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domingo, 29 de novembro de 2009

Sem Outro Intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Uma Candeia

Poisei na margem desta folha uma candeia, para que se tornassem mais claras as palavras deste texto. Uma candeia também ela feita de palavras e que, contrariamente às aparências, não está na margem mas dispersa nas palavras, de tal forma que, se eu falar das praias, por exemplo, o próprio olhar dos leitores torna visíveis os contornos dos banhistas.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

De vez em quando

O mar, se acaso alguém
fechando a mão o faz como se às praias
assim o subtraísse, o mar ligado
por cem mil cordas ao meu leito,

reduz-se a poucas vagas; porque há poros
na pele onde por onde o espírito goteja, há também quem
da parte envidraçada do seu espírito
de vez em quando as veja rebentar.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Em entrelinhas

Tem furos na consciência, este rapaz. Tem a memória em cacos. Que fará da minha infância quando entrar nesse rasgão com que deu a todo o comprimento dela? Que sabe ele do labirinto onde uma letra se extravia ou do horizonte em que pressinto um sublinhado? Ignoro o que ele fará, bem como o que dirá ao ver num poema o céu em entrelinhas.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

University Parks

Do céu pende a folhagem.
A miúda angústia a que
de novo apoio os cotovelos
adquire aqui tonalidades de ouro.

Passaram cães que pareciam cabras.
Por entre os vidros
inquietos dos meus óculos, o verde
das folhas tinge o coração.

Nas ervas
que crescem do meu espírito
pequenos animais escondem o focinho.

O mar vem agarrado à luz. As árvores
desafiam o sol como se nele
tivessem raízes enterradas.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

domingo, 22 de novembro de 2009

O Real

Levado e revolvido pelas vagas
do real, estou como uma mesa posto até aos ossos,
empresto à página os meus ossos e ao escrever
é como se tivesse a mão dentro de um espelho.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002

Há uma pedra feroz

Há uma pedra feroz,
um rapaz,
há o olhar do rapaz atado à pedra,
o olhar do rapaz, a minha casa,
o olhar do rapaz às vezes é a pedra.

Luís Miguel Nava, Poesia Completa: 1979 - 1994, Publicações D. Quixote, 2002