thought

that spins a dark fire -
whirling upon itself until,
in the cold, it kindles

to make a man aware of nothing
that he knows, not loneliness
itself - Not a ghost but

would be embraced - emptiness
despair - (They
whine and whistle) among

the flashes and booms of war;
house of whose rooms
the cold is greater than can be thought,

the people gone that we loved,
the beds lying empty, the couches
damp, the chairs unused -

Hide it away somewhere
out of the mind, let it get roots
and grow, unrelated to jealous

ears and eyes - for itself.
In this mine they come to dig - all.
Is this the counterfoil to sweetest

music? The source of poetry that
seeing the clock stopped, says,
The clock has stopped

that thicked yesterday so well?
and hears the sound of lakewater
splashing - that is now stone.

William Carlos Williams
, Antologia Breve, José Agostinho Baptista (trad.), Assirio & Alvim, 1993
























Escudo de David

Debajo de su boina negra
hay un techo inflamable
turbulencias
las bubes rojas de trópico
flamean acaloradas
media asta sobre la Habana Vieja
donde nadie sabe decir
dónde reposan los restos
lo que resta de mí
me deja a merced
de mi proprio mausoleo
jinetera
detenida sobre sus pies
no espero a nadie
e insisto en que alguien
tiene que llegar
un mesías
sobre su boina negra ladeado
el ojo de la tormenta
el manto celestial que arranque
puntas estrelladas
de los anteojos de Trotsky
esquirlas de un héroe que se estampa
entre el pecho e la espalda
una camiseta herida
vale de escudo.

Tamara Kamenszain, O gueto, Moby-Dick, 2003

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Continuo a leitura da Constituição dos Atenienses e de Ulisses em paralelo. De tarde, fui à livraria da faculdade onde engracei com um livro chamado O gueto, que trouxe comigo para casa e que, sendo curto, se leu muito depressa.

Dizem que amanhã