quarta-feira, 10 de março de 2010

Catulo X

o meu querido Varo, para que a sua amada
eu fosse conhecer, arrastou-me do foro onde passava o tempo:
era uma putazinha — assim à primeira vista me pareceu —
a que não faltavam graça e encanto.
logo que lá chegámos conversámos 5
sobre vários assuntos, entre os quais que novas havia
da Bitínia, como tinha corrido tudo por lá,
quanto tinha eu lucrado com o passeio.
respondi-lhe a verdade: que lá nada havia, nem para os habitantes,
nem para os pretores e muito menos para os da sua comitiva; 10
como havia alguém de trazer a cabeça mais perfumada,
sobretudo quando o pretor é para ele
um filho da puta e não liga nenhuma à sua comitiva!?
“mas certamente porém” disseram “compraste
o que se diz ser a especialidade local, 15
homens para transportar a liteira.” eu, para perante a moça
me fazer passar por mais ditoso,
respondi: “a coisa não me correu assim tão mal
que, ainda que tivesse ido parar a uma má província,
não conseguisse arranjar oito homens jeitosos.” 20
mas eu não tinha um único, nem cá nem lá
que o pé partido do meu velho catre
pudesse colocar ao pescoço.
então ela, como a grandessíssima puta que era,
disse: “peço-te, meu caro Catulo, que por um instante 25
mos cedas; é que desejo ao templo de Serápis
levá-los.” “alto lá!”, respondi à moça,
“isso de eu dizer que eram meus
foi um engano! o meu camarada
Cina… Gaio Cina… ele é que os arranjou para si. 30
na verdade, sejam dele ou meus, que diferença faz?
sirvo-me deles como se tivesse sido eu a comprá-los.
mas tu bem tola e inconveniente és
por não permitires o mínimo descuido.”

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