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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Salmo de David

Na casa de um enforcado é proibido dizer que a corda
vai atrás do balde. Não é vacuidade a mulher sucumbir ao feitiço
de uma sombra nocturna e oferecer o seu corpo a um menestrel,
em Adulam, ou aqui, nos vales
do Butão. Na tua idade, David, o dos belos olhos não tocava harpa,
mas fazia dançar as gazelas ao som da flauta. E foi assim
que atraiu Mical, Aquinoam e a mulher de Carmel, como com uma corda.
Um instrumento tão banal, mas as moças não resistiam à sua estranha
e plangente melopeia, ao diabrete ruivo que dançava e saltitava
e apascentava o seu rebanho entre os lírios, corria atrás do vento
e desflorava as mulheres, cuja carne febril se arrepiava
sob a sua mão untada de gordura e do sangue dos heróis, hábil na funda.
E assim vadiou, matou, amou, derrotou dezenas de milhares,
e se fez rei. Passados muitos anos, naquele carvalho, a corda
foi atrás do balde. Depois veio o luto. A casa de um enforcado.
A harpa dos salmos. E, por fim, a faca. Como o dia se fanou. Passou.
Agora é tudo pó.

Amos Oz, O Mesmo Mar, Lúcia Liba Mucznik (Trad.), Edições Asa, 2007.

Não longe da árvore

Uma maçã cai não longe da árvore. A árvore ergue-se
à cabeceira da maçã. A árvore amarelece e a maçã escurece
a árvore perde as folhas húmidas. As folhas espalham-se
sobre a maçã e o vento dispersa-as.
Vem o inverno passa o outono a árvore é carcomida a maçã
apodrece. Virá daqui a pouco. Virá com dor.

Amos Oz, O Mesmo Mar, Lúcia Liba Mucznik (Trad.), Edições Asa, 2007.

domingo, 4 de outubro de 2009

Vem-me o desejo

É noite. A chuva cai nos montes nus do deserto. Argila, silex e o cheiro
do pó molhado de um Verão tórrido. Vem-me o desejo de ser
o que teria sido se não soubesse o que se sabe. Ser antes de saber.
Como os montes. Como uma pedra na face da lua.
Pousado ali, quieto e confiante
na longevidade da estante.


Amos Oz, O Mesmo Mar, Lúcia Liba Mucznik (Trad.), Edições Asa, 2007.

Bem-aventurado

Doce é a luz e agradável aos olhos. A escuridão lê no coração. A corda
foi atrás do balde. Na fonte se perdeu o cântaro. O humilde aldeão
que nunca chegou a sentar-se na roda dos zombadores morrerá
em Agosto de cancro do pâncreas. O polícia que gritou agarra o lobo
morrerá em Setembro de ataque cardíaco. O olhar dele era doce
e doce é a luz, mas os olhos dele já não são e a luz permanece.
A roda dos zombadores foi encerrada, e no seu lugar
abriram um centro comercial. Os zombares faleceram. De diabetes.
De doença dos rins. Bem-aventurada a fonte. Bem-aventurado o balde.
Bem-aventurados os pobres de espírito pois herdarão o lobo.

Amos Oz, O Mesmo Mar, Lúcia Liba Mucznik (Trad.), Edições Asa, 2007.

Azeitonas

Porque o sabor forte daquelas azeitonas longamente marinadas
em azeite e dentes de alho, sal, limão, pimenta e folhas de louro,
exala por vezes uma aragem do passado: barrancos de pedra,
um rebanho, sombras e o som de uma flauta, um sopro melodioso
do fundo dos tempos. A frescura de uma gruta, uma cabana escondida
no fundo da vinha, um abrigo na horta,
uma fatia de pão de cevada e água da fonte. É daí que vens. Transviaste-te.
Aqui é o exílio. Quando a tua morte chegar, pousar-te-á no ombro
uma mão omnisciente, vem, chegou o momento de voltar para casa.

Amos Oz, O Mesmo Mar, Lúcia Liba Mucznik (Trad.), Edições Asa, 2007.