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domingo, 17 de julho de 2011

L123 ou o que as beldades lêem no comboio

Ia absorvida num livro de bolso, cuja natureza instintivamente conjecturei: era Rilke ou Baudelaire, ou quiçá Pascal, a avaliar pela expressão concentrada e meditativa do seu rosto amoroso.
De repente, dois olhos de lince, cinzentos e requintadamente enviesados, ergueram-se da página e fixaram-se em mim, durante uma longa e intencional mirada escrutinadora que me pôs os joelhos a tremer como caldo de gelatina. Teria ela adivinhado a minha adoração, através do seu telepático sentido feminino? Devia eu avançar, requisitar-lhe o livro e ler-lhe em voz alta uma passagem, um trecho que para sempre nos tornasse inseparáveis almas? Antes porém de eu poder agir, o caso rumou sozinho. O comboio parou na estação da Rua 34, ela levantou-se, arrumou o livro na carteira, e vi então que era a Arte de Amar, de Ovídio.

S. J. Perelman, O Mundo de S. J. Perelman, trad. de Júlio Henriques, Tinta da China, Lisboa, 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

a rua das musas

Numa palavra, o que eu desejaria (porque gosto de ser franco em assuntos de tanta importância para o meu País) é que se algumas travessas e becos desta cidade fossem transformados, a expensas do público, em aposentos das musas (como em Roma e Amesterdão existem as ruas das mulheres), reservados aos nossos belos talentos e guarnecidos do necessário: autores, revisores, tipografias, impressores, vendilhões, lojas e armazéns, abundância de águas-furtadas e outros instrumentos e acessórios do espírito. A vantagem disto seria, é evidente, passarmos a ter um repositório seguro para as nossas melhores produções, que passam hoje de mão em mão em simples folhas impressas ou manuscritas, com o risco de se perderem (o que seria forte pena) ou, pelo menos, de se verem sujeitas, tal o seu desnudamento, a sofrer, como as mulheres belas, os mais graves insultos.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

segunda-feira, 11 de abril de 2011

o ofício da musa

Enfim, será da maior sabedoria começar por conseguir, a tempo, um bom ofício para a sua musa, de acordo com a habilidade e aptidões dela: pode ser leiteira, cozinheira, ou mulher a dias; quero dizer, alugar a pena a um partido que lhe garanta salário e protecção; e quando se tratar da saída de um livro seu (como isso demorará) arranje um daqueles amigos importunos que lhe arranque as produções com simpática violência; as quais, de acordo com o combinado, deverá entregar «digito male pertinaci»: é uma atitude decente, como prova de modéstia, porque convém tanto a um autor tomar parte na publicação das suas obras como a uma mulher, em trabalhos de parto, desembaraçar-se sozinha.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

sábado, 9 de abril de 2011

o sacerdócio da poesia

Na verdade, como outrora ser poeta e sacerdote eram uma e a mesma função, a aliança desses ministérios mantém-se, felizmente, nas mesmas pessoas; esta, suponho, a única razão defensável para o chamamento que eles tanto prezam, quero dizer, o modesto título de «divino poeta». Seja como for, por jamais ter assistido a uma cerimónia de ordenação no sacerdócio da poesia, confesso não ter a menor ideia da coisa, pelo que nada mais posso dizer aqui.

Jonathan Swift, «Carta de Aviso a um Jovem Poeta», Preceitos para Uso do Pessoal Doméstico e Outros Textos, tradução de João Fonseca Amaral, Editorial Estampa, Lisboa, 1986

domingo, 10 de outubro de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um Conto Feliz da Infância: Endrémia e Liasão



Endrémia e Liasão
(da mitologia grega)

Endrémia era filha de Poligaminos, deus da Ensilagem, e de Reba, deusa do Alcaçuz. Era o rebento de uma união infeliz, como mais tarde se soube, porque, quando era ainda pequenina, o pai bateu na mãe com uma bigorna e transformou-se em lírio, para evitar a vingança de Júpiter. Júpiter, porém, era demasiado astuto para Poligaminos e derrubou-o com uma faísca do tamanho do prédio do Banco dos Retalhistas, coisa que o fez desequilibrar-se por completo e o levou a cair no abismo e a esbarrar na morte.
Enquanto isso, a pequenina Endrémia viu-se sozinha no mundo, sem ninguém que lhe acudisse, excepto Endrócina, deusa da Alface, e seu filho Bilás, deus da Goma Arábica. Mas, como Poligaminos (seu pai; já se esqueceram, seus palermas?) havia transformado Endrémia em cogumelo antes de ele próprio se transformar em lírio, nenhum dos seus protectores sabia quem ela era, por isso, de nada lhe valia tal protecção.
Júpiter, todavia, não esquecera tão depressa a filha da sua favorita (Reba), e apareceu-lhe uma noite, em forma de colector de cogumelos, perguntando-lhe se ela gostaria de sair daquela árvore (ela era um cogumelo dos que crescem nas árvores) e entrar para dentro do cabaz que trazia na mão. Endrémia, ignorando que era Júpiter quem tal lhe perguntava, pouco disse. E então Júpiter, soltando a sua ira poderosa, derrubou a árvore toda, com uma faísca que trouxera para o caso de Endrémia não ouvir a voz da razão.
É por isso que não é prudente comermos os cogumelos que crescem nas árvores ou recusarmos entrar para dentro do cabaz de Júpiter.

Robert Benchley, «Contos Felizes da Infância», Wit: ensaios humorísticos, Tinta da China edições, Lisboa, 2010 (trad. de Júlio Henriques).