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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A arte dialéctica é mais bela quando

toma uma alma apta e nela planta e semeia discursos com entendimento – discursos capazes de vir em socorro de si mesmos e de quem os plantou, não improdutivos mas possuidores de gérmen, de que mais discursos nascem em outros temperamentos e podem tornar para sempre essa semente imortal, e assim conceder ao seu detentor o mais alto grau de felicidade que um ser humano pode ter.  
Platão/Sócrates, Fedro, 277a, José Ribeiro Ferreira (trad.), Edições 70, 1997.

sábado, 2 de outubro de 2010

Outra Esparta

Entre os Gregos, a maior e mais antiga filosofia está em Creta e em Esparta, e é lá que está a maior parte dos sofistas da Terra: mas eles negam e fingem ser ignorantes, para que não pareça que era pela sua filosofia que sobressaíam entre os Gregos, mas apenas na luta e na bravura, temendo que os outros, se soubessem em que coisa são excelentes, se dedicassem ao mesmo exercício que eles: a sapiência. São de tal modo dissimulados que enganam os 'espartanos' das outras cidades, que, para os imitarem, furam as orelhas, colocam tiras de couro nas pernas, frequentam os ginásios e usam vestes curtas, pensando que a supremacia dos Espartanos entre os Gregos é devida a tudo isso. Pelo contrário, os Espartanos, quando querem falar livremente com os seus sofistas, e estão fartos de se esconder, expulsam da sua terra esses 'espartanos' ou outros estrangeiros que lá se encontrem para poderem estar com os sofistas sem os estrangeiros darem conta; para além disso, não permitem que nenhum jovem parta para outras cidades, e o mesmo fazem os Cretenses, para que não desperdicem os ensinamentos que receberam.
Ecco, o «contracanto» de Sócrates a Protágoras.
In Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Para aprender esta Ária antes de Morrer

Acho que com o tempo, toda a gente acaba por colocar na sua lista de leitura um livro que sabe que vai demorar muito tempo a ler, mas que ainda assim sabe que tem de ler. O livro que eu ando há muito tempo a ler é editado por um grego (?), Nikos Stangos, e chama-se Concepts of Modern Art: From Fauvism to Post-Modernism.
Este livro, originalmente publicado em 1981 mas com uma reimpressão em 2006 (realizada pela Thames and Hudson), reúne uma série de ensaios acerca dos diversos movimentos e escolas de arte do séc. XX. Este é o meu livro-que-demora-muito-tempo-a-ler porque está fora do meu esquema regular de leitura, porque é um calhamaço, mas não excessivamente grande, e porque é um livro que não pertence às áreas por onde normalmente se movimentam as minhas leituras e curiosidade. Resolvi lê-lo porque me considero francamente ignorante na matéria sobre a qual ele versa e porque é um assunto sobre o qual tenho imensa curiosidade.
Portanto, este livro inclui-se na matéria do livro «supostamente utilitário», o que deve significar que o exercício crítico e descritivo que estes especialistas fazem sobre os «seus» assuntos, e cumpre a função de elucidar quem entra às cegas por um mundo desconhecido, com o qual pretende conviver, que é o meu caso.
Ando a lê-lo há talvez três meses, muito devagar, e sempre que tenho um pouco de tempo entre outras leituras, profissionais e/ou, digamos, sentimentais, pego nele. Acho que aqui se encontra o mesmo mecanismo daquela anedota sobre Sócrates e a ária de música.
Conta-se que Sócrates, antes de morrer, pôs-se a estudar uma ária (creio que) na flauta (acho que é Platão que conta isto na Apologia de Sócrates), e os amigos, escandalizados pois tratava-se dos seus últimos momentos de vida, perguntaram-lhe porque perdia ele tempo com aquilo. Ele respondeu: para aprender esta ária antes de morrer.
Uma curiosidade que pode parecer não servir para nada, mas serve a vontade de não morrer ignorante, de compreender, de aprender constantemente, de passar uma porção de tempo. Creio que isso é o mais atraente no mundo que os livros guardam.