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sábado, 11 de junho de 2011
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Virá a morte e terá os teus olhos
Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Desceremos o remoinho mudos.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 1997.
esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Desceremos o remoinho mudos.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 1997.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Fumadores de Papel
Trouxe-me para ouvir a sua banda. Senta-se a um canto
e pega no clarinete. Começa um chinfrim infernal.
Lá fora, um vento furioso e as bofetadas, entre os relâmpagos,
da chuva fazem com que haja cortes de luz
de cinco em cinco minutos. Cá dentro, às escuras,
os rostos transtornados esforçam-se por tocar de cor
uma música de dança. Enérgico, o meu pobre amigo
dirige, lá do fundo. E o clarinete torce-se,
rompe a confusão dos sonos, eleva-se, alivia-se
como uma alma solitária, num silêncio seco.
Esses pobres cobres amolgam-se com demasiada frequência:
camponesas as mãos que primem os registos, camponesas
as cabeças teimosas que mal levantam os olhos da terra.
Miserável sangue, derreado, extenuado
de tanto lidar, sente-se mugir
nas notas, e o meu amigo dirige-os com dificuldade,
ele que tem as mãos calejadas de dar ao formão,
de manejar a galorpa, de dar cabo da vida.
Teve o seu tempo e camaradas e tem só trinta anos.
É dos de a seguir à guerra, que cresceram com fome.
Também ele veio para Turim, à procura duma vida,
e encontrou a injustiça. Aprendeu a trabalhar
nas fábricas sem um sorriso. Aprendeu a medir
pela sua própria fadiga a fome dos outros,
e em todo o lado encontrou injustiças. Tentou ter paz
caminhando ensonado pelas avenidas sem fim
durante a noite, mas apenas viu os candeeiros aos milhares,
lucidíssimos, sobre a iniquidade : mulheres roucas, bêbados,
fantoches cambaleantes, perdidos. Chegara a Turim no inverno,
no meio das luzes das fábricas e das nuvens de fuligem;
e sabia o que era o trabalho. Aceitava o trabalho
como um duro destino do homem. Mas que todos os homens
o aceitassem e houvesse justiça no mundo.
Mas encontrou camaradas. Sofria os longos discursos
e teve de os ouvir, à espera que acabassem.
Encontrou camaradas. Em todas as casas havia famílias.
A cidade estava cercada por eles. Sentiam no íntimo
um desespero tal que chegava para vencer o mundo.
Toca com secura esta noite, apesar dos músicos
que ensinou um a um. Não presta atenção ao fragor
da chuva nem à luz. O rosto severo,
mordendo o clarinete, fixa atento uma dor.
Vi-lhe estes olhos uma noite em que, sozinhos,
com o irmão, mais triste do que ele dez anos,
passávamos o serão a uma luz exígua. O irmão estudava
um torno inútil que ele mesmo construíra.
E o meu pobre amigo acusava o destino
que os tinha atado à galorpa e ao malhete
para sustentar dois velhos que não tinham pedido.
De repente gritou
que se o mundo sofria, se a luz do sol
arrancava blasfémias, não era o destino:
o culpado era o homem. Ao menos pudéssemos partir,
rebentar de fome em liberdade, dizer não
a uma vida que utiliza o amor e a piedade,
a família, o bocado de terra, para nos atar as mãos.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 1997.
Lá fora, um vento furioso e as bofetadas, entre os relâmpagos,
da chuva fazem com que haja cortes de luz
de cinco em cinco minutos. Cá dentro, às escuras,
os rostos transtornados esforçam-se por tocar de cor
uma música de dança. Enérgico, o meu pobre amigo
dirige, lá do fundo. E o clarinete torce-se,
rompe a confusão dos sonos, eleva-se, alivia-se
como uma alma solitária, num silêncio seco.
Esses pobres cobres amolgam-se com demasiada frequência:
camponesas as mãos que primem os registos, camponesas
as cabeças teimosas que mal levantam os olhos da terra.
Miserável sangue, derreado, extenuado
de tanto lidar, sente-se mugir
nas notas, e o meu amigo dirige-os com dificuldade,
ele que tem as mãos calejadas de dar ao formão,
de manejar a galorpa, de dar cabo da vida.
Teve o seu tempo e camaradas e tem só trinta anos.
É dos de a seguir à guerra, que cresceram com fome.
Também ele veio para Turim, à procura duma vida,
e encontrou a injustiça. Aprendeu a trabalhar
nas fábricas sem um sorriso. Aprendeu a medir
pela sua própria fadiga a fome dos outros,
e em todo o lado encontrou injustiças. Tentou ter paz
caminhando ensonado pelas avenidas sem fim
durante a noite, mas apenas viu os candeeiros aos milhares,
lucidíssimos, sobre a iniquidade : mulheres roucas, bêbados,
fantoches cambaleantes, perdidos. Chegara a Turim no inverno,
no meio das luzes das fábricas e das nuvens de fuligem;
e sabia o que era o trabalho. Aceitava o trabalho
como um duro destino do homem. Mas que todos os homens
o aceitassem e houvesse justiça no mundo.
Mas encontrou camaradas. Sofria os longos discursos
e teve de os ouvir, à espera que acabassem.
Encontrou camaradas. Em todas as casas havia famílias.
A cidade estava cercada por eles. Sentiam no íntimo
um desespero tal que chegava para vencer o mundo.
Toca com secura esta noite, apesar dos músicos
que ensinou um a um. Não presta atenção ao fragor
da chuva nem à luz. O rosto severo,
mordendo o clarinete, fixa atento uma dor.
Vi-lhe estes olhos uma noite em que, sozinhos,
com o irmão, mais triste do que ele dez anos,
passávamos o serão a uma luz exígua. O irmão estudava
um torno inútil que ele mesmo construíra.
E o meu pobre amigo acusava o destino
que os tinha atado à galorpa e ao malhete
para sustentar dois velhos que não tinham pedido.
De repente gritou
que se o mundo sofria, se a luz do sol
arrancava blasfémias, não era o destino:
o culpado era o homem. Ao menos pudéssemos partir,
rebentar de fome em liberdade, dizer não
a uma vida que utiliza o amor e a piedade,
a família, o bocado de terra, para nos atar as mãos.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 1997.
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