Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Gabriela Llansol. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Gabriela Llansol. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Escrever, para alguns

Por que escreve?
Não há um porquê. Há uma afirmação. Eu só posso dizer "eu escrevo".

E por que é que não pode dizer "porquê"?
Porque se eu respondesse 'porquê' criava uma relação de causa e efeito.
Ora, eu não sinto em mim o porquê de escrever, como eu não sinto em mim o porquê de beber ou o porquê de olhar. Há a constatação de uma realidade: e nasci constitutivamente assim, escrevendo.

Maria Gabriela Llansol
in Jornal de Notícias
(14 de Julho de 1991)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Rimbaud

As noites, as pontes de comboio, a má estrela,
Os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.

As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Terminando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.

Os versos eram uma doença específica do ouvido;
A integridade era de menos; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.

W. H. Auden, O Massacre dos Inocentes (Uma Antologia), José Alberto Oliveira (trad.), Assírio & Alvim, 1994

A propósito de Verlaine acaba-se sempre por falar de Rimbaud, aqui há dias falou-se de Verlaine e lembrei-me deste poema.
Tenho duas traduções de Rimbaud na estante, a de Cesariny de Iluminações e Uma Cerveja no Inferno, tradução do título Une Saison en Enfer e O Rapaz Raro em tradução de Maria Gariela Llansol.
Não sei porquê embirro com as traduções de MGL (todas as que até agora me passaram pelas mãos sem excepção). Enquanto a tradução-versão-interpretação de Cesariny me fez adorar Rimbaud, é um exemplo de um trabalho sobre determinado corpus de texto bem feito e a edição bilingue permite-nos ver onde começa Cesariny e acaba Rimbaud, a de MGL deixou-me a impressão de estar perante uma tradução demasiado presa à língua de partida que por vezes se esquecia da língua de chegada (este pode ser um reparo injusto), e isso também não é bom para o texto traduzido.
Creio que a tradução de Cesariny demonstra que um tradutor pode ser interpretativo sem se esquecer do texto que está a traduzir e, apesar dos desvios, creio que Cesariny nunca se esquece do seu papel de tradutor. O leitor desta tradução assume o acordo tácito (logo ao olhar para o título) de jogar pelas regras do tradutor e a experiência de leitura ganha com isso. Cesariny não tem pretensões a verter literalmente o texto (a própria tradução do título é um trabalho de interpretação) mas tudo isto converge para termos uma excelente versão de Iluminações e Uma Cerveja no Inferno. Com a tradução de MGL sucede um pouco o inverso, um tradutor demasiado preocupado com a língua de partida, o que é legítimo mas também retira «movimento» ao texto em português, olhamos para a edição bilingue ao lado e na tradução temos apenas um Rimbaud mais desengraçado. A tradução perdeu coisas porque o tradutor foi bastante fiel mas esqueceu-se do espírito do texto. Isto não é necessariamente mau, mas o trabalho de Cesariny é melhor, também, trata-se de Cesariny. Neste campo, Herberto Helder fez algo semelhante com os seus Poemas Mudados Para... mas aí já nem estamos no campo da tradução.
De qualquer forma, no caso de ambas as traduções, as edições feitas são bilingues, e a beleza dos textos de Rimbaud resiste (ou é mantida) nas traduções.