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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Antiga Casa Faz Frio

Também a Praça das Flores
«é sempre a despedida da vida»
e eu, delta vez, não a convocarei,
Dona Benilde. Prefiro falar
de quem só apostava
no «tudo ou nada do amor»,
rendendo-se à música da cidade.

É uma estória mal contada,
obviamente. Apareceu-me
de casaco vermelho,
com três maços de cigarros
a brincarem-lhe nas mãos.
Perguntava a quem passava
onde ficava o Chiado,
enquanto a magreza dos seus ombros
incendiava a igreja do Loreto.
Os negros das obras respondiam-lhe
o melhor que podiam, esquecendo
por instantes os rabos e as mamas
que desciam apressadamente para o metro.
Apenas falou, nessa tarde, da crise
do PCP e de gravatas militantes.
Depois morreu, imaculado rasto de cinza
a perder-se no verde corrigido
deste restaurante, onde trapeiros
e limpa-chaminés pronunciam o seu nome.

A si, João César, daria todos os meus cigarros.
Mas agora, suponho, era coisa de pouca serventia.
O marinheiro da entrada manda-lhe saudades.
E olhe que a cozinha está melhor e o tinto
de Trancoso não provoca nem repulsa nem azia.
Mas vai ser tão frio, este Verão.

Manuel de Freitas, Blues for Mary Jane, &etc, Lisboa, 2004 apud AAVV, Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011

domingo, 14 de março de 2010

CCB, 2002

Abrem-se devagar os túmulos
- e entramos neles.
É o nosso ofício, talvez o único.
Esperámos, anos fartos, o vazio.
Não há engano possível,
não há regresso. Todas
as ilhas devagar nos mentem.

Dançava perto de ti,
talvez demasiado só, uma
estrela d'nada, bo dispidida.

Não me digas que não ouviste.

Manuel de Freitas, Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, 2006

B.leza 2000

para a Inês

Pergunto-me, sem razão,
que diferença existe
entre ausência e voz
- um lamento que não previa.
Ou não já. Não assim, pelo menos.

Só me lembro que dançávamos
(é a minha única definição
de felicidade) e que não voltaremos
a dançar. Assim.
Os táxis, no Conde Barão, fingiam não ver
- mas olhavam todos o moído
esplendor do baile, o vestido negro
que inutilmente te cingia.
Despediam-se, como nós, na
ressaca de um tempo ingrato

no fulgor da última manhã.
Não ligues ao tchoro, à voz soterrada
por tão ásperos carris. Não ligues
- coração e deserto rimam
numa língua que desconhecemos.

Manuel de Freitas, Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, 2006

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

IV. Allegretto

Não esperes que te ajude o Cavaleiro
Andante
ou - menos ainda - a música.
Cresceste demasiado, o teu corpo
não cabe no teu corpo e o amor
(ah, o amor) ajuda mas não salva.
- Vem comigo partir estes pinhões,
sob o esboroado cor-de-rosa das paredes.
Os cavalos, acredita, não te farão mal.

Depois das laranjeiras havia um tanque,
depois de um tanque um jardim. Mas,
de pouco te serve dizê-lo, agora que tratas
por tu a mais íntima distância do que foste.

Manuel de Freitas, Beau Séjour, Assírio & Alvim, 2003

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Lagar

As mães, e até as que não eram mães,
achavam salutar que mergulhasses no mosto,
na promessa penas desse vinho tinto
que ao enrijecer os músculos
despertava a alma para infâmias e paixões.

Que diriam agora, se o pudessem dizer,
essas mães? Deixa, qualquer abismo serve:
perdeste a infância e não encontraste o mundo.

Manuel de Freitas, Beau Séjour, Assírio & Alvim, 2003