1
A angustiante questão
se é a frio ou a quente a inspiração
não pertence à ciência térmica.
O raptus não produz, o vazio não conduz,
não há poesia no sorvete ou no espeto.
Tratar-se-á antes de palavras
muito importunas
que têm pressa de sair
do forno ou do congelador.
O facto não tem valor. Mal estejam fora
olham em volta e têm ar de dizer:
que estou aqui a fazer?
2
Com horror
a poesia recusa
as glosas dos escoliastas.
Mas não é certo que demasiado muda
se baste a si mesma
ou ao aderecista que tropeça nela
sem saber que é
o seu autor.
Eugenio Montale, Satura I, in Poesia, trad. de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Xenia II.1
1
A morte não te dizia respeito.
Também os teus cães estavam mortos, morto estava
o médico dos loucos a quem chamavam o tio demente,
morta a tua mãe e a sua «especialidade»
de arroz de rã, triunfo milanês;
e também o teu pai que de um pequeno medalhão
me vigia da parede noite e dia.
Mas apesar disso a morte não te dizia respeito.
Aos funerais era eu que tinha de ir,
escondido num táxi ficando à distância
para evitar lágrimas e incómodos. A própria
vida não te importava com as suas feiras
de vaidades e cobiças e muito menos os
cancros universais que transformam
os homens em lobos.
Uma tábua rasa; se não se desse o caso
de um ponto existir, para mim incompreensível,
e esse ponto dizia-te respeito.
Eugenio Montale, Satura, in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
A morte não te dizia respeito.
Também os teus cães estavam mortos, morto estava
o médico dos loucos a quem chamavam o tio demente,
morta a tua mãe e a sua «especialidade»
de arroz de rã, triunfo milanês;
e também o teu pai que de um pequeno medalhão
me vigia da parede noite e dia.
Mas apesar disso a morte não te dizia respeito.
Aos funerais era eu que tinha de ir,
escondido num táxi ficando à distância
para evitar lágrimas e incómodos. A própria
vida não te importava com as suas feiras
de vaidades e cobiças e muito menos os
cancros universais que transformam
os homens em lobos.
Uma tábua rasa; se não se desse o caso
de um ponto existir, para mim incompreensível,
e esse ponto dizia-te respeito.
Eugenio Montale, Satura, in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
Marguerite Yourcenar, «Memórias de Adriano»
É estranho, a minha primeira imagem deste livro pertence a outro autor: é a do princípio do poema de Pessoa (sobre Antínoo): «era em Adriano fria a chuva fora», este verso é assim ou é parecido. Imagino o imperador encanecido, fora do seu palácio de mármore, no meio de nevoeiro e da chuva torrencial, a toga enlameada a roçar o chão, os pretorianos aos berros com ele, eh, volte para dentro imperador, ele ombros descaídos, absorto, uma mão a tentar segurar parte do pano, da outra roendo as unhas, um homem como se fosse um naufrágio. A minha coisa com o livro de Yourcenar: Adriano, se não me falha a memória nisto, esperemos que não, penso que não, era um sábio, era um sofista, um animal político (para efeitos práticos inverta-se aqui a máxima de Aristóteles). O tipo mais poderoso do mundo, este mestre de marionetas que sabe quando está a puxar o fio e quando está a ser puxado, quanto deve condescender ou deixar que sejam com ele condescendente. Tudo calculado: o que ele sabe, o que ele pode saber, a sua vantagem sobre outros. E depois o que acontece é que este homem infinitamente sábio e hábil não se pode defender da vida. Antínoo é a sua terrível lição. A sua prova no labirinto. E Yourcenar conta-nos de como a vida o esmaga, que coisas se lhe escapam por entre os dedos, preciosa areia correndo, nada a pode deter, e de como ainda assim, há qualquer coisa nele que se escapa incólume. Não um ofício de memória, o que pode recordar e reclamar para si como tendo sido ele algures no tempo, é outra coisa, é por isso que o livro de Yourcenar é tão bom. Adriano. Há esta categoria de homens que guardam memórias, para quem a dada altura tudo o que podem recordar está destinado a tornar-se um veneno, o que foi bom e o que foi mau indiferentemente, porque para tudo eles conseguem calcular uma forma de posse. E Adriano até podia ter sido isso. Mas Adriano não é destes, é por isso que Yourcenar lhe escreveu as memórias. Adriano viveu, não para que pudesse guardar uma relação de tudo isso, memórias que a princípio alimentassem o seu desespero e depois a sua mesquinhez, mas viveu, isto é, foi inteiro em tudo quanto foi (Ricardo Reis) e compreendeu que havia uma parte em que apenas podia abdicar. Por isso uma das epígrafes (se não me falha a memória) do livro é: natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit, o que numa tradução eventualmente tosca quer dizer: a natureza falha-nos, a sorte muda, do alto um deus tudo observa. Isto que pertence ao deus, Adriano não reclama para si. Grava em mármore a imagem do que pôde amar, do que mais amou e era uma beleza tão terna tão efémera, como quem pudesse disputar com um deus o direito que lhe sobra, o de dizer: «isto é uma imagem de vida, eu sei quanto num corredor qualquer do tempo isto é belo, com uma parte da minha teimosia e arrebatamento nisto contida, e continuará sendo». Quando discutimos sobre o imperecível, o possivelmente imperecível, lembro-me de Marguerite Yourcenar e lembro-me de Adriano.
sábado, 15 de janeiro de 2011
É toda a gente açaimada ficar em suspenso
A nossa língua não possui palavras que permitam dosear o grau de realidade, definir-lhe o peso. Digamo-lo sem nenhum véu: a fatalidade deste bairro é nada haver nele que se realize, é toda a gente açaimada ficar em suspenso, esgotar-se prematuramente sem conseguir ultrapassar certos limites. Tivemos ocasião de referir a exuberância e a prodigalidade das intenções, dos projectos e das antecipações. Não passavam de uma fermentação precoce, e portanto estéril, de desejos.
(...) Vamos envolver-nos em confusões intermináveis até a nossa febre e a nossa emoção se esgotarem, gastas por esforços inúteis, por uma vã procura.
Bruno Schulz, As Lojas de Canela*, Tradução de Aníbal Fernandes, Assírio & Alvim, 1987.
*Este livro foi-me recomendado por um futuro grande escritor (impressão que, dizem fontes não identificadas, terá experimentado António Lobo Antunes ao apertar-lhe a mão -- o grande escritor ainda não terá conseguido livrar-se dessa impressão), André Rodrigues. É um belo livro. Sobretudo dois contos, «As Lojas de Canela» e «A Rua dos Crocodilos». Não me apetece explicar agora o porquê de destacar estes dois contos e não outros quaisquer. Fica para outro dia.
Dois versos de "De Aegypto"
I, even I, am he who knoweth the roads/ Through the sky, and the wind thereof is my body.
Ezra Pound, Personae: Collected Shorter Poems, Faber & Faber, 1990.
Ezra Pound, Personae: Collected Shorter Poems, Faber & Faber, 1990.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Uma nota sobre José Saramago
Uma vez, falando sobre Beckett, disse-me um professor que no fim de lidos aqueles textos o que ficava era a respiração. Como depois de uma longa corrida, não sobra mais nada, só o arquejar, a noção de um ritmo vital. Com Saramago penso que é um pouco ao contrário, a respiração não é o que fica depois do texto, o que em teoria não se chama mas é chegar ao horizonte de expectativa (ora aqui uma terminologia teórica com a qual poderia compactuar), a respiração contém-se no texto.
O meu teórico da literatura favorito dizia que o romance era a épica de um mundo sem deus, daí a maior parte dos romances assumirem a forma da biografia ou neles serem relatados factos biográficos. Isto nem sempre é linear, obviamente. Argumenta ele que o objectivo disto é produzir uma imitação de vida, numa busca por uma totalidade entre homem e universo que ficara perdida para sempre, desde que a filosofia viera fazer umas quantas perguntas à poesia (passagem da épica para a tragédia). Saramago subverte isto, porque nos seus textos constantemente se diz «o divino não está fora de nós, não está numa forma fora da vida, o divino somos nós». É maravilhoso isto. Essa é uma coisa de que gosto muito em Saramago, o antropocentrismo. Há romances dele que são muito «renascentistas», descaradamente à Pico della Mirandola: magnum miraculum est homo (De Hominis Dignitate Oratio, tinha 23 anos quando escreveu esta frase Pico). E gosto da maneira como às vezes ele trava a respiração dos seus próprios textos porque há uma intuição que ele vê de relance e que o força a deter-se, como acontece numa conversa que ele encena no Memorial do Convento, vão duas personagens a falar sobre música (Domenico Scarlatti à conversa com Bartolomeu Lourenço de Gusmão?), a música o silêncio o silêncio a música, às tantas o italiano diz: «Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.» É uma intuição perfeita, entretecida no tecido do texto, quase que nem damos por ela, atravessa-nos como se estivéssemos a respirar, como quem pusesse pé numa música. Isto faz parte da poesia. As melhores coisas em literatura são sempre poesia.
October 5 (um excerto)
I was young here. Riding
the subway with my small book
as though to defend myself against
this same world:
you are not alone,
the poem said,
in the dark tunnel.
Louise Glück, Averno, Farrar, Straus and Giroux, New York, 2006
the subway with my small book
as though to defend myself against
this same world:
you are not alone,
the poem said,
in the dark tunnel.
Louise Glück, Averno, Farrar, Straus and Giroux, New York, 2006
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
A mulher mais bonita da Dinamarca
É uma cena passada num bar em Copenhaga. Marido e mulher entram nesse bar mas não vão juntos. Há uns meses tinham-se separado, ele arranja outra, ela arranja outro. O verbo é este «arranjar». Estranho que sem grande passionalidade à mistura. Não naquela onda do «tu traíste-me, eu agora vou trair-te de volta». Ela de facto resolve traí-lo de volta, mas porque sabe que é preciso, imagina que pode ser uma maneira de conquistar o seu próprio respeito de volta, sem que deixe de prever que pelo meio o há-de encontrar de novo. Achava na altura que é um filme sobre os golpes que recebemos de coração leve, para os quais conservamos uma dor a que concedemos o nosso riso, como quando rimos de cabeça descoberta no meio da multidão
[como Ulisses que primeiro chora de cabeça coberta entre os Feaces, mas quando começa a falar de si descobre a cabeça e também nós o vamos descobrindo].
Pensar que nesse filme vi pela primeira vez isto, representado de uma maneira tão suave: uma dor que não nos humilhasse, uma pequena dor de viver com, aquela que é esse teu modo de franzir o rosto, um baixar de cabeça e seguir em frente, um instante em que ela te detém, puxa-te por um braço, mas tu continuas.
Como estava a dizer, quando descobre que o marido a trai, ela não se lança de joelhos no chão, não arranca os anéis dos dedos ou os cabelos da cabeça. Entra muito suavemente por aquele bar em Copenhaga, em que há-de ouvir o marido dizer que quer beijar a mulher mais bonita da Dinamarca, que é ela, a mulher dele (a Eva Dahlbeck, depois deste filme será para sempre a mulher mais bonita da Dinamarca), mas só para a chatear e porque está bêbedo ele resolve ir beijar outra moça qualquer. E há este segundo que é maravilhoso, porque é onde Bergman a filma com uma ruga a sulcar-lhe o rosto, Eva Dahlbeck na meia idade, tão bonita que nem dá para acreditar, a usar um ar triste de todos os dias, o ar triste que podia ter enquanto de manhã no silêncio da casa arranja as torradas e o café, como quem diz: já estava mesmo à espera que me fizesses isso.
Se isto não acontece assim nesta cena, se não te estou a contar isto como deve de ser, também não me interessa, já vi o filme há tanto tempo que juro que podia ter acontecido. Isto é, entrámos juntos naquele bar em Copenhaga, foi já há tanto tempo que tudo podia ter acontecido ou não ter acontecido. Eu não guardei quase nada, só um plano do teu rosto a três quartos ou o pormenor de que és um homem narigudo. Que dividimos uma tosta e que o barulho de fundo era Jazz, talvez Coltrane de certeza que não era Miles. Hoje não saberia o caminho de volta a esse bar. Mas há esta outra coisa, impressão de uma luz muito silenciosa dentro de uma caixa de música, um sentimento delicado no rosto da Eva Dahlbeck, ela naquele instante é como um daqueles tipos que quotidianamente bebessem café sem açúcar e fossem ao longo dos anos guardando as embalagens de açúcar com que não o adoçam. Guardam de tudo isto um sabor amargo, envolto numa vaga doçura. Assim caminham as personagens de Bergman para concretizarem em coisa uma expressão que sempre me fez rir, porque a acho demasiado pesada, demasiado marcada pelo uso, que quase me soa a falso, caminham para o amor à séria [sic, não a sério], o amor para o resto das suas vidas, até porque estes dois já estão na meia idade. Mas antes, no meio da constância, é preciso que se tenham ferido de morte, é preciso partir tudo para poder caminhar de cabeça descoberta na manhã que se segue (o tipo que filmou isto da maneira mais literal, talvez não da melhor, foi Antonioni, no ano de 1961, em La Notte). Como acontece com aqueles dois, estilhaçados a meio de uma noite de Inverno, num bar em Copenhaga, sem que os tentasse nenhum deus (isso fica para outro filme, um filme com um nome lindo, Nattvardsgästerna), nenhuma palavra melosa, nenhuma indulgência, só um cair de cansaço no fim, é só quando se chega a esse abandono que podemos ver de certeza absoluta se ficámos ou não sós, mais do que isso, se ainda estão juntos. E eles ficam juntos no fim, porque aquele filme é uma comédia, mas Bergman estava a falar a sério. Sempre achei que sim, sabes. Muito honestamente e muito a sério.
[como Ulisses que primeiro chora de cabeça coberta entre os Feaces, mas quando começa a falar de si descobre a cabeça e também nós o vamos descobrindo].
Pensar que nesse filme vi pela primeira vez isto, representado de uma maneira tão suave: uma dor que não nos humilhasse, uma pequena dor de viver com, aquela que é esse teu modo de franzir o rosto, um baixar de cabeça e seguir em frente, um instante em que ela te detém, puxa-te por um braço, mas tu continuas.
Como estava a dizer, quando descobre que o marido a trai, ela não se lança de joelhos no chão, não arranca os anéis dos dedos ou os cabelos da cabeça. Entra muito suavemente por aquele bar em Copenhaga, em que há-de ouvir o marido dizer que quer beijar a mulher mais bonita da Dinamarca, que é ela, a mulher dele (a Eva Dahlbeck, depois deste filme será para sempre a mulher mais bonita da Dinamarca), mas só para a chatear e porque está bêbedo ele resolve ir beijar outra moça qualquer. E há este segundo que é maravilhoso, porque é onde Bergman a filma com uma ruga a sulcar-lhe o rosto, Eva Dahlbeck na meia idade, tão bonita que nem dá para acreditar, a usar um ar triste de todos os dias, o ar triste que podia ter enquanto de manhã no silêncio da casa arranja as torradas e o café, como quem diz: já estava mesmo à espera que me fizesses isso.
Se isto não acontece assim nesta cena, se não te estou a contar isto como deve de ser, também não me interessa, já vi o filme há tanto tempo que juro que podia ter acontecido. Isto é, entrámos juntos naquele bar em Copenhaga, foi já há tanto tempo que tudo podia ter acontecido ou não ter acontecido. Eu não guardei quase nada, só um plano do teu rosto a três quartos ou o pormenor de que és um homem narigudo. Que dividimos uma tosta e que o barulho de fundo era Jazz, talvez Coltrane de certeza que não era Miles. Hoje não saberia o caminho de volta a esse bar. Mas há esta outra coisa, impressão de uma luz muito silenciosa dentro de uma caixa de música, um sentimento delicado no rosto da Eva Dahlbeck, ela naquele instante é como um daqueles tipos que quotidianamente bebessem café sem açúcar e fossem ao longo dos anos guardando as embalagens de açúcar com que não o adoçam. Guardam de tudo isto um sabor amargo, envolto numa vaga doçura. Assim caminham as personagens de Bergman para concretizarem em coisa uma expressão que sempre me fez rir, porque a acho demasiado pesada, demasiado marcada pelo uso, que quase me soa a falso, caminham para o amor à séria [sic, não a sério], o amor para o resto das suas vidas, até porque estes dois já estão na meia idade. Mas antes, no meio da constância, é preciso que se tenham ferido de morte, é preciso partir tudo para poder caminhar de cabeça descoberta na manhã que se segue (o tipo que filmou isto da maneira mais literal, talvez não da melhor, foi Antonioni, no ano de 1961, em La Notte). Como acontece com aqueles dois, estilhaçados a meio de uma noite de Inverno, num bar em Copenhaga, sem que os tentasse nenhum deus (isso fica para outro filme, um filme com um nome lindo, Nattvardsgästerna), nenhuma palavra melosa, nenhuma indulgência, só um cair de cansaço no fim, é só quando se chega a esse abandono que podemos ver de certeza absoluta se ficámos ou não sós, mais do que isso, se ainda estão juntos. E eles ficam juntos no fim, porque aquele filme é uma comédia, mas Bergman estava a falar a sério. Sempre achei que sim, sabes. Muito honestamente e muito a sério.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Meia dúzia de versos
Ontem li meia dúzia de versos de que queria falar. Até queria ter falado deles mais cedo, mas quando estava a ler fiquei sem post-its
[que é uma coisa que compro em lojas de chineses, às pilhas, como caixas de fósforos, e que semeio por toda a parte, o fundo da minha mochila costuma ser um depósito deles, mas ontem, nada, nem um, o depósito estava vazio, há ainda o pormenor de, na loja onde geralmente os compro, ser invariavelmente atendida por dois miúdos chineses gémeos, que até ao ano passado me falavam em coro, mas este ano pararam de o fazer, e que regra geral aparecem os dois invariavelmente vestidos com camisolas do Sporting],
e como fiquei sem post-its, levou-me mais tempo a encontrar estes versos de que queria falar. Anyway. É um par de versos que podiam ser aparentemente teóricos, mas acabam por chegar onde querem. Por vezes penso que há certa divisão, não rigidamente imposta e nem sempre existente, entre um tipo de poemas que são mágicos, nós estamos a lê-los e de repente repete-se aquela imagem que, se não foi o que valeu o nobel ao Salvatore Quasimodo, devia ter sido, como dizia, estamos a lê-los e parece que somos trespassados por um raio de sol e de súbito é sera, pelo seu fio de Ariadne somos levados à respiração de uma súbita noite, num movimento que acaba por sabotar o primeiro e mais imediato significado dos versos de Quasimodo (o de que é muito efémera a vida), isto é, somos levados a um lugar em que ficamos mais atentos e alerta, porque acabamos de ver algo que apenas tínhamos entrevisto e agora é posto debaixo dos nossos olhos com toda a nitidez, sem nenhuma palavra a mais (a última vez que me aconteceu isso foi quando li o primeiro poema que abre os Poemas de Juan Luis Panero). Mas estes versos não são deste tipo, a sua índole é outra.
São versos de Louise Glück, em que ela diz "But ignorance/ cannot will knowledge./ Ignorance wills something imagined, which it believes exists.", estes versos, por sua vez, tanto quanto me parece, ligam-se a outros da mesma Louise Glück, "The characters/ are not people./ They are aspects of a dilemma or conflict." Acho que estes dois excertos se ligam porque onde há dilema ou conflito
[que é uma coisa que compro em lojas de chineses, às pilhas, como caixas de fósforos, e que semeio por toda a parte, o fundo da minha mochila costuma ser um depósito deles, mas ontem, nada, nem um, o depósito estava vazio, há ainda o pormenor de, na loja onde geralmente os compro, ser invariavelmente atendida por dois miúdos chineses gémeos, que até ao ano passado me falavam em coro, mas este ano pararam de o fazer, e que regra geral aparecem os dois invariavelmente vestidos com camisolas do Sporting],
e como fiquei sem post-its, levou-me mais tempo a encontrar estes versos de que queria falar. Anyway. É um par de versos que podiam ser aparentemente teóricos, mas acabam por chegar onde querem. Por vezes penso que há certa divisão, não rigidamente imposta e nem sempre existente, entre um tipo de poemas que são mágicos, nós estamos a lê-los e de repente repete-se aquela imagem que, se não foi o que valeu o nobel ao Salvatore Quasimodo, devia ter sido, como dizia, estamos a lê-los e parece que somos trespassados por um raio de sol e de súbito é sera, pelo seu fio de Ariadne somos levados à respiração de uma súbita noite, num movimento que acaba por sabotar o primeiro e mais imediato significado dos versos de Quasimodo (o de que é muito efémera a vida), isto é, somos levados a um lugar em que ficamos mais atentos e alerta, porque acabamos de ver algo que apenas tínhamos entrevisto e agora é posto debaixo dos nossos olhos com toda a nitidez, sem nenhuma palavra a mais (a última vez que me aconteceu isso foi quando li o primeiro poema que abre os Poemas de Juan Luis Panero). Mas estes versos não são deste tipo, a sua índole é outra.
São versos de Louise Glück, em que ela diz "But ignorance/ cannot will knowledge./ Ignorance wills something imagined, which it believes exists.", estes versos, por sua vez, tanto quanto me parece, ligam-se a outros da mesma Louise Glück, "The characters/ are not people./ They are aspects of a dilemma or conflict." Acho que estes dois excertos se ligam porque onde há dilema ou conflito
[coisas que seres de ficção podem projectar, no sentido em que são feitos da matéria da vida mas também do que deles queira fazer quem os imaginou, daí talvez Louise Glück (a.k.a. sujeito poético, mas sempre achei esta terminologia tão da treta) acertar quando diz que as personagens não são pessoas mas aspectos de um dilema ou conflito]
há sempre e também a instintiva, vital pulsação de uma ignorância, de uma impossibilidade de impor uma certeza absoluta, é onde não podemos ter a certeza sobre que cabeça se poderá abater a espada de Dâmocles, se sobre a tua ou sobre a minha. Das muitas forças que levam à poesia, penso que estes versos descrevem, sem chegarem a ser mágicos, aquela que pode ser uma delas, porque há neles um eco da primeira ignorância espantada que nos deixa um dilema ou conflito, que temos de seguir inevitavelmente por definição de nós próprios, dos nossos passos. Por isso alguém já disse, ou poderia dizer, que a poesia é irmã da filosofia (tresanda-me a Aristóteles isto, mas não tenho a certeza), mas numa coisa talvez essencialmente se afaste dela, enquanto uma tendencialmente se inclina para uma racionalização, o que nem sempre sucede mas tendencialmente sim, ou pelo menos é este o seu ponto de partida, a outra pode caminhar por um rasto de cacos e pode nunca sair do caos, e mesmo assim ser tão assertiva como a outra, porque são dois tipos de discurso possíveis do mundo.
Tudo isto para finalmente concluir que muitos dos poemas deste livro de Louise Glück, Averno, me desiludiram tremendamente. Louise Glück tinha um tema excelente em mãos, o rapto de Perséfone e, embora alguns dos poemas sejam muito bons, a maior parte deles morre na praia, desfaz-se em soluções muito fáceis.
Tudo isto para finalmente concluir que muitos dos poemas deste livro de Louise Glück, Averno, me desiludiram tremendamente. Louise Glück tinha um tema excelente em mãos, o rapto de Perséfone e, embora alguns dos poemas sejam muito bons, a maior parte deles morre na praia, desfaz-se em soluções muito fáceis.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Uma ténue força
«Entre as mais notáveis características do espírito humano», diz Lotze, «conta-se…, no meio de tantas formas particulares de egoísmo, a ausência generalizada de inveja de cada presente em relação ao seu futuro». Esta reflexão leva a que a imagem da felicidade a que aspiramos esteja totalmente repassada do tempo que nos coube para o decurso da nossa própria existência. Uma felicidade que fosse capaz de despertar em nós inveja só existe no ar que respiramos, com pessoas com quem pudéssemos ter falado, com mulheres que se nos pudessem ter entregado. Por outras palavras: na ideia que fazemos da felicidade vibra também inevitavelmente a da redenção. O mesmo se passa com a ideia do passado de que a história se apropriou. O passado traz consigo um index secreto que remete para a redenção. Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveram os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito.
Walter Benjamin, O Anjo da História: Obras Escolhidas de Walter Benjamin, João Barrento (ed. & trad.), Assírio & Alvim, Lisboa, 2010
Pitonisa de bolso
Depois de me forçar a persegui-lo por oito lances de escadas e duas janelas abertas, o gato estaca. É evidente que não pára de cansado ou porque tenha chegado exactamente ao lugar onde queria. Pára para amigavelmente me oferecer a pequena humilhação de uma trégua. Insondáveis são os desígnios do gato, conformemo-nos a eles. Rebola-se a ronronar de contente no chão de mármore, pela janela entram uma ou duas folhas secas que ele se entretém a espanejar com as patas durante um bocado e, quando estou quase no limite da paciência, vem enrolar-se nas minhas pernas. Pessoanamente falando, qualquer coisa no gato é um sinal de que num lugar recôndito de Janeiro estão escondidas as primícias da Primavera, qualquer coisa nele que guardasse por instinto a memória disso, um lento resgatar dos primeiros frutos na sua corrida pelas escadas (mais certamente sinal de que estaríamos a chegar à época do «se te armas em esperto, mijo-te o Herberto»). Agora senta-se para ali, à janela, como se nada fosse com ele, pitonisa de bolso, insondavelmente abana a cauda em cima dos livros. Adoro o sacana do gato, desde o momento em que, ainda com dois ou três meses, enfiado dentro de um saco com mais três ou quatro gatinhos me estendeu as patas e começou a morder-me furiosamente, mas cheio de método, as mãos. Com se dissesse: «I think this is the beginning of a beautiful friendship.»
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