Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
Sophia, Geografia
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Jesualdo, estás perdoado!
Nos últimos anos o ritual repete-se: insulto o Prof. Jesualdo no início de cada época desportiva, dou-lhe o benefício da dúvida lá para Janeiro, e em Maio reconheço que, sim senhor, o Prof. Jesualdo é um homem com qualidades, que afinal talvez não descenda de uma estirpe tão torpe nem cheire assim tão mal da boca como eu proclamava diante do televisor há uns meses atrás. Mas se há algo que nunca perdoei ao Prof. Jesualdo foram as suas "percas". Até que hoje me deparei com a seguinte frase:
"Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre."
Agora já posso dizer aos meus amigos não-portistas que o Prof. Jesualdo não é um pescador falhado, mas sim um ávido leitor de Sophia.
Muitas coisas teria eu a dizer sobre o português do Sr. Jesus — o homem não só é uma epítome ambulante de agramaticalidades características de um determinado sociolecto lisboeta, como ainda consegue arranjar mais algumas de sua lavra — mas, estando nós em quadra natalícia, vou terminar com a transcrição do texto de Sophia.
Igrina
O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omipotência do sol rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comigo o lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia - e vi o mar reflectido no seu próprio espelho. Igrina.
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o meu mundo.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Perda do deus que fui
Foi aquela tarde um tição
e depois foi violeta
todo o ar. Brancas luzes
cintilaram no céu.
E eu escuro.
Longa noite.
E ao chegar a madrugada
do corpo nasceu a sombra.
Francisco Brines, A Última Costa, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 1997
e depois foi violeta
todo o ar. Brancas luzes
cintilaram no céu.
E eu escuro.
Longa noite.
E ao chegar a madrugada
do corpo nasceu a sombra.
Francisco Brines, A Última Costa, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 1997
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
hoje não estás próximo, és somente um animal
indeciso onde o tempo se mostra, a linha de água
que a noite encontrou para ter luz, e vejo-te
como um nome que não sei decifrar:
placa toponímica num país estrangeiro.
Uma longa viagem uma improvável chegada
acolhem-se na minha desordem,
sei agora porém que existe um lugar:
cisterna vulnerável ou praça com palmeiras,
um livro inacabado ou a voz de Hellen Watts:
o thou that tellest good tidings to Zion,
o tempo no entanto vacilou,
os corpos, as cidades, os caminhos,
desconhecem os segredos que os diziam,
as letras mudam de lugar, e o teu nome
adquiriu a paz de uma palavra
que não conseguirei nunca soletrar:
és assim uma presença fechada na estranheza
como Deus o era para Kant:
ponto de fuga onde a paisagem
reencontra o seu íntimo destino
Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, 2007
indeciso onde o tempo se mostra, a linha de água
que a noite encontrou para ter luz, e vejo-te
como um nome que não sei decifrar:
placa toponímica num país estrangeiro.
Uma longa viagem uma improvável chegada
acolhem-se na minha desordem,
sei agora porém que existe um lugar:
cisterna vulnerável ou praça com palmeiras,
um livro inacabado ou a voz de Hellen Watts:
o thou that tellest good tidings to Zion,
o tempo no entanto vacilou,
os corpos, as cidades, os caminhos,
desconhecem os segredos que os diziam,
as letras mudam de lugar, e o teu nome
adquiriu a paz de uma palavra
que não conseguirei nunca soletrar:
és assim uma presença fechada na estranheza
como Deus o era para Kant:
ponto de fuga onde a paisagem
reencontra o seu íntimo destino
Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, 2007
com uma pressão de ar, o homem estilhaçava
as borboletas que pousavam nas rosas;
por uns instantes, pequenos farrapos brancos
pairavam imprecisos sobre o canteiro;
cada minuto era o tempo todo a soletrar
uma história saturada de mortos.
Estou a meio do jardim que explode
à custa do meu corpo: disse o homem:
sou o seu desejo. A sua fome.
Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, 2007
as borboletas que pousavam nas rosas;
por uns instantes, pequenos farrapos brancos
pairavam imprecisos sobre o canteiro;
cada minuto era o tempo todo a soletrar
uma história saturada de mortos.
Estou a meio do jardim que explode
à custa do meu corpo: disse o homem:
sou o seu desejo. A sua fome.
Rui Nunes, Ofício de Vésperas, Relógio d'Água, 2007
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Uma vida realmente boa
Essa felicidade teria algo em comum com a sua infância, com o entusiasmo que nele despertava a poesia lírica russa, com um certo horizonte vespertino que uma vez vira num sonho e com aquela dama, mulher de outro homem, que em desespero amara durante sete anos; mas seria ainda mais plena e significativa do que tudo isso. Além do mais sentia que uma vida realmente boa deiva orientar-se para alguma coisa ou alguém.
Vladimir Nabokov, "Nuvem, Castelo, Lago", Telma Costa (trad.), Contos Completos, Vol. II, Teorema, 2003
Vladimir Nabokov, "Nuvem, Castelo, Lago", Telma Costa (trad.), Contos Completos, Vol. II, Teorema, 2003
domingo, 13 de dezembro de 2009
The Sorrowing Girl
On the stone of patience
you sat at nightfall,
the black of your eye
revealing your pain;
on your lips the line
that's naked and trembles
when the soul spins
and sobs plead;
in your mind the motive
that starts tears
and you were a body that from the verge
returns to fruitfulness;
but your heart's anguish
was unmoaning, became what gives the world
a starfilled sky.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
you sat at nightfall,
the black of your eye
revealing your pain;
on your lips the line
that's naked and trembles
when the soul spins
and sobs plead;
in your mind the motive
that starts tears
and you were a body that from the verge
returns to fruitfulness;
but your heart's anguish
was unmoaning, became what gives the world
a starfilled sky.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
Ultimamente tenho sido bastante feliz

Mas à pág. 426 a porcaria do livro já ficou sem capa. Volume feito para agradar, não para durar, apesar da aparente robustez. O imortal Sr. Platão teria coisas inteligentes a dizer sobre o assunto, que de momento não me interessam para nada, pois o igualmente imortal Sr. Pickwick está prestes a desforrar-se do pérfido Sr. Jingle.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Euripides the Athenian
He grew old between the fires of Troy
and the quarries of Sicily.
He liked seashore caves and pictures of the sea.
He saw man's veins
as a net the gods made to catch us in like wild beasts:
he tried to pierce it.
He was a sour man, his friends were few;
when the time came he was torn to pieces by dogs.
and the quarries of Sicily.
He liked seashore caves and pictures of the sea.
He saw man's veins
as a net the gods made to catch us in like wild beasts:
he tried to pierce it.
He was a sour man, his friends were few;
when the time came he was torn to pieces by dogs.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
Pentheus
Sleep filled him with dreams of fruits and leaves;
wakefulness kept him from picking even a mulberry.
And the two together divided his limbs among the
......Bacchae.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
wakefulness kept him from picking even a mulberry.
And the two together divided his limbs among the
......Bacchae.
Yorgos Seferis, Collected Poems (1922 - 1955), Edmund Kelley e Philip Sherrard (trad., ed., e intr.), Princeton University Press, 1971.
Uma cena de «Almost Famous» de Cameron Crowe, 2000
Ainda estou para me lembrar de um mau filme de Cameron Crowe. Acho que ainda não vi nenhum nessa categoria e este Almost Famous é um filme excelente.
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