sábado, 10 de setembro de 2011

A lei que sou

Há uma coisa que Elytis escreveu em Maria Neféli, um verso, dois talvez, em que se diz «A lei que sou não me submeterá.» Pensava que isto era: eu não me submeto à lei que sou. Isto é, eu escolho, a lei formula-se em função disso, em última análise, sou a minha lei, a minha própria norma. Tenho percebido que não é isso, é ao contrário, a lei que sou agora não pode aplicar-se sobre mim mais tarde, pode continuar a ser lei e eu falhar-lhe, ser então ánómós.

Pequena moeda

E, como também disse mais tarde, fiquei muito impressionada com a constatação de que tantos encontros na nossa vida, tantas relações humanas se baseiam simplesmente no facto de se dar uma pequena moeda ou uma nota a alguém, em troca de um selo ou de um jornal da tarde, sem nada conhecer daquela pessoa. Há em tudo isto um elemento puramente automático, que pode tornar-se às vezes romanesco, embora seja bastante raro, pois não se pensa nisto.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

muitas coisas ariadne

chegámos à estação
os faróis
indicam o limite
para diante ergue-se o mar
vento ondulando
no verde
o sal dessa água
é uma rede que envolve os tornozelos

afastas-te muito rápido
com pés de fauno
mas há este instante na rapidez
em que ela é a mão cerrada sobre o ombro
o limiar da porta

coisas perdem-se ou são
um cerrar de dentes
mão fechada contra o ombro
os olhos absortos
lanternas de onde
a água pinga
ruelas que escreves
uma vez outra vez
volta atrás
de novo
imitando os movimentos do vento
tropeçando esse ar que corre
apaga-as em poeira
a essas ruas que
vão sendo moedas gastas
faces apagadas
nas mãos
uma impressão
que passa rápido

atirada para o cesto
a roupa despida é o fim do dia
e procuras-te no reflexo
mas sabes que só
a laje de mármore
partida
por insuspeita pancada cega
vem falar a tua língua

dancemos
por isso
em cacos

a certeza de que a nossa história
é um objecto
inacabado
que pertence à desordem onde
os pés pousam
aqui e agora as nossas
muitas luzes
serão traduzidas em estilhaços
simbolizadas
por jeans rasgados nos joelhos
essa canção que
na voz ténue do rapaz
te encontra à esquina
à espera
e rompe na noite
e morre
nas arcadas
volteando em torno
das grades azuis da primeira chuva

o que dizemos
incendeia-se nos candeeiros
respiração intermitente
e talvez se torne aos poucos
a chuva
que se esconde nos cântaros
deixados diante
de muros brancos azuis desolados

esses gigantes guardiões
de vasos de flores
que cedeste
ao sol ao frio
a um modo oscilante
de não voltar mais

os narradores
do teu passar desajeitado
traduzido apenas e trazido de volta
no mover-se
do rapaz de sapatilhas vermelhas
dançando na sala vazia

virá mais tarde esse porquê
perguntado baixinho
enquanto absorto róis as unhas

f. deixou junto à ponte os sapatos
e atravessou descalço
entrou no reno
com pequenos seixos contados
na mão
nunca adivinhou as margens

ferlinghetti
disse
cultivate dissidence and critical thinking

mas eu lembro-me antes de l.
a minha memória mais perene
é feita dessa rapariga
sozinha num quarto
lendo na pouca luz
a sua voz enchia tudo
ela nunca soube
eu ouvi-a encostada à parede
tentava seguir
esse murmurar
que era o meu próprio reno
um tempo que como água
não acabava
não podia acabar

ela não sabia
e era ariadne
luminosa ariadne
de verdade
com o seu fio luminoso
a que se prendia
uma tristeza de ser puxada
trazida contigo

mas naquelas horas
só existia o rapaz
que escapava intacto
do labirinto
espada ensanguentada na mão
um minotauro a menos
nas contas de fim do dia

os nossos heróis eram assim
estavam todos acima
das linhas de destruição
eram vagamente perfeitos
demasiado bonitos
um pouco mais que humanos
percebemos mais tarde
que não eram
assim tão dignos da nossa afeição

na luz acesa
veio devagar essa chuva
que te tracejava a cara
fora do desenho a lápis
intuímos que há este instante
no silêncio
em que nos tornamos
passamos à existência
na certeza dessa familiaridade
ligeiramente ameaçada
o instante em que não posso
saber mais nada de ti
envolvido na ordem fácil
que se esconde no gesto
de terminar o nó da gravata
há essa diferença mínima
a certeza de que não posso
saber mais de ti

pássaro

e espera silenciosa e terna
e a desarrumada ordem
do teu riso
onde todas as cores caiem certas
na combinação geométrica
que não adivinha essa ternura breve
essa que te sorri
como sorte
de um ponto acima

eu que só te podia seguir
até ao pátio interior
a partir destes labirintos de ruas
que lanternas de papel
acenderam
a rápida passagem entre sons
que traz de volta a música

essa rapidez
dúctil
rude
táctil
que nada
pode curvar

e sei que havia esta fronteira na tarde
onde silenciosamente te cercaram
os passos da chuva em torno dos alpendres
um relógio bate algures a hora
e tu tornas-te o gabriel de hill


esse
anjo sensato
que precipitando-se
arrasta consigo
em queda
a luz
isso que o
melhor poeta
aprendeu a definir
como
escuridão sensível

Tatiana Faia

Antiga Casa Faz Frio

Também a Praça das Flores
«é sempre a despedida da vida»
e eu, delta vez, não a convocarei,
Dona Benilde. Prefiro falar
de quem só apostava
no «tudo ou nada do amor»,
rendendo-se à música da cidade.

É uma estória mal contada,
obviamente. Apareceu-me
de casaco vermelho,
com três maços de cigarros
a brincarem-lhe nas mãos.
Perguntava a quem passava
onde ficava o Chiado,
enquanto a magreza dos seus ombros
incendiava a igreja do Loreto.
Os negros das obras respondiam-lhe
o melhor que podiam, esquecendo
por instantes os rabos e as mamas
que desciam apressadamente para o metro.
Apenas falou, nessa tarde, da crise
do PCP e de gravatas militantes.
Depois morreu, imaculado rasto de cinza
a perder-se no verde corrigido
deste restaurante, onde trapeiros
e limpa-chaminés pronunciam o seu nome.

A si, João César, daria todos os meus cigarros.
Mas agora, suponho, era coisa de pouca serventia.
O marinheiro da entrada manda-lhe saudades.
E olhe que a cozinha está melhor e o tinto
de Trancoso não provoca nem repulsa nem azia.
Mas vai ser tão frio, este Verão.

Manuel de Freitas, Blues for Mary Jane, &etc, Lisboa, 2004 apud AAVV, Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

o fim dos filhos de Sejano segundo Tácito

It was decided after this that measures should be taken against the remaining children of Sejanus (though the anger of the plebs was vanishing and many had been assuaged by the earlier reprisals). So thesewere transported to prison, his son, intuiting the inevitable, and a girl so unaware that she asked frequently for what felony and to what place she was being dragged off: she would not do it again, she said, and could be admonished by a child's beating. Authors of the time transmit that, because it was held to be unheard of for a virgin to have the triumviral reprisal inflicted on her, she was violated by the executioner alongside the noose; then, their throats crushed, the bodies despite their tender ages were throw onto the Gemonians.

Tácito, The Annals, 5.9, Hackett, 2004, tradução de A. J. Woodman

Morto

Sei que caio no inexplicável quando afirmo que a realidade - essa noção tão flutuante -, o conhecimento mais exacto possível dos seres, é o nosso ponto de contacto e a nossa via de acesso às coisas que ultrapassam a própria realidade. No dia em que nos distanciarmos de realidades muito simples, fabulamos e caímos na retórica ou num intelectualismo morto.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos: Conversas com Matthieu Galey, Renata Correia Botelho (trad.), Relógio d'Água, 2011.

domingo, 4 de setembro de 2011

Lembranças de Cartago

Pronto. Deste manto nascem
as chuvas, os olhos compósitos,
a restante confraria dum animal
de Cristo brilha no fictício
cristal da ponte.
Mas o semblante, atento
às concubinas, ao orifício
sombrio dos espectáculos,
não é teu.
O báculo serve o gosto
mordaz em anéis sem sombra,
a luz contaminada pelo conflito
sua semelhança com a crina dos
espelhos.

Gil de Carvalho, Viagens: 1978-2008, Assírio & Alvim, 2008.

sábado, 3 de setembro de 2011

Athanor

1

Veio com um remo pela noite.
Não lhe conheci as mãos.
Eram dum amarelo capaz
aptas nos orifícios da transmutação.
Subi as lentas canas de qualquer olhar.
O pequeno edifício,
oscilou,
na ágata fresca da margem.

2

Não é da embarcação nem deste corpo
nem talvez do fumo que a montanha
escuta, o braço, este.
Bate no mar,
é tudo.
Vou ter contigo.
Uma mesma que seja, argola
escura, à volta da carne não
permite à ilha esconder
o ouro da chegada.

Gil de Carvalho, Viagens: 1978-2008, Assírio & Alvim, 2008.

Rosa choque

Clinamen

Retorno

Vemos de novo, os caminhos arpoados
na falange do sexo, o trevo, enforcado
nas folhas, a pedra onde perdes os pés.

Só o que seca, oculto,
no interior do crânio sangra,
como antigamente, no ar,
os homens
preferem, na rota do âmbar,
os dias e noites, dispersos
o colar preso no brilho
de um músculo roubado à sombra.

Gil de Carvalho, Viagens: 1978-2008, Assírio & Alvim, 2008.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Lucanus Cervus

A tua boca
é uma curta espera do mundo,
esconde, dos fenómenos, a escada.
O teu voo
outra vez entre imagens uma certa
espera que finda.

Gil de Carvalho, Viagens: 1978-2008, Assírio & Alvim, 2008.

As ânsias de açoitar carne feminina

Desde a morte da filha, que era tuberculosa, não tinha voltado a bater numa mulher. Vivia sozinho. A sua profissão atarefada não lhe consentia tempo para andar com mulheres, incapacitando-o, além disso, para fazer conquistas. Às vezes deslizava a mão por entre a saia de uma criada e beliscava-lhe a nádega, mas fazia-o com tanta seriedade que deitava completamente por terra as suas já escassas possibilidades de êxito. Nunca chegava às palmadas. Havia anos que andava ansioso por açoitar à sua vontade carne feminina.

Elias Canetti, Auto-de-fé
trad.: Luís de Almeida Campos
Cavalo de Ferro

Quarto Crescente

O que Akhbar disse a Naiq Gopaul

1

Os navios conspurcam a cidade, canta
no meu rio, parede alta
será teu o braço a virilha do
tirano, a duração das cheias
no colete azul das raparigas.

Gil de Carvalho, Viagens: 1978-2008, Assírio & Alvim, 2008.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Catulo

É de ler todos os dias.

Sem nome #5

VÁRIA LITERATURA

Dia de festa, existir simplesmente
ter confiança em tudo, ó mundo minha mãe,
lareira prometida nunca alumiada
e tantos gestos empilhados e tijolos
E sobre tudo o resto o vão bocejo e não valer a pena

Ser erva entre o milho e verde vítima do vento
ceifar-nos rente algum olhar de esquecimento
A morte ainda é uma forma eficaz de adormecer
e a virtude é o caminho para quem
não tem outro remédio nesta vida
Mulher como melhor morrer nascer cantar
Itália onde tombar como em qualquer lugar
chorar o mínimo cadáver que passar
e não desperdiçar os dedos pelas coisas
Fazer de um jardim quanta vida se quer
ser o maior responsável por
- eis algumas vantagens da propriedade horizontal


Ruy Belo, Boca Bilingue, Editorial Presença, Lisboa, 1997.

Jonathan Safran Foer, Comer Animais



Um dos livros mais importantes que li. A recensão de J. M. Coetzee é bastante eloquente: "Se alguém continuar a consumir os produtos da indústria depois de ler o livro de Foer, poderá dizer-se que não tem coração ou que é insensível à razão, ou ambos."