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domingo, 11 de outubro de 2009

(Lembrei-me disto)

Fala-se em vão de justiça enquanto o maior dos navios de guerra não se despedaçar contra a fonte de um enforcado.

Paul Celan, Arte Poética: O Meridiano e Outros Textos, João Barrento (org. e trad.), Livros Cotovia, 1996.

Afternoon With Circus and Citadel

In Brest, before hoops of flame,
In the tent where the tiger leapt,
there, Finite, I heard you sing,
there I saw you, Mandelstam.

The sky hung above the roadtead
the hull hung above the crane.
What is finit sang, what is constant -
you, gunboat, are called "Baobab".

I saluted the tricolore
speaking a Russian word -
things lost were things not lost,
the heart was a place made fast.

Paul Celan, Poems of Paul Celan, Michael Hamburger (trad.), Persea Books, 1995.

(Neste blogue tem-se transcrito poemas de Mandelstam, lembrei-me disto.)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Conversas com cascas de árvores. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

Paul Celan, A Morte é uma Flor, Livros Cotovia, Lisboa, 1998, (trad. João Barrento)

domingo, 12 de julho de 2009


Quando o general pôs a cabeça ensanguentada do rebelde aos pés do seu soberano, este teve um acesso violento de cólera. "Como te atreves a empestar a sala do trono com o cheiro do sangue?", gritou, e o general estremeceu.
Abriu-se, então, a boca da cabeça decepada e contou a história dos lilases.
"Demasiado tarde", opinaram os ministros.
Um cronista posterior corrobora esta opinião.

Paul Celan, Arte Poética: O Meridiano e outros textos. Cotovia, Lisboa, 1996 (trad.de João Barrento e Vanessa Milheiro, Posfácio e notas de João Barrento)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

De todas as feridas

Lança-me aos pés do coração a luva do silêncio:
Só uma vez no Outono a pedra reverdece - foi ontem;
foi quando o sal nas ruas era tão vermelho,
tão vermelho que se pensaria que era chegada a hora
a que se acena com os véus da meia-noite:
o tempo-de-tulipas dessa hora
em que o desejo enche o copo de toda a gente,
o berço e o caixão de toda a gente,
as pegadas de toda a gente -
a hora que liberta do gelo o teu olhar,
te faz arregaçar a tua sombra
e arranca aos sinos o seu silêncio quando danças.

Lança-me aos pés do coração a luva do silêncio:
foi ontem
e jaz no sangue com nós dois.

Paul Celan, A Morte é uma Flor, João Barrento (Trad.), Livros Cotovia, 1998.
O MEU PESO
nas tuas mãos a-
bertas:
a paciência in-
sonora do meu desespero.

Paul Celan, A Morte é uma Flor, João Barrento (Trad.), Livros Cotovia, 1998.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ORVALHO. E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,

nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:

O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.


Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, J. Barrento, Y. K. Centeno (edts.), Livros Cotovia, 2006 (3ªed.).
TU ERAS a minha morte:
a ti podia agarrar-te
enquanto tudo me fugia.


Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, J. Barrento, Y. K. Centeno (edts.), Livros Cotovia, 2006 (3ªed.).
SÓIS DESFIADOS
sobre o deserto cinzento-negro.
Um pensamento alto-
como-árvore
capta o tom da luz: ainda
há canções para cantar do outro lado
dos homens.

Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, J. Barrento, Y. K. Centeno (edts.), Livros Cotovia, 2006 (3ªed.).
NOS RIOS a norte do futuro
lanço a rede que tu
hesitante afundas
com sombras escritas por
pedras.

Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, J. Barrento, Y. K. Centeno (edts.), Livros Cotovia, 2006 (3ªed.).