sexta-feira, 6 de novembro de 2009

«To Have and Have Not» de Howard Hawks, 1944
























To Have and Have Not é, literalmente, um filme único na história do cinema. Isto porque é o único filme que, tanto quanto sei, é baseado num conto de um prémio Nobel da literatura e o argumento foi escrito por outro prémio Nobel da literatura, textos de Hemingway e Faulkner, respectivamente. No caso de Faulkner, esta foi uma de duas colaborações com Hawks/Bogart e Bacall (a outra foi The Big Sleep).
O filme é bom, mas desiludiu-me um pouco. É como se lhe faltasse um certo nexo que unisse melhor as diferentes personagens (não necessariamente o enredo). Por outro lado, não consigo deixar de pensar que esta película tem propositadamente muitas semelhanças com Casablanca (1942). Mas Casablanca é muito melhor.

«Mitos e Arte: Música, Cinema e Literatura»

Hoje, pelas 18h30, na FNAC do Colombo realiza-se uma das conferências subordinadas ao Ciclo As Várias Faces do Mito, com coordenação geral de Annabela Rita e Coordenação do Ciclo de Marília Futre Pinheiro.
Os oradores convidados para esta conferência serão António Pedro de Vasconcelos, Luís Cerqueira e Ana Alexandra Sousa. O tema é o que dá título a este post. Apareçam.

O Mítico Filme de Bob Dylan

Ler mais aqui.
Eu escrevia num quadro de ardósia
e nas folhas de leques apagados,
e na areia de riachos e mares,
com um patim no gelo, com um anel nos vidros,

e na casca de árvores centenárias...
E finalmente, para que ninguém possa ignorar
que tu és amado! amado! amado!,
eu assinava num arco no azul do céu.

Eu queria tanto que tudo florisse
nos séculos dos séculos! Sob os meus dedos!
E depois, com a testa sobre a mesa,
risquei todos os nomes com uma cruz.

Mas tu, nos dedos mercenários de escriba
prisioneiro! Tu, mordes-me o coração!
Nunca me traias! Para dentro do anel!
Tu ficarás para sempre na tábua das leis.

Maria Tsvétaïeva in Poetas Russos, Manuel Seabra (trad.), Relógio d'Água, 1995

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Tsvétaïeva

Coloco Tsvétaïeva no topo - era uma poeta consumada logo desde o início. Numa época de afectação ela tinha a sua voz própria - humana, clássica. Era uma mulher com alma de homem. A luta dela com a vida de todos os dias dava-lhe força. Ela esforçava-se e obtinha uma clareza perfeita. É melhor poeta que Akhmátova, cuja simplicidade e lirismo sempre admirei. A morte de Tsvétaïeva foi uma das grandes tristezas da minha vida.

Boris Pasternak em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009.

Antologias

Duas antologias de poesia em língua inglesa que me parecem altamente recomendáveis: uma é esta, que reúne alguns dos poemas favoritos de Ted Hughes e Seamus Heaney, é interessante pela selecção de poemas em si mas também pelo gesto antológico dos seus organizadores (os supra-citados).
A outra é esta, embora com um âmbito mais específico do que a primeira, reúne uma série de poetas irlandeses e é a tentativa do seu organizador, Yeats, de fixar uma tradição de poesia irlandesa. Desta antologia recomendo a (re)edição da Routdlege, que é recente e relativamente fácil de encontrar. Da primeira, a edição da Faber & Faber serve.

Uma cena de «Manhattan» de Woody Allen, 1979.


Duas cenas neste filme que destaco: a do esqueleto; a linha final. Esta também é boa.

A Monologue of Prince Myshkin to the Ballet Pantomime "The Idiot"

(...)
I have the word, I took it
from the hand of sorrow,
unworthy, for how could I
be more worth than the next -
myself a vessel for that cloud
that fell from the sky, plugging into us,
terrible and strange
and sharing the beauty
and all that's contemptible in this world.

Este monólogo, de extensão média, vem incluído no livro de Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems (Peter Filkins [trad.], Charles Simic [intr.], Zephyr Press, 2006.) É uma recriação e ao mesmo tempo uma interpretação da obra de Dostoiévsky (O Idiota). Os versos que deixo acima correspondem ao princípio do monólogo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O que trazemos connosco

Já é suficientemente difícil escrever livros e histórias sem que nos peçam também que os expliquemos. Além do mais, isso rouba a atenção a quem se dedica a essa tarefa. Se cinco ou seis ou mais bons explicadores conseguem manter-se em actividade porque é que eu havia de interferir no trabalho deles? Leia o que escrevo pelo prazer de o ler. Tudo o que lá encontrar corresponderá àquilo que você levou consigo mesmo para a leitura.

Ernest Hemingway em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009.

Alda Merini

A poetisa Alda Merini, de 78 anos, considerada a última grande expoente deste género em Itália, faleceu no domingo no hospital São Paulo de Milão após prolongada doença, informaram os "media" italianos. Ler mais aqui.
(...) Best to be tired and at evening
to collapse. Best in the morning
to awaken clear to the first light,
to rise up beneath the immovable sky,
to ignore the impassable water,
and to lift the ship over the waves
towards the forever recurring shore of the sun.

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Só pelo título do blogue

merecia menção. Mas não é só isso. Passa para a barra lateral.

Uma cena de «The Big Sleep» de Howard Hawks, 1946


(Para muitos um dos melhores pares da história do cinema.)

Round Dance

Round dance: a love can sometimes cease
in the extinguish of an eye,
and what we come to see
is love's extinguished eye.

Cold smoke from the crater
breathes upon our lashes;
only once did empty terror
not breathe at all upon us.

We've seen the eyes of the dead
and will forget them never.
Love lasts to the end,
but apprehends us never.

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Gostaria de voltar a fazer um filme?

Sim, gostava de fazer um a partir do Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell. Tenho uma ideia para um final que provaria a tese em que tenho insistido constantemente: o homem é indestrutível devido ao seu simples desejo de liberdade.

William Faulkner em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009.

Eliot

Cartas inéditas.

As Pessoas Só Aprendem Errando

O jovem escritor será um tolo se seguir uma teoria. Ele que se eduque a si próprio pelos seus próprios erros; as pessoas só aprendem errando. Um bom artista acredita que ninguém é suficientemente bom para lhe dar conselhos. Tem uma forma superior de vaidade. Independentemente da admiração que tenha pelo velho escritor, quer superá-lo.

William Faulkner em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009.