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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quando o tempo é de Setembro

Quando o tempo é de Setembro
um tempo rente
quando as mãos se alongam deslocadas
no córrego da luz e os dedos tocam
o imparável refluir dos horizontes
e as vozes tentam assomar
por sobre o levantar das vagas
flexão de dorsos e o alastro de
manchas brancas em uma pele azul
esteira de veias deslaçadas ao ímpeto
daquele querer cercado, daquele
poder sem outro por que
assim se vergue;
e repetido

no terraço, à tarde
um tanto clamor se enlaça um ser-passado
por entre a humidade ácida,
a oxidação dos ossos

foram mãos espalmadas contra a luz
passos sem peso e sem sandálias
no terraço, tempo óxido e ido

delido país - por entre camarinhas,
carreiro de sapos que a noite dava
à contemplação

Maria Andresen de Sousa, Lugares, Relógio d'Água, 2001

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Maria Andresen, Dies Irae I

A natureza é escassa e o sol quando brilha é baço;
é furtiva por aqui a alegria
quando quase sem aviso nos visita

há um foco de luz a desenhar o mundo

a luz fría, a luz do desassombro:
porque a morte de Herlofs Marthe
soa e contagia

vai manhã alta no coração de Anne
e altas são as chamas do castigo
— aqui o sol é frio —
assombra-nos como um canto de rotina
Herlofs Marthe e o seu dom pressagiante

a sentença avançará com a sua luz contida
com a sua faca propícia
a sentença avançará na sua forma fria

só Anne convoca o amor, o venenoso amor
e com Martin assim caminha sobre pedras —
ao longe, o som do machado corta frio o ar

Maria Andresen, Lugares 3, Relógio d'Água, Lisboa, 2010 apud AAVV, Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011