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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Autêntico real absoluto

Ao contrário dos professores, penso que a poesia é a arte de traduzir em palavras a possibilidade do absoluto. Relativo é o que está mais ou menos à mão e ao alcance de todos. E se não se quer o absoluto para quê então tanto queixume, tantos gemidos, tantas reivindicações? Não há falta de relativo, de literatura sobre isso, de distribuidores disso ao domicílio.
A poesia, que não se queixa, que não geme, que não reivindica, ou seria um partido político qualquer, e não poesia, é afirmação em todas as circunstâncias. Contra as aparências do pensamento, contra as aparências da cultura, contra as aparências da sociedade. Disse-o Novalis de uma vez para sempre: a poesia é o autêntico real absoluto.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.

domingo, 1 de maio de 2011

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva de uma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pátria

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria

António José Forte, in «Desobediência Civil», Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma faca nos dentes

...gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Pareceria A. M. Pereira, 2003.