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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Questões de semântica















Tenho na cabeça o embrião de um texto sobre o venerando imperador (não tão venerável) Gaio (Calígula). O embrião da ideia deve ter aparecido há talvez um ano. Tem que ver com uma questão absolutamente vital sobre o senhor mas cujo conhecimento depende apenas do modo como se escolhe interpretar um termo que surge na única fonte directa para o seu principado: este termo pode ser traduzido à luz do que disse outro historiador sobre o contexto de que o passo fala, ou de modo isolado e independente, como se não soubéssemos nada do que o outro disse.
E depois há a melancolia de que se embebe este tipo de exercício. Que as maiores disputas de poder, os maiores arroubos de vontade, de violência, de ternura, que moveram e afectaram as vidas de tanta gente (quanta nunca saberemos) se reduzam a pó. E reduzidos a pó sejam só matéria de discussão para uma rapariguinha rodeada de livros no canto poeirento de uma biblioteca. Questões de semântica. Menos do que o ténue indício de uma pegada. Saber talvez seja uma das paixões mais fortes, mais exigentes e interessantes, mais significativa por causa daquilo que pode pôr em movimento. É também, em alguns contextos, uma das mais tristes.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Da sorte

Calígula, imperador de Roma, escreveu em 40 uma carta ao seu legado na Síria em que lhe recomendava vivamente o suicídio. Petrónio, o senhor em causa (não é o mesmo que escreveu o Satyricon), tentara evitar a revolta que se daria na sua província caso cumprisse a ordem do seu imperador e atrasara a execução da ordem que dele recebera, a saber, erguer uma colossal estátua do dito, disfarçado de Zeus Epifânio no Templo em Jerusalém, o que constituía a máxima violação do carácter sagrado, para os Judeus, da terra da Palestina e implicava a imediata dessacralização desse que era o mais sagrado dos lugares, o Templo.
Ora Josefo conta-nos (Antiguidades Judaicas, Livro 18, §305) que o navio que transportou esta carta foi tão lento a navegar que Petrónio só recebeu a missiva depois de já ter recebido uma outra, que lhe dava conta de que Gaio tinha sido morto em Roma por Quereia & Co.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

He had it coming

Now, although Caius [Calígula] had sometimes put on women's clothes, and had been wrapped in some embroidered garments to them belonging, and done a great many other things, in order to make the company mistake him for a woman; yet did he, by way of reproach, attribute the like womanish behavior to Cherea.

Josephus, Jewish Antiquities, XIX, 30. The New and Complete Works of Josephus, William Whiston (trad.), Paul Meyer (com.), Kregel, 1999.

[Cássio Quereia serviu como centurião no exército, sob o comando do pai de Calígula, Germânico, e tornou-se mais tarde guarda do pretório. É ele o responsável pelo assassinato de Calígula, em 41.]

terça-feira, 6 de abril de 2010

Petrónio, legado da Síria

Em 39-40, Calígula ordenou que se erguesse uma estátua sua no Templo em Jerusalém. Este acto, em si, implicava a profanação da sinagoga, que deixava automaticamente de ser um espaço sagrado.
Tendo ordenado ao legado da Síria, Petrónio, que procedesse às diligências necessárias para a construção da estátua, este imediatamente se apercebeu que a comunidade judaica de imediato se revoltaria contra este acto.
Petrónio era um homem prudente e resolveu atrasar o mais possível a colocação da estátua no Templo. Ordenou a escultores em Sídon que produzissem uma estátua magnificente. Disse-lhes que o tempo não era problema. Entretanto, destacou duas legiões e uma imensa força para auxiliar estas e deslocou-se a Ptolemaïs. Não é possível determinar a data exacta em que Petrónio terá chegado a esta cidade com o seu exército. Muito provavelmente no Inverno de 39.
Milhares de judeus de todas as classes sociais dirigiram-se a Ptolemaïs para implorar a Petrónio que não violasse os costumes dos seus antepassados. Disseram-lhe que, se ele estava determinado a cumprir a ordem de Calígula, eles preferiam ser mortos pelos soldados romanos a submeterem-se à violação das suas leis ancestrais. Disseram-lhe que enquanto estivessem vivos não aceitariam semelhante profanação. Petrónio encolerizou-se: que não era ele o imperador e que era obrigado a cumprir as ordens que lhe eram dadas.
Os judeus responderam-lhe que, tal como ele não podia desobedecer às ordens do imperador também eles não podiam violar um mandamento de Deus.
A história acaba bem. Instado pelo rei Agripa I, seu amigo de longa data e neto de Herodes (o Grande), Calígula acabou por ceder, ordenando que, se a estátua ainda não tivesse sido colocada no Templo até à chegada do emissário com a ordem que anulava o primeiro decreto, não fosse de todo colocada. Se já lá estivesse, deveria ficar onde estava.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Das relações imperiais

De acordo com Suetónio, Tibério dizia de Calígula que este era não só a sua perdição mas a perdição de todos, e que estava a criar uma «hidra para o povo romano» e um «Faetonte para o universo».
Uma coisa que sempre me fez uma confusão desgraçada é que, se Tibério tinha semelhante estima por Calígula, por que não just... put him out of the way? Não se sabe. É daquelas coisas na história do império romano que nunca saberemos, está na mesma linha de perguntas como: porque é que Aníbal não marchou sobre Roma no exacto instante em que venceu Canas?
Adiante. Sabemos apenas que Tibério, para um gajo que coroava o filho adoptivo de semelhantes epítetos, fez uma coisa muito esquizofrénica. Nomeou o seu neto natural, Gémelo, e Calígula, um adoptado, herdeiros em partes iguais dos seus próprios bens e, ao mesmo tempo, herdeiros dos bens um do outro, o que gerava um impasse na sucessão ao império. Se apenas um herdasse o que era de Tibério, ou se um herdasse uma parte de leão, toda a gente saberia que era esse que Tibério pretendia para seu sucessor. Mas não foi isso que sucedeu. Tibério morreu sem se decidir.
À morte de Tibério, Calígula foi ao senado, fez uma fita desgraçada, disse que gostava do irmão como um filho, mas que o moço ainda era muito novo (como se pode ver, uma diferença brutal de idades, um com 18 outro com 25) e que pretendia adoptá-lo, ficando ele a reger o império, embora os amigos pessoais do imperador argumentassem que devia haver uma divisão efectiva de poderes.
Isto dá-me vontade de especular uma ou duas coisas, nomeadamente saber se Tibério poderia estar a intuir, ao gerar este impasse, um sistema parecido com a tetrarquia, ou seja terminar com a concentração de poderes numa só figura, separando os poderes talvez entre um Augusto e um César. Mas não é possível de facto saber. O que sabemos é que Calígula, very smoothly e um pouco mais tarde, forçou Gémelo a cometer suicídio.