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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Jardim

Rue Jean Rieux

Quem me leva penetra na neblina que perde
às vezes nossos passos, nossos lábios confunde
com um bafo de outono e descobre a prata
regelada da relva e o ouro das folhas.
Sem ninguém o jardim range, com seu frio.
Há uma árvore, de súbito, que estala em fruto e luz?
À espera de um deus desconhecido, alguém
esta noite, comigo, morrerá corpo a corpo.

María Victoria Atencia, Antologia Poética, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 2000

terça-feira, 17 de maio de 2011

O peso

Voltarei a evocar-vos num país sem neblina,
desolação de instantes, rapto
de beleza, razões em meu rumor de vida;
voltarei a evocar-vos, nem sequer vosso peso
será em meu pescoço o peso de uma pedra
mas a mera sombra de uma só palavra.

María Victoria Atencia, Antologia Poética, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 2000

domingo, 15 de maio de 2011

Paolina Borghese

Canova

Na noite fende o teu perfil egrégio,
agora que o cervo brama no jardim aqui próximo,
e atravessa o cerco do loureiro que abraça
o teu mármore despido: não há um rio
que te afogue a cintura, uma água cálida.
Salta da cama, caia teu diadema,
foge até ao prado. Gesualdo di Venosa
ouve-se em seu clavicórdio.
A perfeição possui vocação de desordem.

María Victoria Atencia, Antologia Poética, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 2000

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Assuntos

Depois saberei quem sou, quem me tem ou que tenho
neste desmembrar-me ao poente, o ouvido
na almofada apoiado para escutar a noite;
ou neste despertar com a nuca apertada.
Oh solidão sem par, carência desse trecho
de tempo intransferível, após anos demais
e quarenta, a buscar-me; após tão longas noites
que em realidade - sei hoje - foram a minha vida.

María Victoria Atencia, Antologia Poética, José Bento (trad.), Assírio & Alvim, 2000