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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sou. 7 (Bêbado e Sem Norte)

Bêbado e sem norte aqui estou eu nesta cidade do Meno
Vírgula de mim próprio num intervalo da respiração
Queria afundar-me neste ar, mas estou aí completamente só
Bêbado e sem norte a sufocar dentro de mim

Ora, Março passa depressa, crescem as trevas
Da noite minha cúmplice tão grande
Nas cintilações, tão pequena assustada pela luz
E eu suo e sofro enregelado neste lusco-fusco

E sou e sou até à exaustão, não sei ser de outro modo
Sem norte e bêbado, apetece-me gritar o que me rói
Me corrói com murmúrios me martela como se eu fosse coisa
Mas ai de mim, eu sofro, de lágrima no vinho

E saio para o grande espaço de entre, frio e aprazível
E - enfim apaziguado - volto a encontrar-me

Robert Schindel, in Telhados de Vidro, João Barrento (trad.), Inês Dias e Manuel de Freitas (dir.),nº 11, Averno, Novembro de 2008.

Sou. 4 (Meio Dia da Vida)

Esta noite, o
Meio-dia da vida. Que
Ímpeto das estrelas
Na espuma dos pensamentos!

A meu lado o livro Hegel palavras robustas
Sobre mim o silêncio, arranhando
As minhas superfícies de uma ponta à outra
Em baixo geme de novo, arrasado,
O Olho-azul, meu animal filosófico

Até que, de Nada em Nada, se anuncia
A vontade nua

Com a luz da manhã escureceu
O meio-dia. Névoas esfarrapadas envolviam a casa.
Estou à janela
Esplêndido sobrevivente e
Bebo já de olhos postos na noite
A sua espuma em cálices
Oferecidos a desoras.

Robert Schindel, in Telhados de Vidro, João Barrento (trad.), Inês Dias e Manuel de Freitas (dir.),nº 11, Averno, Novembro de 2008.