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sábado, 7 de novembro de 2009

Hamlet

Tudo se cala. E subo para o palco.
Encosto o ouvido à porta, pressentindo,
No rumor surdo de uma voz longínqua,
Já o eco de tudo o que me aguarda.

A noite negra fez de mim seu alvo,
Sobre mim cem binóculos lançou.
Abba, ó pai, se acaso, ainda podes,
Ordena que este cális me não caiba.

É certo no entanto que me agrada
O papel que me deu teu duro intento.
Outro drama, porém, preenche a cena:
Dá-me por esta vez a liberdade.

Mas a ordem dos actos foi pesada
E o desfecho também, sem remissão.
Só. E os fariseus, senhor's em todo o lado.
Viver é mais que atravessar um campo.

Boris Pasternak «Versos de Iuri Jivago», O Doutor Jivago (1957) in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras 165, David Mourão Ferreira (trad.), Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro-Dezembro de 2003.

As Traduções de David Mourão-Ferreira

Entre os números 163 a 165 a Colóquio-Letras encarregou-se de criar uma série que reúne as diferentes traduções de poesia de David Mourão-Ferreira. A série intitula-se Vozes da Poesia Europeia (I,II e III) e reúne um largo número de poetas. De Homero a Valery passando por Antonio Machado (este era aquele poeta espanhol que também criou uma série de personalidades literárias muito semelhante aos heterónimos de Pessoa) ou Rilke ou (poesia atribuída a) Poliziano.
Do número 163 ao 165 viajamos em diacronia pelas diferentes vozes poesia europeia que David Mourão-Ferreira quis traduzir, começando na antiguidade e terminando no séc. XX.
Trata-se de mais um daqueles casos em que a selecção antológica vale a pena não só pelo número de poetas que reúne mas também para observarmos as decisões do tradutor/organizador.
Os números contam com ilustrações de Nuno Veigas.