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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Nadar no Tibre

Horácio, o poeta latino, costumava dizer que as armas dele eram as palavras. Chegou a ter de procurar um jurisconsulto porque o uso que fazia das suas armas o havia metido em sarilhos. O jurisconsulto aconselhou-lhe que deixasse de escrever. Horácio disse-lhe: caro Trebázio, não pode ser, se deixo de escrever deixo de dormir. Ao que Trebázio lhe responde: então deixa-te de sátiras, escreve uma épica, honra Augusto. Horácio contrapõe: Meh, gasp, épica não é o meu tipo de coisa. Sabe-se que Horácio recebeu o perdão de Augusto e viveu em cordiais relações com o imperador, mas nunca aderiu verdadeiramente ao seu plano político, o que é honesto, tendo em conta que na juventude Horácio tinha combatido em Filipos no partido de Bruto e Cássio - Horácio diz ainda a Trebázio que sempre preferiu escrever poesia em contraponto à épica, que é a forma que lhe convinha. Então Trebázio responde: vai nadar para o Tibre, nadar no Tibre é o que tu precisas, isso há-de dar-te sono.
Bom, perdeu-se um potencial nadador da Antiguidade.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pôr-do-sol em Fossoli

Ontem chegou-me a casa um livro de poemas de Primo Levi. Tinha-o encomendado há tanto tempo que entretanto me esqueci que o tinha encomendado. Quando o abri, dei com um poema com uma alusão a um poema de Catulo. Isto foi bom, porque me permitiu fazer um post para aquele blogue feito por um grupo de tarados das clássicas de que faço parte (do blogue e do grupo de tarados, evidentemente) e porque me lembrou de três versos que são o carpe diem de Catulo. Ao contrário de Horácio, que era um tipo às vezes económico e só precisou de duas palavras para dizer uma coisa, Catulo precisou de três versos. À parte querer dizer que Catulo era um poeta palavroso, que não quero porque não era, acho até que à sua maneira Catulo era o James Dean em modo Fúria de Viver dos poetas romanos, a minha atenção ficou presa aos três contextos dos poetas, a evocação do mesmo sentimento em três modos diferentes. Horácio pode escrever apenas carpe diem por muitos motivos que agora não vêm ao caso, mas penso que sobretudo porque ele é o homem a quem Augusto perdoa Filipos e a quem concede as condições para uma vida boa. Catulo, anterior a Horácio, cumpriu o lema que se associa a James Dean, live fast, die young, e, excessivo como era, excessivo como um poeta romântico, no mesmo poema em que pede à amante que lhe dê um milhar de beijos e depois outro milhar, há também esta espécie de momento de silêncio que só existe nos melhores poemas (um acender de uma única luz no escuro) que o faz dizer sóis podem pôr-se e tornar a nascer/ para nós quando morrer a breve luz/ deveremos dormir uma noite perpétua. Catulo deixa de fora propositadamente o que diz Horácio, isto fica implícito, é mera alusão. Primo Levi, por sua vez, é um homem de outro tempo e de outro contexto, por linhas de arame farpado (de um campo de concentração) ele viu o sol caminhar para o ocaso e sabe o que significa não regressar. A contemplação não é apenas estética é antes e sobretudo ética, a compreensão dessa urgência de um modo mais literal e mais terrível do que essa certeza o fora ou podia ter sido para Horácio ou Catulo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Odes, I.11

Tu não perguntes (é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

Horácio, Odes, Pedro Braga Falcão (trad.), Livros Cotovia, 2008

(É inútil dizer que o colhe cada dia é o carpe diem. Certo?)
Justificar completamente

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O Juízo de John Donne sobre Shakeaspere

Se um pintor quisesse juntar a uma cabeça humana um pescoço de cavalo e a membros de animais de toda a ordem aplicar plumas variegadas, de forma que terminasse em torpe e negro peixe a mulher de bela face, conteríeis vós o riso, ó meus amigos, se a ver tal espectáculo vos levassem? Pois crede-me, Pisões, em tudo a este quadro se assemelharia o livro, cujas ideias vãs se concebessem quais sonhos de doente, de tal modo que nem pés nem cabeça pudessem constituir uma só forma. Direis vós que «a pintores e poetas igualmente se concedeu, desde sempre, a faculdade de tudo ousar». Bem o sabemos e, por isso, tal liberdade procuramos e reciprocamente a concedemos, sem permitir, contudo, que à mansidão se junte a ferocidade e que associem serpentes a aves e cordeiros a tigres. (...)
Em suma, faz tudo o que quiseres, contanto que o faças com simplicidade e unidade.

Horácio, Arte Poética, R. M. Rosado Fernandes (trad.), Editorial Inquérito, 2001.

É neste tom que abre o poema em verso que Horácio dedicou, possivelmente numa data posterior a 14, 13 a.C., aos Pisões, de tal forma que a sua Arte Poética é também conhecida como Epístola aos Pisões.
Enquanto na Poética, esse bloco de notas de Aristóteles, encontramos uma reflexão sobretudo teórica, virada para questões de teorização dos géneros e relativas a uma problemática das artes miméticas (de um modo muito geral), a Arte Poética é bastante prática: como escrever isto ou aquilo ou como não o escrever. De certa forma, pode-se dizer que é uma espécie de curso de Práticas de Escrita mas escrito por um dos maiores poetas da literatura latina e um dos mais influentes a moldar o imaginário poético da literatura ocidental.
Para mim existem três livros acerca de teorização poética na antiguidade que devem forçosamente ser lidos por alguém que se interesse por literatura ou por escrita: Arte Poética de Horácio, Poética de Aristóteles e o Íon de Platão. Podemos sempre querer escapar a tudo o que eles lá dizem, mas devemos conhecer estas obras, porque Platão, Aristóteles, Horácio fixaram e debateram as mesmas questões em relação à literatura que ainda hoje são debatidas por nós. Fizeram-no com uma acuidade notável e muita da nossa problematização (e dos nossos problemas) em relação à literatura são herdeiros deles: o que diferencia tragédia de épica? como , admitindo que existe uma fórmula, se deve escrever poesia e o que é poesia? há um poder pernicioso que torna a literatura «menos recomendável»? os poetas devem ser proscritos, banidos (aqui já estamos sobretudo no domínio da República mas também do Íon, que é dos três livros que indico o meu favorito) da cidade, por uma influência perniciosa que com as suas obras possam exercer? por que é que os homens apreciam tanto as artes miméticas? por que é que gostam de ver imitações de sofrimento?
Estas perguntas, que tipos como Platão, Horácio, Aristóteles colocaram, acabaram por nomear, delimitar e fixar o campo do nosso fascínio pela literatura, em toda a extensão do seu poder e influência. Definiram-na e fizeram dela uma arte. E não foi uma definição pacífica e regular, porque os homens e as suas paixões são sempre os mesmos, variando algumas condições consoante a época.
A estes três livros, de modo a traçar a influência e a história da discussão teórica da literatura na antiguidade, eu juntaria mais alguns, que ajudam a colocar a questão em perspectiva: alguns livros da República (de Platão), a Retórica (de Aristóteles, que detém o recorde de absoluto de livro-mais-escruciante-que-alguma-vez-tive-de-ler-na-vida) e creio que, ainda que para alguns um pouco à margem, entra nesta discussão o Do Sublime de Longino.
Não sou daquelas pessoas que têm a ilusão de que não se pode discutir literatura sem ler isto. Tal como não me conto entre aquelas pessoas que acreditam que é necessário ler Homero para escrever excelente poesia, embora ache que ajuda. Mas estas obras, de nomes tão pesados como Platão, Aristóteles, Horácio, Longino, ajudaram a explicar e a moldar o fascínio dos homens pela literatura. Ao nomeá-lo, criaram-no e ajudam-nos, hoje em dia, a saber o que estamos a discutir, quando discutimos uma fronteira de género ou se tal ou tal peça é uma tragédia ou uma comédia. Toda a literatura é um movimento de continuidade (mesmo onde há ruptura) e o mesmo sucede com a teoria literária. O romance foi durante séculos um género «proscrito», «novo», porque Aristóteles não o contemplou na sua teorização (à data o romance não existia).
Por vezes, sinto uma imensa curiosidade em saber o que ele teria escrito acerca do romance, trata-se, um pouco, do mesmo mecanismo que Borge nomeia, ao aludir à curiosidade que sentia em saber o juízo de John Donne sobre Shakespeare.